De génio e de louco Phil Spector tem de tudo um pouco (*)

"As pessoas idolatram-me, querem ser como eu"

"As pessoas idolatram-me, querem ser como eu"

O génio da indústria discográfica norte-americana foi condenado por homicídio na segunda-feira, em Los Angeles. A vítima era uma ex-actriz de filmes série B, que morreu poucas horas depois de se terem conhecido. Ficam para a história as gravações de Spector, o inventor do wall of sound, mas o homem, esse, vai ficar atrás das grades pelo menos 18 anos

Excêntrico, misógino, paranóico, sádico, violento e quixotesco, mas também inseguro, solitário, deprimido e complexado. O produtor musical Phil Spector, 68 anos, mais do que uma lenda da indústria discográfica, sempre foi uma figura polémica e esquiva. Um eremita que, ainda antes dos 30, multimilionário e incompatibilizado com o mundo, se barricou na sua mansão de Los Angeles, um palácio com 33 quartos a que chamou Castelo dos Pirenéus. Uma espécie de Howard Hughes do rock and roll, como foi descrito pelo The Telegragh.
Phil Spector, o génio que inventou um novo conceito de gravação de álbuns através do sistema wall of sound (criando camadas de som com vários grupos de instrumentos, para dar mais densidade à gravação), é o mesmo homem que um dia apontou uma arma à cabeça de Leonard Cohen dizendo-lhe, afectuosamente, que o amava. O homem que contribuiu para o êxito de Imagine, de John Lennon, foi o mesmo que ameaçou várias conquistas amorosas com disparos à queima-roupa e se assumiu como louco e bipolar.
Phil Spector, o homem, foi condenado por homicídio, na segunda-feira, num tribunal de Los Angeles. A pena nunca poderá ser inferior a 18 anos de prisão, o que significa que Spector poderá morrer na penitenciária ou sair dela octogenário. Mas Phil Spector, o génio, continua a ser o produtor de êxitos como Be my baby, das Ronettes, e You’ve lost that lovin’ feelin’, dos Righteous Brothers, considerada a canção mais tocada do século XX.

A morte de Lana Clarkson

No início de Fevereiro de 2003, Spector conheceu Lana Clarkson. A ex-actriz de filmes série B – que tinha participado em títulos como Barbarian Queen e Amazon Women on the Moon – trabalhava, aos 40 anos, como assessora VIP da discoteca House of Blues, na Sunset Strip de Hollywood. Phil meteu conversa com Lana e convenceu-a a sair para tomar um copo nessa mesma noite. Poucas horas depois, no dia 3, Lana Clarkson aparecia morta, sentada numa cadeira e com a carteira ao ombro, no lobby da mansão de Spector. Causa de morte: um tiro na boca.
Acusado da morte da ex-actriz, Spector pagou uma caução de um milhão de euros e saiu em liberdade, tendo-se mantido assim desde 2003. O produtor sempre se declarou inocente, tendo os seus advogados (os vários que se foram sucedendo ao longo dos anos) insistido na versão de que Clarkson se teria suicidado. Pelo contrário, a acusação sempre defendeu que Spector revelou um padrão comportamental de abusos contra mulheres.
A propósito deste seu traço de carácter são conhecidas várias histórias excêntricas e estranhas do seu primeiro casamento com Ronnie Bennett, a estrela das Ronettes. A história de amor entre os dois conheceu contornos sádicos. De acordo com um artigo da Vanity Fair, de 2003, os ciúmes de Spector eram épicos e, por isso, quando andava em digressão, o produtor obrigava Ronnie a dormir com o telefone ligado, mas fora do gancho, para ele poder sentir a sua respiração durante a noite. Mais mórbido era o fascínio de Spector por um caixão dourado com tampa de vidro que mantinha na cave da mansão e que guardava para o cadáver da mulher, caso ela decidisse deixá-lo. Ronnie, que se divorciou do produtor em 1974, escreveu anos mais tarde na sua autobiografia que, se não tivesse saído da mansão, teria lá morrido.
O primeiro julgamento contra o produtor pela morte de Lana, que terminou em 2007, foi considerado inconclusivo, uma vez que os jurados não foram unânimes: dois em dez consideraram-no inocente. À segunda tentativa, porém, e após cerca de 30 horas de deliberações, os jurados consideraram Spector culpado de homicídio simples (sem premeditação, o equivalente ao second degree murder). A decisão foi unânime. O júri considerou-o igualmente culpado de uso de arma de fogo durante a prática de um crime, o que junta um mínimo de mais três anos aos outros 15 por homicídio.
Durante o julgamento, cinco mulheres testemunharam como foram ameaçadas por Phil com armas. Estes testemunhos, combinados com as declarações do ex-motorista, o brasileiro Adriano de Souza, que disse que, na manhã do crime, o produtor saiu de casa e lhe sussurrou “Acho que matei alguém!”, ditaram a sua condenação, seis anos depois dos factos.
Phil Spector, que durante as sessões de julgamento foi aparecendo com perucas e acessórios excêntricos, aceitou a deliberação do tribunal com ar sombrio e pouca expressividade. A família da vítima considera que se fez justiça. A pena de prisão será conhecida no próximo dia 29 de Maio.

