Cinema: Fugindo dos mafiosos

Escondido da Máfia

Escondido da Máfia

O filme “Gomorra”, baseado no livro homônimo, virou best-seller em 43 países e um marco do actual cinema italiano, estando já na lista dos favoritos do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.

 

O seu autor, o jornalista Roberto Saviano, escondido e protegido por escolta policial desde 2006, quando lançou o livro na Itália, foi ameaçado de morte e corre o risco de não comemorar o Natal este ano. A Camorra italiana, organização criminosa sediada em Nápoles com ramificações em todo o mundo, prometeu matá-lo até o dia 25, colocando um ponto final na sua carreira.

A leitura de Gomorra – paronímia que aproxima a cidade bíblica dos pecadores da Camorra italiana – deve ser feita preferencialmente com um balão de oxigênio por perto. O ar é fétido, irrespirável, desde o primeiro parágrafo, em que Saviano descreve uma cena apocalíptica. Nela, um contêiner balança no porto de Nápoles enquanto a grua se desloca para o navio. Do seu interior desabam corpos congelados de chineses, cujos documentos devem ter passado às mãos de compatriotas, igualmente explorados pela Máfia chinesa, que, segundo Saviano, trabalha em sociedade com a Camorra. E apresenta dados de tirar o fôlego: 20% das importações têxteis da China passam pelo porto de Nápoles, onde 60% das mercadorias escapam do controle aduaneiro. É também em Nápoles, segundo ele, que opera o maior armador do Estado chinês, que administra o maior terminal de contentores napolitano em sociedade com empresários suíços, donos da segunda maior frota de navios do mundo.

Bastaria essa denúncia para Saviano ser ameaçado pela Camorra. Apesar do apoio público que recebeu de escritores como o anglo-indiano Salman Rushdie e do vencedor do Nobel Orhan Pamuk, o destino de Saviano parece mesmo selado desde o dia em que se infiltrou entre os camorristas para descobrir como funcionava a máfia napolitana. Ele descobriu uma organização envolvida tanto no tráfico de drogas como no despejo clandestino de resíduos químicos, além dos rotineiros crimes de vingança que envolvem famílias camorristas e seus dissidentes. No ramo “empresarial”, a Camorra comandaria ainda a construção civil na Itália, a fabricação de leite adulterado, a importação de fuzis Kalashnikov e até o tráfico de moldes das grifes européias para a China dos falsificadores. Nada mais globalizado que o crime organizado.

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