GOVERNO PORTUGUÊS TENTA DISTORCER HISTORIA COLONIAL

Uma das formas de castigo aos escravos

Uma das formas de castigo aos escravos

Por Paul Fauvet, da AIM

Um número considerável de académicos proeminentes especializados na pesquisa da história dos países africanos de expressão portuguesa e do colonialismo português escreveram uma carta aberta em três línguas, nomeadamente inglês, português e francês, para denunciar a última tentativa do governo deste país europeu de distorcer o passado sangrento da sua expansão colonial em África.

Actualmente, o governo e instituições portuguesas, tais como a Universidade de Coimbra, estão a organizar um concurso internacional designado por “As Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo”.

Estas maravilhas consistem em monumentos construídos em todo o mundo, a maioria dos quais durante o auge do poderio colonial português.

De facto, alguns destes monumentos são impressionantes – mas a nota explicativa trata os mesmos como se não fossem mais do que obras-primas de arquitectura. A partir da literatura que acompanha o concurso ninguém seria capaz de adivinhar que durante muitos séculos vários destes locais desempenharam um papel chave no comércio de escravos através do Oceano Atlântico.

Estimativas indicam que durante o comércio de escravos cerca de 12 milhões de africanos foram raptados e transportados através do Atlântico. Portugal, e a sua antiga colónia, o Brasil, foram responsáveis por pelo menos metade deste número.

O comércio de escravos e’ dos factos mais notáveis da história da expansão colonial portuguesa, mas que foi deliberadamente omitida do concurso “As Sete Maravilhas Portuguesas”.

A carta aberta nota que nas últimas duas décadas “vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o património que lhe é associado”.

Alguns dos países que também praticaram o comércio de escravos, entre as quais se destacam a França, reconhecem a escravatura como tendo sido um crime contra a humanidade, razão pela qual este país europeu adoptou a data 10 de Maio como o “Dia Nacional de Comemoração das Memórias do Tráfico Negreiro, da Escravatura e das suas Abolições”.

O Vaticano, que outrora também foi cúmplice da escravatura, já pediu desculpas pelo papel que desempenhou. Esse pedido de desculpas foi feito publicamente pelo Papa João Paulo II quando, em 1992, visitou a Casa dos Escravos na Ilha de Gorée, ao largo da costa do Senegal.

Igreja do Ibo, construída pelos portugueses em Moçambique. A espada e a religião foram cúmplices na escravatura

Igreja do Ibo, construída pelos portugueses em Moçambique. A espada e a religião foram cúmplices na escravatura

Vários presidentes, cujos países estiveram profundamente comprometidos com o comércio de escravos, incluindo o brasileiro Lula da Silva, e os norte americanos Bill Clinton e George W. Bush, seguiram o exemplo, condenando os malefícios do comércio de escravos e o passado trágico dos seus países.

Em 2007, a Grã-Bretanha comemorou o seu segundo centenário da abolição do comércio de escravos, tendo o então primeiro-ministro, Tony Blair, manifestado o seu pesar pelo papel do seu país na escravidão de muitos africanos.

Portugal, ao invés, refere a carta, está a tentar remar contra a maré do reconhecimento e arrependimento.

A lista das Sete Maravilhas inclui a cidade histórica de Luanda, actual capital de Angola, a Ilha de Moçambique, que foi a primeira capital de Moçambique, Ribeira Grande, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, e o Castelo São Jorge da Mina (também conhecido por Castelo Elmina), no Gana.

Todos estes locais estiveram profundamente envolvidos no comércio de escravos, facto que e’ sistematicamente omitido na literatura do concurso Sete Maravilhas.

A excepção de um único caso: o texto das “Sete Maravilhas” chegou ao cúmulo de afirmar que o Castelo Elmina foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa, em 1637.

Esta parece ser mais uma tentativa de insinuar que apenas os holandeses eram praticantes da escravatura, e não os portugueses.

Contudo, a carta aberta, nota que os portugueses construíram o Castelo Elmina, em 1482. Foi um entreposto de escravos, embora também serviu para o comércio de ouro e de outros produtos. Porém, não existe margem de dúvida de que um grande número de escravos passaram através de Elmina, quando ainda se encontrava sob o controlo dos portugueses, e que acabaram sendo levados para o Brasil.

