Arquivo de Banda da Rádio Moçambique

Zeca Tcheco: 42 anos de engenho e arte e a “confusão agradável” em que se encontra a música moçambicana

Posted in Música Moçambicana, Moçambique, Radiodifusão, Word Music with tags , , on 6 de Abril de 2011 by gm54

 

Zeca Tcheco no Estúdio Auditório da Rádio Moçambique em mais um ensaio com o Grpo RM

Por Francisco Manjate

Nasceu há 60 anos e é um dos exímios bateristas que Moçambique produziu. O seu nome há muito que está guindado nos anais da “pauta musical”: Zeca Tcheco! Com 42 anos de carreira, tem um percurso musical de causar inveja. Com as suas baquetas já tocou quase todos os ritmos. Da marrabenta ao jazz, passando pelo rock, afro, bossa nova, samba, rumba. Até fado ele tocou. Nesta entrevista, o baterista faz uma viagem pelo tempo, fala das suas paixões musicais, das amizades e traça um olhar crítico sobre a nossa música, afirmando mesmo que ela, neste momento, encontra-se numa “confusão agradável”. Enfim, um homem maduro e artista experiente, Zeca Tcheco – um dos membros fundadores do conceituado Grupo RM – fala da vida e dos homens.

– Que desafios ainda existem para um artista que já conta com 60 anos de vida e 42 de carreira?

– Os desafios são, naturalmente, muitos. Até porque nós morremos a aprender. Depois, existem projectos que são de longo prazo e ficamos à espera de uma oportunidade para realizá-los. Mas é gratificante quando olhamos para trás e vemos que, ao longo do nosso percurso, fizemos coisas boas…

– Agora, qual é a sua luta?

– A minha luta é, se calhar, numa direcção contrária a de muitos, porque há quem diga que, na arena musical, o maior sonho de um músico é gravar um disco musical. Essa é a ambição de alguns músicos. Mas nem todo o músico é compositor e nem todo o compositor é cantor, por isso, como compositor, faço música e depois vejo a voz que se adapta àquilo que pretendo e vou buscar esse músico para cantar o que fiz. Já fui ter com Mingas, a Zulfa já cantou as minhas músicas, tal como aconteceu também com José Barata. Agora, um álbum meu seria, por exemplo, a selecção dos músicos que dei as minhas canções para cantarem.

– Portanto, assume-se puramente um instrumentista, para lá de outras particularidades?

– Sim, eu não sou cantor e nem quero fazer experiências desse género, embora não saibamos o que poderá acontecer amanhã. Quero sempre, isso sim, fazer música e nos moldes nos quais trabalhei que é ir buscar os músicos que acho que podem cantar muito bem as minhas canções e dar-lhes para fazerem isso.

– Mas muitos ainda não conseguem destrinçar uma coisa da outra.

– O que eu critico é essa falta de clareza. É preciso saber que há compositores que não são cantores e não há vergonha nisso, embora hajam compositores cantores. Por exemplo, a Whitney Houston ou o Michael Jackson e ainda tantas outras lendas da música no mundo cantaram músicas que não foram feitas por eles. Eles têm os seus compositores que fazem as canções e lhes dão para interpretarem. Porque é que um bom cantor não vai procurar um bom compositor ou um bom compositor não procurar um bom cantor.

– Assim forma-se uma equipa multifacetada e mais completa.

– É sim. É como na construção civil onde temos várias equipas de especialistas a trabalharem na mesma obra, há engenheiros de construção civil, de decoração, arquitectos, portanto, um conjunto de pessoas que está ali para pôr o edifício belo, cada qual na sua área, mas a fazerem um trabalho único. Esse é o apelo que faço aos jovens. É bom saberem acasalar todas essas sensibilidades: compositores, cantores, instrumentistas e arranjistas. É que sozinho não é possível fazer tudo isso e ainda querer ser produtor.

– Mas, aos 60 anos de idade, e com 42 anos de carreira, quais são ainda os seus sonhos?

– O que eu gostaria era realizar um grande festival musical, numa dimensão que a mantenho em segredo – porque não quero anunciar isso e depois apropriarem-se das minhas ideias e fazerem de uma forma muito errada e contrária ao que defini. Gostaria também que o Grupo RM tivesse um disco, como Grupo RM. Veja que desde 1979 nós não temos um disco como banda. Participamos no Projecto Orquestra Marrabenta, que basicamente era composto pelo Grupo RM, gravamos um álbum, mas teve o nome de Orquestra Marrabenta. Paris, França, fomos gravar o disco “Baila Maria”, que ficou registado como da banda Moya. Mas esse grupo era formado basicamente pelos elementos do Grupo RM.

