Da Universidade de Évora: Malangatana distinguido com doutoramento honoris causa

A Universidade de Évora atribui na passada quarta-feira, 10, o doutoramento honoris causa ao pintor moçambicano Malangatana, no ano em que se assinalam 50 anos da sua obra. Com a laudatio da responsabilidade de Marcelo Rebelo de Sousa, a cerimónia decorreu na Sala de Actos da instituição.

No dia do doutoramento, foi inaugurada a exposição «Malangatana – 50 Anos de Pintura», no Palácio D. Manuel, que tem como objectivo traçar uma retrospectiva da vasta obra de artista, representada em inúmeros museus e colecções privadas em todo o mundo. A mostra reúne 50 trabalhos produzidos de 1950 até aos dias de hoje, ilustrativos das suas diferentes fases. A exibição está patente até 28 de Março.

Malangatana, 50 anos de pintura

Malangatana Valente Ngwenya nasceu na vila de Matalana, província de Maputo, em 1936. Frequentou a Escola da Missão Suíça protestante, onde aprendeu a ler e a escrever em ronga. Após o encerramento desta instituição, transitou para a Escola da Missão Católica em Bulázi, onde conclui, em 1948, a terceira classe.

O seu pai era mineiro e passava longos períodos afastado da sua família. Por isso, Malangatana cresce muito ligado à sua mãe, de quem aprecia o desenho e as cores com que esta decorava cabaças ou bordava cintos de missangas. Mas esta educação não o afastou das raízes culturais: foi iniciado nos costumes ancestrais, aprendendo os elementos da medicina tradicional (nyamussoro) com a médica que tratou sua mãe, quando esta adoeceu.

Na sua aldeia, foi pastor de bovinos e aos 12 anos começou a trabalhar em Lourenço Marques, onde desempenhou diversas tarefas, como ‘criado’ de meninos, apanhador de bolas no clube de ténis e, mais tarde, como empregado de mesa. Posteriormente, teve o seu talento artístico reconhecido e foi, por isso, encorajado a estudar arte, tendo tido como mestre o Arquitecto Garizo do Carmo.

Pintor “engagé”

A mulher sempre presente na obra do mestre moçambicano

E, em 1959, as suas obras foram, pela primeira vez, expostas publicamente. Tornou-se artista profissional em 1960 graças ao apoio do arquitecto Miranda Guedes, que lhe cedeu a garagem para atelier e lhe adquiria dois quadros por mês, para que se pudesse manter. Mas foi em 1961 que organizou a sua primeira exposição individual, no Banco Nacional Ultramarino.

A sua actividade de pintor “engagé” concomitante com a publicação de poemas no jornal “Orfeu Negro” e na “Antologia da Poesia Moderna Africana”, indiciaram-no como membro da Frelimo, o que o fez ser preso, conjuntamente com José Craveinha e Rui Nogar. Julgado em Tribunal Militar, é absolvido a 23 de Março de 1966, sendo de novo preso a 17 de Junho desse ano, sendo restituído à liberdade a 11 de Novembro. Data, dessa época, a notável colecção “Desenhos de Prisão”.

Obteve uma bolsa da Fundação Gulbenkian que lhe permitiu ainda estudar gravura e cerâmica. Conseguindo vencer a oposição da PIDE, trabalhou em gravura na “Gravura – Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses” e em cerâmica, na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego.

Com a independência de Moçambique, Malangatana envolve-se directamente na actividade política (foi eleito deputado em 1990 nas listas da Frelimo; foi eleito em 1998 para a Assembleia Municipal de Maputo e reeleito em 2003), participa em acções de mobilização e alfabetização e, a partir de 1978, na organização das aldeias comunais na Província de Nampula. Foi um dos fundadores do “Movimento Moçambicano para a Paz”. Em 1984, integra os “Artistas do Mundo contra o Apartheid”, expondo em diversas cidades da Europa. Tem colaborado intensamente com a UNICEF e durante alguns anos fez funcionar a escola de bairro dominical “Vamos Brincar”.

Exposições colectivas e individuais

“Juízo final”, 1961

Desde 1959 que participa em exposições colectivas em várias partes do mundo e, a partir de 1961, realizou inúmeras exposições individuais em Moçambique e ainda na Alemanha, Áustria, Bulgária, Chile, Cuba, Estados Unidos, Espanha, Índia, Macau, Portugal e Turquia. Tem murais pintados ou gravados em cimento em vários pontos de Maputo (Mural do Museu de História Natural e Mural do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, entre outros), assim como em outros países.

A sua obra, para além dos murais, sobressaiu ainda em Pintura, Desenho, Aguarela, Gravura, Cerâmica, Tapeçaria, Escultura e encontra-se em vários museus e galerias públicas, bem como em colecções privadas, espalhadas por inúmeras partes do Mundo. Terminou, recentemente, um baixo-relevo, em mármore, na cidade do Barreiro. Malangatana é, sem dúvida, o artista plástico mais famoso – no plano internacional – de Moçambique e um dos mais destacados da África Austral.

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