O wall of sound

Harvey Phillip Spektor nasceu um dia depois do Natal de 1940, num Bronx duro e miserável, mas a salvo da guerra na Europa. Os seus pais eram judeus russos e, veio a saber-se mais tarde, primos direitos.
Quando tinha nove anos, o pai de Spector, um trabalhador da indústria do aço, suicidou-se, o que fez com que a mãe se mudasse para a Califórnia, na companhia dos filhos (Spector tem uma irmã). Esquálido e desadequado, o jovem mantém um percurso escolar e pessoal discreto até criar a sua primeira banda, os Teddy Bears. Em breve Spector fez dos seus colegas do secundário estrelas adolescentes, ao ajudar a levar ao primeiro lugar das tabelas de singles o hit de 1958 To know him is to love him, a inscrição que constava da pedra tumular do seu pai. Foi o seu primeiro sucesso, tinha 18 anos. Aos 22 já era milionário.
Mais do que um produtor, Spector era um visionário que sonhava em criar um som nunca antes atingido em estúdio. A criação do seu próprio selo musical, a Philles, foi o começo do sistema de gravação que mudou a indústria discográfica: o wall of sound. Usando um grande número de músicos tocando partes individuais de cada tema, e que depois eram sobrepostas umas sobre as outras, transformou esta técnica de produção numa das marcas de água de Spector. O resultado final soava a pouco menos que uma orquestra: o som era denso e cheio. O próprio Spector descrevia o som como “uma aproximação ‘wagneriana’ ao rock and roll: pequenas sinfonias para crianças“. Era esse o seu modus operandi: arregimentar músicos como quem comanda soldados, deixando para sempre a sua impressão digital na indústria.
Usando o método do wall of sound, Spector gravou artistas como as Ronnettes, os Crystals, os Righteous Brothers, transformando-se numa máquina de hits, incluindo Da doo ron ron, Then he kissed me, Be my baby, You’ve lost that lovin’ feelin’ e Unchained melody.
Em 1966, após o falhanço de Ike e Tina Turner com River Deep – Mountain High, Spector capitulou, irritado com a falta de ouvido do público para aquilo que ele achava ser um sucesso retumbante. Em 1968, aos 28 anos e já milionário, Spector – que já cultivava a imagem de excêntrico – estava já retirado do escrutínio público e isolado na sua mansão. Por essa altura, de acordo com a primeira mulher, Spector passava os dias a ver e rever o filme Citizen Kane (O Mundo a Seus Pés), a parábola de ambição servida por Orson Welles, chorando de cada vez que o símbolo de alegria e inocência da infância do protagonista – um trenó chamado Rosebud – era incinerado.
Só na década de 70 é que Spector voltou ao activo, com uma triunfante colaboração com os Beatles no álbum Let It Be, e com a produção de álbuns a solo para John Lennon (incluindo Imagine) e George Harrison.
À medida que a década de 70 avançava, Spector tornava-se cada vez mais evasivo e alguns episódios seus com os artistas que ajudava em estúdio a tornaram-se lendários. Uma vez disparou contra o tecto quando gravava com Lennon, outra vez manteve a banda punk Ramones refém no estúdio e, numa outra ocasião, apontou a arma à cabeça de Leonard Cohen enquanto lhe declarava o seu amor, durante as sessões de gravação do álbum Death of a Ladies’ Man. Os rumores de que abusava do álcool e de que tinha uma arma para cada fato que vestia começaram a tornar-se cada vez mais frequentes, bem como os seus episódios de fúria incontrolável. Depois de vários anos a molestar e a intimidar mulheres, sujeitando-as por vezes ao jogo da roleta russa, Phil Spector parece ter guardado a útlima bala da sua arma para Lana Clarkson. Pelo menos a Justiça acredita que sim.
Devo dizer que sou relativamente louco, até certo ponto“, disse Spector numa rara entrevista concedida ao britânico The Telegraph, apenas cinco semanas antes do crime de 2003. “As pessoas idolatram-me, querem ser como eu. Mas eu digo-lhes: confiem em mim, vocês não querem a minha vida. Porque não tem sido uma vida agradável. Tenho sido uma alma torturada. Não tenho estado em paz comigo. Não tenho sido feliz.”

(*) – Por Susana Almeida Ribeiro, Público (15/04/2009)

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