– Até porque esses são sonhos realizáveis…

– Penso que sim. Até porque já estamos no fim da gravação de uma série de temas que poderão vir a compor esse projecto de disco. Mas, enquanto nós avançamos com a nossa parte, deparamos com a questão financeira, pois conseguimos gravar porque temos os estúdios da Rádio Moçambique, mas a edição do disco exige fundos. E quando vai aparecer o dinheiro é o que não sabemos. E enquanto não atingir esse objectivo não ficarei satisfeito.

– Quando é que estará concluído pelo menos a parte que vos cabe?

– No geral, nós continuaremos a lutar para que o projecto esteja concluído e o disco seja lançado ainda este ano. O desejável até seria que fosse em Outubro, que é o mês da Rádio Moçambique. Se isso não acontecer teremos que continuar à espera de uma oportunidade financeira qualquer.

– Até porque a ser lançado o disco do Grupo RM, seria um grande brinde para si.

– É verdade, seria um grande brinde. Mas tudo é possível, desde que haja força de vontade, não só minha e dos meus colegas, mas de todos que estão envolvidos no projecto.

Grupo RM actuando em Estoril, Portugal, em 1981

MÚSICA MOÇAMBICANA: UMA “CONFUSÃO AGRADÁVEL”

– Aos 60 anos de idade e com 42 anos de carreira, que olhar tem sobre a música moçambicana?

– Neste momento, essa é minha opinião, há uma “confusão agradável” na música moçambicana, porque estamos numa fase em que temos muitos jovens a fazerem música, alguns dos quais optaram por produzir ritmos como pandza, hip-hop, rap. Por outro lado, há outros jovens que se agarraram à música de raiz. Temos exemplos dos Timbila Muzimba, que fazem música tradicional, a banda Kakana, Djaaka e ou Massukos. Isso para mim é muito bom porque mesmo o pandza tem muito a ver com marrabenta, ela tem uma base muito forte de marrabenta. Portanto, esses jovens que fazem isso não estão muito longe daquilo que é nosso. A música tem várias frentes e isso é muito bom.

– Aliás, temos o exemplo de Denny OG, o seu filho, que está na música, mas não seguiu exactamente a sua perspectiva.

– Sim, o meu filho tem a sua perspectiva. Ele fazia rap e depois saltou para o pandza. É como outros da idade dele que faziam “play-back”, mas hoje vemos que há uma preocupação de quererem trabalhar com bandas. Isso representa uma evolução. A música é como a língua, ela não é estática, daí que não podemos continuar a tocar da mesma maneira a marrabenta tal como tocavam os conjuntos João Domingos ou Djambo. O mais importante é manter isso como nossa grande referência. Eu também que apareci depois do Djambo e sempre procurei mostrar algo diferente. É o que esses jovens estão a fazer.

– Mas, critica-se muito o facto de só recorrerem aos computadores. Tudo muito sintético?

– Sim. Eu também não sou a favor disso. Nunca fui e jamais serei. Quando a música é tocada nos computadores deturpa a essência, vai contra o original. Mas já com banda temos espectáculo e isso é bom, é diferente. O computador mantém a música estática, fica tudo na mesma, enquanto que com banda há uma evolução, pois obriga os instrumentistas a viajarem e a investigarem constantemente.

– E qual é a dica que deixa?

– O que a malta jovem tem que saber é que a música é algo muito séria. É preciso ter sempre exercícios melódicos, exercitar a voz e o canto, as cordas vocais. É como alguém que vai correr e hoje faz 50 metros, mas amanhã vai fazer mais., portanto, evolui. Não basta dormir e acordar dizer que vai fazer música. Isso é um trabalho muito sério.

– Estaremos então no bom caminho?

– A música moçambicana não está tão mal como se pode pensar. Eu penso que o caminho que estamos a trilhar é salutar. Hoje já temos muitos bons compositores, bons instrumentistas e bons músicos, sobretudo cantoras. Há muitas mulheres que cantam muito bem. Acho que elas ganharam coragem e estão a fazer coisas maravilhosas, estão a pesquisar a música e a aprofundar os seus conhecimentos, o que demonstra que elas são capazes.

JAIMITO MALHATINE: UMA ESCOLA!

– Fale de Jaimito Malhatine, essa figura lendária.

– Falar de Jaimito na música é o mesmo que falar de mim ou mesmo de um Pedro Cumaio, porque essas três pessoas foram família na arena musical. Eu cresci na música a trabalhar com essas duas pessoas. E mais tarde o Abel Chemane. Eu aprendi tanta coisa na música com Jaimito e Pedro Cumaio. Estávamos sempre juntos a ouvir música, a ensaiar. Passeávamos sempre juntos.

– Onde ensaiavam?

– Tínhamos um espaço chamado Escola do Acordeão, onde no princípio alugavam-se os estúdios, mas como frequentávamos e ensaiávamos ali chegou uma altura que deixaram de nos cobrar, numa altura em que não era fácil isso. Mesmo quando essa escola passou para onde hoje funciona a messe da Polícia, continuamos a ter acesso aos estúdios…

– É daí que nasce o trio “Experiência”?

