Jaimito: Um louco ou o homem que devia ter nascido amanhã?

Jaimito, sentadoe lendo à entrada do Centro Social da Rádio Moçambique em Maputo

Num dos muros da vedação do jardim botânico Tunduru, mesmo defronte do edifício-sede da Rádio Moçambique, em Maputo, estão expostos em papel normal ou cartolina, algumas reflexões, em texto, de um homem que chama a atenção de todo o transeunte da zona, mais precisamente da Rua da Rádio.

Estes escritos são de autoria de Jaime Machatine, mais conhecido por Jaimito, seu nome artístico.

Não estão registados em algum caderno ou simples bloco de notas e muito menos em livro, mas estão disponíveis para quem os quiser consultar, interessado em conhecer e compreender o que aquele homem, que um dia foi considerado um dos melhores guitarristas moçambicanos no seu tempo, pensa de si e da sua vida e dos que o rodeiam.

“Os escritos do Jaimito”, assim me atrevo a chamá-los, podem ser entendidos como sendo fragmentos do pensamento do seu autor sobre os mais díspares assuntos, que vão da música ao cinema, passando pela literatura e religião, que é o que ele mais gosta de dissertar nas suas notas e em conversa com aqueles que o conhecem.

Um outro assunto sobre o qual ele escreve tem a ver com a sua longa e misteriosa permanência fora de Moçambique e sobre a qual os pormenores são escassos e dispersos e deles o Jaimito jamais se refere.

São também escassas referências a pessoas ou instituições com quem se relacionou no período em que permaneceu fora do seu pais, embora, numa conversa corriqueira das muitas que tenho mantido com ele quando juntos tomamos uma “Bica” de café, se tenha referido “a minha mulher”  a propósito de uma das obras musicais de Joni Mitchel, cantora canadiana, versátil, que disse apreciar particularmente. Disse-me que tanto ele como aquela a sua companheira – de nacionalidade americana – partilhavam a mesma opinião sobre Mitchel, recordando até “compramos um LP” com uma foto da cantora sentada numa pedra nas margens de um lago ou riacho envolto numa paisagem tipicamente da América do Norte.

Na imagem pode-se ler as bandas do agrado do Jaimito

Num dia particularmente diferente dos demais Jaimito “soltou” um pouco a língua, talvez porque acabara de lhe oferecer uma cassete contendo a gravação do álbum “Thick As A Break” dos Jethro Tull, que me pedira havia muito tempo. Interessante como ficou agitadissímo quando comprovou no seu mal-tratado gravador o teor da gravação, que disse ter reconhecido logo de imediato ao ouvir os acordes da guitarra acústica iniciais da obra. Educadamente confidenciou-me que da banda liderada por Ian Anderson tinha particularmente preferência pela obra “ Benefit”, lançada dois anos (1970) antes dos Jethro Tull terem gravado o épico poema do pequeno Gerald Little Milton) Bostock.

Apenas para se aferir dos conhecimentos que Jaimito tem da música, é interessante a sua surpresa quando lhe informei que uma das últimas obras discográficas de Joni Mitchel que me chegaram as mãos tinha a ver com uma parceria entre a cantora e Charles Mingus, que este nunca viria a conhecer porque morrera uns dias antes da sua edição. Jaimito ficou extremamente interessado nos pormenores daquela que lhe parecera uma “estranha” mas ao mesmo tempo agradável colaboração entre uma assumida cantora folk e um jazzman esquizofrénico como o era Mingus. Fez-me prometer-lhe uma cassete com o registo da obra, tal era o seu interesse em ouvir que sonoridades Joni Mitchel e Charles Mingus poderiam produzir e oferecer que pudessem agradar aos seus fãs divididos quanto aos géneros.

Pois então, contou que viveu 16 anos nos Estados Unidos, após dois ou três anos de permanência em Portugal.

Em Lisboa e no Algarve, o guitarrista terá tocado em clubes nocturnos, com moçambicanos, angolanos e cabo-verdianos, nomeando Bana como tendo sido um deles. Não se recorda de alguma vez ter trabalhado com o Fu, um reputado baterista moçambicano radicado há vários anos em Portugal, muito conhecido nos meios musicais no Algarve.

Disse que com um certo Mitó Dickson (com quem se conhecera ainda em Moçambique) fez algumas gravações de músicas de autores moçambicanos, entre os quais de Wazimbo. Desconhece o paradeiro desses registos mas diz ter uma vaga ideia de que terão sido editados em disco pelo Mitó Dickson.

