Africanos contam as suas próprias histórias em festival de cinema

Mahen Bonetti - "Dispensamos ajuda de fora no cinema"

Mahen Bonetti - "Dispensamos ajuda de fora no cinema"

Incentivados por equipamentos de vídeo de baixo custo, jovens africanos vêm infundindo ao cinema do continente um ânimo que não era visto desde os movimentos independentes dos anos 1960, diz a directora do Festival de Cinema Africano de Nova Iorque.

Mahen Bonetti disse que o crescimento do cinema africano, inspirado pelo sucesso da florescente indústria do cinema da Nigéria, conhecida como “Nollywood”, está a permitir a países como Quênia, Etiópia e Ruanda a dar um impulso nos seus próprios sectores do cinema.

A indústria do cinema da Nigéria movimenta 450 milhões de dólares e é a terceira maior do mundo, depois de Hollywood e de Bollywood, esta última da Índia.

O festival, que terá lugar entre 22 e 25 de maio na Brooklyn Academy of Music, vai exibir filmes feitos em todo o continente africano.

A edição deste ano do festival inclui “In My Genes”, da cineasta queniana Lupita Nyongo, sobre o estigma que cerca o albinismo, e “Paris or Nothing”, da directora camaronesa Josephine Ndagnou, sobre uma jovem que se muda para Paris.

Quatro curtas-metragens de membros da colectiva “Cineastas Contra o Racismo” exploram a violência xenófoba que explodiu na África do Sul no verão passado.

“É um renascimento”, disse Bonetti, 52 anos. “Estes jovens cineastas podem comprar o seu próprio computador, até mesmo a sua própria câmera. E podem até editar os seus filmes em casa, em África. Isso tem lhes dado muita autonomia”.

Enquanto vários directores africanos são amplamente conhecidos – entre eles se destaca o falecido Ousmane Sembene, do Senegal, visto como o pai do cinema africano, Bonetti diz que a maioria dos filmes feitos sobre o continente até hoje repetiu estereótipos.

Os cineastas africanos vêm tendo dificuldade em ampliar o sucesso de Sembene, que começou em meados dos anos 1960, em parte porque as guerras civis e a turbulência ceifaram o florescimento cultural que acompanhou o fim dos governos coloniais, disse Bonetti.

Os directores africanos dependem em grande medida de financiadores europeus para fazer os seus filmes, disse ela, facto que limitava o que eles podiam produzir. Mas a chegada de equipamentos de baixo custo e de softwares de edição amplamente disponíveis mudou esta situação.

“Esse fenômeno do vídeo é, em certo sentido, a resposta para a própria indústria do cinema”, afirmou Bonetti. “Essa produção de vídeos caseiros virou um modelo para a criação de vários países, dando um incentivo grande a seus cinemas. Não precisamos mais buscar ajuda de fora”.

Bonetti, que cresceu em Serra Leoa nos anos 1960, descreve-se como tendo ficado “congelada” nessa época. Os seus pais eram activos na política, e, após a independência, em 1961, o seu tio Milton Margai foi o primeiro primeiro-ministro do país.

Bonetti deixou Serra Leoa e, em 1980, acabou seguindo dois de seus irmãos, fixando-se em Nova Iorque.

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