Os 70 anos de Marvin Gaye, o príncipe do soul

Cantor, assassinado pelo pai um dia antes de completar 45 anos, deixou um legado fabuloso e continua a influenciar artistas como Prince e Ben Harper

Um tiro no peito, desferido pelo próprio pai, calou a grande voz de Marvin Gaye numa data tragicamente irônica, 1º de abril de 1984, um dia antes de completar 45 anos. Hoje passam sete décadas do seu nascimento – um bom motivo para se falar da sua importância e, principalmente, voltar a ouvi-lo. Nenhuma edição especial da sua obra foi planeada para celebrar a data. Não é preciso. Pelo menos no seu país de origem, Estados Unidos, o seu legado está bem conservado. Três de seus principais álbuns, What?s Going on (1971), Let?s Get it on (1973) e I Want You (1976) ganharam edições de luxo em 2003, com faixas extras.

Quase duas décadas e meia depois de sua morte, é notável a influência de Marvin na música – não só negra, não apenas americana, não só sobre os cantores. Prince, Rick James, Janet Jackson, Maxwell, George Michael, Ben Harper, DeBarge, Mick Hucknall (do Simply Red), Neneh Cherry e uma legião de outros menos famosos reconhecem nele uma enérgica fonte de musicalidade. A voz, porém, é inimitável, inconfundível, uma das mais tocantes, doces e poderosas de todo o pop. Marvin, por sua vez, foi influenciado por Rudy West, Clyde McPhatter, Little Willie John e Ray Charles. Sam Cooke era o seu ídolo. É daí que provavelmente veio o apelido de “príncipe da soul music”, já que Ray era o rei. Ou seria Cooke?

Falando em grandes vozes, diz a lenda que Marvin almejava ser um Frank Sinatra. Ele também gravou um tributo a Nat King Cole e registou duetos antológicos com Diana Ross, Tammi Terrell e Kim Weston.

Nem quando se propôs a construir um fracasso conseguiu ser ruim. É o caso do famoso Here, My Dear, que ele foi judicialmente obrigado a gravar revertendo a renda das vendagens para a ex-mulher depois do divórcio. A vingança não poderia ter sido mais cruel: Marvin não só fez um álbum de canções amargas, mas absolutamente difíceis, anticomerciais.

Um bom panorama da sua carreira pode ser apreciado na caixa The Master Marvin Gaye 1961-1984 (Universal), que cobre os principais feitos desse artista genial, revolucionário, pacifista, sensual. E também perturbado, dividido entre a glória do sucesso, a culpa religiosa e o inferno das drogas, que, afinal, deu o pretexto para que o pai, um moralista pastor protestante, fizesse a sua “justiça”, tornando o mundo bem mais triste e sem graça naquele fatídico primeiro de abril.(X)

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