Archive for the Poesia Category

Obra de Mia Couto será debatida num congresso na Bélgica

Posted in Literatura, Moçambique, Poesia with tags , on 10 de Fevereiro de 2010 by gm54

Um congresso internacional sobre a obra de Mia Couto vai decorrer na Antuérpia, Bélgica, de 23 a 25 de Março, organizado pelo Instituto Superior de Tradutores e Intérpretes da Bélgica com o apoio do Instituto Camões.

Comunicações de especialistas de diversas universidades da Europa e América serão apresentadas, incluindo da Universidade da Sorbone de Paris, da Universidade de Caen da Normandia (França), a Universidade de Bucareste (Roménia), Universidade de Utrech (Holanda), a Universidade Koln (Alemanha), Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), Universidade de Berkeley (Inglaterra), bem como as universidades portuguesas de Viseu, Lisboa, Porto e Trás-os-Montes.

No final do primeiro dia, inteiramente dedicado à análise da obra do escritor moçambicano, será exibido o filme Terra Sonâmbula que venceu diversos prémios internacionais de cinema.

Mia Couto vai estar presente no colóquio.

A primeira do evento será dedicada à tradução da obra de Mia Couto. “Serão escolhidos dois livros entre a obra do autor e serão convidados alguns dos tradutores destes textos, para participarem em mesas redondas”, segundo uma nota dos organizadores.

A segunda vertente “será centrada na análise da obra do autor”. Nessa parte, pretende-se abordar especificamente os temas como o trabalho/o jogo com a linguagem na obra de Mia Couto, bem como o seu processo narrativo, a literatura e a constituição de uma identidade (linguística, cultural e/ou política) moçambicana e a tradução, a divulgação e a internacionalização da obra do escritor moçambicano.

Além das comunicações seleccionadas, estão também previstas palestras por Mia Couto, Ana Mafalda Leite e Alberto Carvalho.

Os organizadores lançam um apelo à apresentação de comunicações numa das áreas temáticas do colóquio, devendo a intenção de apresentar uma comunicação acompanhada de um título provisório ser apresentada até 1 de Novembro de 2009.

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O Haver

Posted in Literatura, Poesia with tags , on 4 de Março de 2009 by gm54

Essa intimidade perfeita com o silêncio

Essa intimidade perfeita com o silêncio

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

Vinicius de Moraes

Falso poema atribuído a Neruda é da brasileira Martha Medeiro

Posted in Poesia with tags on 14 de Janeiro de 2009 by gm54

MMedeiros e PNeruda

MMedeiros e PNeruda

O poema Muere Lentamente (Morre Lentamente), atribuído por engano a Pablo Neruda, circula há anos na Internet sem que nada nem ninguém seja capaz de deter a bola de neve, ao ponto de, na Espanha, muitas pessoas terem recebido esses versos como votos online de um feliz ano-novo.

Morre lentamente quem não viaja,/ quem não lê,/ quem não ouve música,/ quem não encontra graça em si mesmo./ Morre lentamente/ quem destroi seu amor próprio,/ quem não se deixa ajudar…

Assim começa o poema que não se chama Morre Lentamente, mas A Morte Devagar, e não é do poeta chileno como assegurou à EFE a Fundação Pablo Neruda, mas da escritora e poeta brasileira Martha Medeiros.

Este verso e outros mais circulam na internet há muito tempo e “não sabemos quem os atribuiu a Neruda, mas os nerudianos que temos consultado não os conhecem”, afirma Adriana Valenzuela, bibliotecária da Fundação.

Porque não é apenas Muere Lentamente o único o “falso Neruda” que encontram os internautas. Também costumam atribuir ao autor do Canto Geral os poemas Queda Prohibido, que é de Alfredo Cuervo, escritor e jornalista espanhol, e Nunca Te Quejes, de autor ignorado pela Fundação.

O director executivo da Fundação, Fernando Sáez, diz que não é a primeira vez nem será a última, que as pessoas imputem a um poeta famoso textos que ele jamais escreveu e  cuja autoria é desconhecida.

Um dos enganos do gênero aconteceu com um famoso texto atribuído a Borges sobre as maravilhas da vida, que nem com a sua maior ironia ele teria suportado e menos ainda escrito. O suposto poema de Borges, Instantes, segundo esclareceu a viúva do escritor, María Kodama, é de autoria da escritora norte-americana Nadine Stair.

Mais estrondoso ainda foi o falso apócrifo atribuído a Gabriel García Márquez, La Marioneta, com o qual o prêmio Nobel de Literatura colombiano se despedia de seus amigos, após saber que estava com um cancro. “Se por um instante Deus se esqueceu de que sou um marionete de pano e me presenteasse com um pouco mais de vida, aproveitaria esse tempo o mais que pudesse…” diz o texto cuja “autoria” quase matou de verdade García Márquez, como ele mesmo disse ao desmentir que o poema fosse criação sua.

“O que pode me matar é a vergonha de que alguém acredite de verdade que fui eu que escrevi”, disse Gabo.

Muere Lentamente é uma poesia da escritora brasileira Martha Medeiros, autora de numerosos livros e cronista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, conforme informou à EFE a Fundação Neruda.

Cansada de ver as pessoas a dizer que o poema é do poeta chileno, a própria escritora entrou em contacto com a Fundação Neruda para esclarecer a autoria do texto, pois os versos coincidem em grande parte com o seu texto A Morte Devagar, publicado em 2000, às vésperas do Dia dos Mortos.

Em declarações à EFE, Martha reconhece que não sabe como o poema começou a circular na internet, já que há “muitos textos” seus que estão na rede “como se fossem de outros autores”. “Infelizmente, não há nada a fazer”, acrescenta.

A poeta e romancista brasileira de 47 anos admira profundamente o poeta chileno Pablo Neruda, de quem se declara uma fã, mas prefere que “cada um tenha seu trabalho reconhecido”. No entanto, não perde o sono com essas coisas e assegura que tem “humor suficiente para rir de tudo isso”.

A Fundação concorda com Martha e afirma que pouco pode ser feito para deter esta bola de neve na rede, já que ao fazermos uma busca no Google sobre o poema Muere Lentamente associado ao nome do poeta Pablo Neruda, vão aparecer milhares de referências ao poema associado ao nome do poeta.