– Nós formamos o trio “Experiência” e tocamos juntos durante muitos anos. E até nos separarmos continuamos sempre amigos, porque havia uma grande amizade.

– O que sente quando vês hoje o Jaimito desamparado?

– É muito doloroso e frustrante para mim, não. Não imaginas ver um irmão com quem convivi naquela situação. É doloroso, é chato. Para mim é como se ele estivesse morto porque está inútil. Não faz nada senão aquilo que escreve (em pedaços de papeis em frente a Rádio Moçambique) e cada um interpreta como acha. O que me interessa não é que ele escreva coisas com sentido, mas é ele voltar a ser o que era. Eu fico muito magoado com tudo isso. E se pudéssemos voltar a termos o homem e o grande guitarrista, para que possamos trabalhar como antigamente, embora essa seja como que uma hipótese quase remota. Talvez algum dia alguém o pegue para ser recuperado, pois eu não tenho forças para fazer isso. O que posso fazer é só lamentar.

– E há muita coisa que ele fez e deixou como legado.

– As composições de Jaimito são únicas. Há muita coisa de Jaimito, embora só se conheça o tema instrumental “Magica”. Ele fez muitos temas que foram cantados por Wazimbo e Pedro Ben.

– Tocou com muitos músicos. Isso o ajudou a crescer musicalmente.

– Sim, porque antes de eu, Jaimito e Pedro Cumaio formarmos o “Experiência” tinha o “Soul Band” e quando se desfez o grupo comecei a tocar nos cabarés. Nessa altura não tinha banda, era um músico independente. De dia ensaiava para ir tocar a noite, sempre com grupos diferentes. Toquei tango, pachanga, que é um ritmo de que já não se fala, merengue, bossa nova, samba e até fado que muitas vezes não levava bateria. Isso só me favoreceu porque quando comecei a tocar marrabenta baseei-me naqueles ritmos que já tocava há muito tempo, o que fez com que eu volta à marrabenta. Alguns até diziam que o que eu tocava não era marrabenta, mas insisti e depois a moda pegou. Isso foi produto dessa vida musical que tive, ouvindo muita música e a tocar muito vários ritmos.

UMA PASSAGEM PELO CASINO ESTORIL

Estada em Portugal. Zeca com José Mucavele e Milagre Langa

– Esteve em Portugal, onde tocou no Casino Estoril. Como foi isso?

– Esse projecto nos foi arranjado na altura pelo secretário de Estado da Cultura, Luís Bernardo Honwana, onde fui com Alípio Cruz, Chico António, José Guimarães, José Mucavele, Sox, Izildo Gomes e Milagre Langa. Depois de termos tocado lá e no fim do contrato fiquei mais um tempo a tocar num cabaret lá em Portugal, numa banda onde o líder era brasileiro.

– O que tocavam?

– Ele como brasileiro gostava de tocar ritmos brasileiros. E, o mais engraçado é que eu tinha um domínio sobre esses ritmos e às vezes ele perguntava se eu estivera no Brasil e como aprendi a tocar tudo aquilo. Eu expliquei que foi em Moçambique. Quer dizer, o exercício de aprendizagem que tive cá valeu-me muito lá.

– Uma experiência agradável…

– Uma experiência agradável.

Zeca Tcheco e Sox (Guitarrista), dois dos fundadores do Grupo RM

UMA DISCOTECA, VÁRIOS RITMOS

 

– Tem uma discoteca em casa e o que colecciona?

– Quase tudo. Jazz, afro-jazz, fusão, blues, bossa nova, música moçambicana, que não podia faltar, música africana de Angola, Zimbabwe, África do Sul, Congo, etc.

– São centenas de discos?

– São alguns discos. O mais difícil é comprar discos, porque são caros e quase não existem. A única saída é através da África do Sul ou na Europa, com amigos, porque é sempre bom ter um bom disco original. Mas na impossibilidade pede-se sempre uma cópia a um amigo.

– Há um músico que ouve com regularidade?

– São vários. Gosto, por exemplo, de David Walker, Richard Bona, Dollar Brand. Gosto também de ouvir um pianista, que toca a solo, chamado Kate Gerard, há um grupo africano chamado Ultramarino, aprecio os pianistas sul-africanos…

– Não tem, portanto, um estilo musical padronizado?

– Não, não. Hoje está tudo muito diversificado, por isso gosto de explorar essas possibilidades que se abrem ao mundo.

– Hoje só está no Grupo RM?

– Estou na banda e também sou produtor musical. E quando há trabalhos de pesquisa e recolha de música tradicional eu vou e faço isso. Estou também envolvido nas gravações e nas produções musicais.

– Com uma carreira de 42 anos, deu para acumular dinheiro e ficar rico? (risos)

– Eu estou rico de ideias. Em termos de dinheiro não estou rico e nem estou bem… (risos)

Por Francisco Manjate

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