Em Portugal terá conhecido a “minha mulher”, americana, que entretanto engravidara. A filha de ambos, gerada naquele pais europeu, viria a nascer em 1982 nos Estados Unidos, por vontade expressa da mãe. Zara Jaime Machatine assim se chama a filha de Jaimito, tendo hoje 28 anos de idade.

O que fazia e de que vivia Jaimito nos Estados Unidos tal continua envolto num mistério, sendo certo porém que foi naquele país onde todos os seus problemas actuais tiveram origem.

Sabe-se apenas que dez dos dezasseis anos nos EUA foram vividos em cadeias e estabelecimentos psiquiátricos a mando dos tribunais, onde, como ele próprio me confidenciou, passou por experiências terríveis e conheceu gente da “pior espécie”.

É de supor que Jaimito, guitarrista dotado acima do normal para os padrões de Moçambique e Portugal, não tenha singrado em terras americanas onde o mercado musical é certamente mais exigente e bastante concorrido.

Sem trabalho e sem meios para uma vida desafogada e independente, terá então ficado na dependência da mulher, situação que, acredito, se lhe tornou insuportável e geradora de conflitos com a parceira, a quem, diz-se, terá violentado por diversas ocasiões.

O seu caso – e continuo nas meras suposições – terá sido comunicado as autoridades judiciais que não se fizeram de rogado perante um “estranja”.

A mais recente informação dá conta que, depois de várias anos de encarceramento em penitenciárias, a sua nacionalidade e a língua portuguesa, terão criado um natural interesse e simpatia de um psiquiatra americano de origem cubana. Tornaram-se amigos de longas e proveitosas conversas, o suficiente para o especialista caribenho lhe propor duas alternativas para solucionar o embróglio em que Jaimito se encontrava amarrado: ir viver para Cuba ou … regressar ao seu país.

O nosso guitarrista não hesitou: acompanhado por dois “gorilas” do FBI, voou dos EUA, com escala em Johanesburgo, até Maputo, onde foi entregue às autoridades moçambicanas.

De um dia para outro, ei-lo que encontra na Rádio Moçambique a sua casa e galeria de exposição dos seus textos “filosóficos”.

Os escritos estão sobre papel A4 normal mas, na falta deste, o autor fa-los em pedaços de cartões de embalagem de produtos alimentares ou bebidas, material fornecido por amigos e conhecidos, ou que ele próprio recolhe na rua ou nos cestos de lixo.

O lugar onde ele escreve as suas notas não podia ser mais inspirador para o Jaimito: num local público bastante concorrido por homens e mulheres das mais diversas profissões, a maior parte deles ligados a música e destes, alguns antigos membros de bandas que ele integrou antes de “dar o fora” de Moçambique.

Eis a galeria onde estão expostos os materiais do Jaimito: muro do Jardim Tunduru em Maputo

É no Centro Social da Rádio Moçambique onde preenche os seus dias, toma as refeições que lhe são oferecidas e dorme ou passa a noite numa das entradas daquela rádio pública. Todos os que por ali passam já se habituaram a vê-lo acocorado ou sentado a escrever as suas notas, compenetrado no que faz, aparentemente alheado do rebuliço da estrada.

O local tem todas as condições para que o Jamito se inspire para o que vai escrevendo, pois para além de se encontrar e conversar com os que foram seus amigos de outrora, testemunha como ninguém os mais diversos comportamentos dos frequentadores do estabelecimento.

De madrugada, contam os homens que velam pela segurança do centro, Jaimito entrega-se normalmente a tarefa de “publicar” os seus pensamentos, pregando-os numa frondosa árvore plantada no jardim dos serviços administrativos da Rádio Moçambique, qual um jornal de parede. Por estes dias, a “exposição” pode ser vista num dos muros do jardim botânico Tunduru, defronte da RM.

Após pregar o material, o nosso “escritor de rua”, faz o que todos fazemos – ou devíamos fazer: dirige-se as casas de banho do centro, onde cuida da sua hegiene pessoal. Senta-se depois num pequeno muro situado na rampa que dá acesso ao bar do centro, folheando velhos e rasgados livros, ou então escutando música de um pequeno gravador de cassete com auscultadores minúsculos ofertados certamente por uma alma compreensiva.

Registei em imagem fotográfica alguns dos seus escritos com a sua devida autorização. Antes faço notar que quando lhe pedi para lhe fazer um retrato ou uma fotografia em conjunto recebi dele um redondo “não”, justificando a recusa com o intrigante argumento de “eu não quero mais problemas com ninguém”. Anui e dei-me por satisfeito, não sem deixar de me perguntar a que problemas se referia e com quem.

