Cinema: O eterno fascínio dos filmes de ‘gangsters’

O filme “Inimigos Públicos”, é o mais recente de Michael Mann, que apresenta Johny Depp a recriar a figura de John Dillinger, um dos mais célebres ‘gangsters’ da América dos anos 30. O filme reflecte uma vez mais uma antiga atracção do cinema norte-americano por este universo.

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Quando John Dillinger foi morto pelo FBI em Chicago, a 22 de Julho de 1934, à saída do Biograph Theater, tinha acabado de ver Manhattan Melodrama, um filme de gangsters com Clark Gable, William Powell e Myrna Loy. Ou seja, tinha estado a entreter-se com uma encenação cinematográfica da sua actividade, mas por razões óbvias, nunca ninguém chegou a saber o que Dillinger achou do filme.
Na sua crítica no The New York Times a Inimigos Públicos, de Michael Mann, Manohla Dargis refere o “perene romance” que o cinema americano tem com os “criminosos de época”. E apesar de ultimamente, Hollywood não ter sido muito fiel a essa relação (o último filme de gangsters de nota foi Os Intocáveis, de Brian De Palma), ainda a Lei Seca estava em vigor e muitos dos mais temidos nomes do crime estavam vivos e em actividade.
Alguns dos melhores desses filmes continuam a ser os primeiros, quer pelo talento dos seus realizadores e argumentistas e pelo carisma imperecível dos seus actores, quer por um realismo directamente bebido nos acontecimentos e nas figuras retratadas. É o caso de O Pequeno César, de Mervyn Le Roy (1931), com Edward G. Robinson; de O Inimigo Público, de William Wellman (1931), tão popular na altura que chegou a passar em sessões contínuas, com James Cagney no papel que o lançou e instalou a sua imagem de “duro”; ou de Scarface, de Howard Hawks, com Paul Muni (1932), este vagamente baseado na vida de Al Capone. Que, diz-se, gostava tanto da fita, que tinha uma cópia para ver em privado.
Se o western é a epopeia americana, o filme de gangsters pode ser encarado como o anti-épico, um género de ambiente urbano, com personagens anti-heróicas e não-exemplares, representativo de valores negativos, gerados pelo lado mais negro da sociedade dos EUA. Mas como notou a citada crítica do The New York Times, os espectadores, americanos ou não, sentados na segurança confortável dos cinemas, desde logo se mostraram fascinados pelas vidas, pelas histórias e pelas acções dos gangsters, reais ou ficcionais. E os estúdios têm continuado a alimentar essa fascinação ao longo das décadas.
John Dillinger, por exemplo, teve a primeira aparição no cinema em Dillinger, de Max Nosseck (1945), interpretado por Lawrence Tierney, foi biografado por John Milius, com os traços de Warren Oates, no empolgante Dillinger (1973), e Lewis Teague contou a história da mulher que o traiu ao FBI numa excelente série B de 1979, A Mulher de Vermelho. James Cagney tornou-se no gangster’s gangster graças a Anjos de Caras Sujas, de Michael Curtiz (1938), The Roaring Twenties, de Raoul Walsh (1939) – em ambos ao lado de um Humphrey Bogart em ascensão – ou Fúria Sanguinária, também de Walsh (1949). Roger Corman filmou o Massacre de S. Valentim em O Grande Massacre (1967), e deu a Charles Bronson o papel do título em Machine-Gun Kelly (1958), enquanto Don Siegel transformou Mickey Rooney em Baby Face Nelson no filme homónimo de 1957. Arthur Penn filmou Bonnie e Clyde (1967) retratando o casal de assaltantes de bancos como (duvidosos) heróis populares da Grande Depressão, e Barry Levinson deu a Warren Beatty o papel principal em Bugsy (1991), sendo muito criticado por branquear o lado violento e sociopata de Bugsy Siegel.
O gangster movie até já gerou musicais com crianças (Bugsy Malone, de Alan Parker, 1976) e paródias (Johnny Perigosamente, de Amy Heckerling, 1984). E o genial Quanto Mais Quente, Melhor, de Billy Wilder (1959) é também um pouco um filme do género, contando com a presença de George Raft. Que, por ter sido amigo de muitos bandidos famosos e do citado Bugsy Siegel em particular, fez a ponte entre o mundo dos gangsters reais e o do cinema que, embora esporadicamente, ainda continua a pô-los em cena.

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