Fortaleza do IBO: aqui, até 1974 os portugueses mataram e torturam os moçambicanos

Fortaleza do IBO: aqui, até 1974 os portugueses mataram e torturam os moçambicanos

A carta refere que “para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses ‘monumentos’ no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso actual”, (Por exemplo, O Castelo Elmina e’ actualmente um museu que mostra a história da escravatura).

Segundo os signatários da referida carta, o governo português e os organizadores do concurso “ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos”.

“Será possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias europeias?”, questionam os autores da carta aberta.

“Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados”, conclui a carta, descrevendo o concurso como sendo uma tentativa de banalizar e apagar a história “em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta ‘beleza’ arquitectónica de tais sítios de morte e tragédia”.

A carta e’ assinada por várias dezenas de académicos de varias universidades em África, Europa, América do Sul e do Norte.

Por isso, os autores da carta aberta decidiram lançar uma petição “on-line” contra a distorção da história, que toda a gente poderá assinar, e que se encontra disponível no endereço http://www.petitiononline.com/port2009/petition.html.

5 Respostas to “GOVERNO PORTUGUÊS TENTA DISTORCER HISTORIA COLONIAL”

  1. Jackie Félix Says:

    Sou Portuguesa com muito orgulho pelo meu país, mas fiquei realmente enojada com quem criou o concurso (pode até parecer uma palavra demasiado forte, mas não é).
    Nunca escutei uma palavra sobre as pessoas que realmente construíram alguns daqueles edifícios, nem sobre as muitas vidas envolvidas nesta expansão que levou o Português como língua e cultura aos outros povos e que de alguma forma (diferentemente de outros países que também o tentaram) ainda nos mantêm nas suas próprias culturas.

    A maioria das pessoas esquece que o passado colonialista das muitas nações do nosso planeta envolveu escravatura.
    Ao longo dos séculos foi assim. Os muitos impérios foram construídos com o sangue dos humanos que perdiam batalhas, que eram raptados ou simplesmente vendidos pelas famílias. Este flagelo não deixou de existir só porque os governos a tornaram proibida e a repudiam. Os chefes de estado que referem, são hipócritas, pois a escravatura ainda faz parte da construção dos respectivos países.

    Tenho pena de só hoje ter tido conhecimento da vossa petição, mas mesmo assim digo: Obrigada!

  2. ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

  3. Por acaso encontrei este texto quando procurava informação sobre escravos ,e devo dizer que me impressionou mesmo já sabendo dessa verdade anteriormente.
    Sou portugues e como tal fico triste desse passado vergonhoso mas passado é passado.
    Seria interessante que cada monumento apresentado fosse acompanhado com a história da utilidade dos mesmos pois é algo que está ligado á “beleza” dessas maravilhas e dar lhes o titulo de como não se deve usar as maravilhas .
    Como portugues quero pedir perdão ao mundo pelos crimes feitos contra os povos que os meus antepassados assassinaram em nome de Deus e em nome da nação portuguesa. Obrigado

  4. MOÇAMBIQUE !
    A minha terra amada que me viu crescer e me deu vida para poder vivger em todas as suas latitudes. É a terra que já mais poderei esquecder e comigo partirá no meu coração Terra minha que não consigo viver sem ti e que fostes a fonte de todos os meus sofrimentos bons e menos bons que a minha juventude me proporcionou, e que tanto gostaria de te voltar a ver cheia de vida e alegria como o povo que todos os dias te vê acordar no raiar da manhã
    a todos os moçambicanos residentes em moçambique vai o meu apreço respeito e admiração e continuem lutando por essa pérola de áfrica que se chama Moçambique, terra multicultural e cheia de grandes feitos históricos e Herdeira que foi de uma civilização invejável quer Oriental quer ocidental e que tão bem tem preservado. A todos os moçambicanos um abraço profundo cheio de amizade.

  5. RAS DAN TAFARI Says:

    O ECO DO SANGUE DOS INOCENTES CLAMA POR JUSTIÇA E ESTA SERA COBRADA A TODOS QUE MANCHARAM SUAS MÃOS COM SANGUE DE CRIANÇAS ,MULHERES ,IDOSOS MORTOS PELA LUXÚRIA DA SUPREMACIA BRANCA.CADA CRIANCA NEGRA Q NASCE OUVE ESTE ECO DO ANTEPASSADOS BRUTALIZADOS.

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