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10 Respostas to “Jaimito: Um louco ou o homem que devia ter nascido amanhã?”

  1. Antes de mais tenho a agradecer pela existência desse blog.
    Culturalmente falando, este é o blog moçambicano mais culto que jà consultei.

    Descobri-o através da postagem que falava do Mundinho. Postagem que interessou-me muito por ter testemunhado ao vivo oconcerto que o Mundinho performou em Setembro de 2009 no Café Gil Vicente.

    E hoje, caro bloguista, dedicas 1427 plavras à causa de uma alma que apenas merece a atençäo de individuos com almas raras.

    Fico feliz por saber que ainda existem pessoas que sem interesses lucrativos, se interessam pelas biobrafias de pessoas anonimas.
    Desde hà muito que tenho desenhado, mentalmente, um projecto dedicado à casos semelhantes.
    Enquanto eu sonho voçê realiza. Obrigado pela “ajuda”.

    Um blog enriquecedor. Sempre que poder näo deixarei a oportunidade de cà voltar.

    Um fortissimo abraço.

    Félix

  2. por ventura ja tinha eu iniciado uma profunda investigação sobre o Jaime…fico feliz em saber que ja existêm pessoas que tambêm ja se deram tempo para investigar sobre “essa voz perdida”!
    o caso de Jaime é um caso muito doloroso e triste….

  3. Fiquei muito triste ao ler estas noticias de um grande amigo à qual não sabia nada faz desde 1981. O Jaimito foi meu musico , é dele os arranjos de guitarra do meu tema “Não há nada pra ninguem”. Procurei por ele muitos anos , soube que ele esteve em Mainee mas mais nada.No Facebook podes ver ele a tocar comigo no Estádio de Alvalade para 45.000 pessoas, agradecia que me contactasses por email. Um grande abraço

  4. Gito Katawala Says:

    Wawo, obrigado por partilhar. Ontem estava a fazer comentarios no facebook no posting do EGM e sugeria que alguem, de preferencia da “Velha Guarda” escrevesse um livro sobre o movimento cultural dos 70 em Mocambique. Hoje ainda posso adicionar a transicao (com a revolucao) para os anos 80, os exilios voluntarios e dispersoes que terminaram algumas careiras. Ha varios sujeitos, e pelos vistos este blog devia servir de inspiracao para tal registo. Obrigado

  5. Sou jovem tenho 30 anos realmente eu aida era criança quando este senhor ja tocava.

    Gostaria de apelar aos senhores da cultura neste pais que ao menos podem faser alguma coisa por este homem.

    Porque de certesa ele e uma obra prima para nossa cultura.

    Por favor senhor Ministro Mario Artur Olha para este homem e um pedido da maioria de moçambicanos que gosta da cultura e do seu pais.

  6. Faleceu hoje o Jaimito, a 26 julho 2013. Paz à sua alma e que descanse finalmente em paz

  7. zidélio José Timba Says:

    Que Deus lhe dê um enterno descanso!

  8. valson chiulelo Says:

    depois do que lie posso afirmar que ele nao e’ louco mais sim uma biblioteca…..
    “UMA PESSOA INTELIGENTE E’ UMA PESSOA QUE AMA A LIBERDADE” (JAIMITO)

  9. Aurelio Madidiane Says:

    Nao sou digno de falar sobre Jaimito, pouco sei sobre a vida desta figura de cultura, musica. Mas escutei bastante as músicas da sua autoria e sei que este grande guitarrista deixa um legado bastante rico na arena musical mocambicana e não só. De quando em vez, passam as músicas de Jaimito nas emissões da RM, mais concretamente no KUMBULANDO, RM RADIO(emissao em lingua inglesa) e/ou outros programas musicais de gabarito como IZI JAZZ do Isidine Faquirá. Mas nos finais dos anos 70 e principios de 80, passavam bastante as músicas de Jaimito acompanhado por Pedro Ben, Hortencio Langa, Wazimbo, Zeca Tcheco, etc. Este espaco nao é adequado para escrever muito e correctamente para homenagear este homem versátil e até hoje incomparável. Paz a sua alma.

  10. manuel eugenio simoes inacio Says:

    Tive o prazer de tocar com o Jaimito nos anos 70,o maior guitarrista
    que conheci,com um poder de execução superior,num grupo com o Rita como vocalista,Joel na bateria,e eu no velho Farfisa.Triste com o desaparecimento de um velho irmão,Paz à sua Alma

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