Arquivo de Fotojornalismo

Ícone da fotografia corre o risco de falência

Posted in Uncategorized with tags , , , on 6 de Agosto de 2009 by gm54

TorturaUm ícone do fotojornalismo dos anos 70 e 80, a agência francesa Gamma, uma das mais respeitadas do mundo, está a enfrentar o risco iminente de falência. A empresa, fundada em 1966 por Raymond Depardon e Jean Lattès, teve a concordata decretada no fim de julho e recebeu um prazo de seis meses do Tribunal de Comércio de Paris para pagar as dívidas e encontrar novos investidores. A crise, segundo seus actuais proprietários, é causada principalmente pela redução do espaço para as grandes reportagens na mídia global.

Os problemas financeiros vieram à superfície em 30 de julho, quando o Grupo Eyedea Presse, proprietário da agência, fez o pedido de concordata no Tribunal de Comércio de Paris, depois de experimentar perdas de 3 milhões em 2008.

A Gamma e a Rapho – a mais antiga agência de fotojornalismo da França, propriedade do mesmo grupo – empregam hoje 55 pessoas, dos quais 14 fotógrafos.

Ao lado das agências Sygma e Sipa, a Gamma passou a ser referência no jornalismo europeu pouco após a sua criação. A sua estratégia era investir em fotos de personalidades, ao mesmo tempo em que fazia grandes reportagens, muitas das quais em zonas de conflito em todo o mundo. Além disso, abrigava nos seus quadros profissionais que se tornaram referências internacionais.

De acordo com o director-presidente de Eyedea, Stéphane Ledoux, parte das dificuldades financeiras está relacionada justamente ao seu modelo de negócios. “A imprensa não se interessa mais pelos temas profundos, cuja produção custa caro e é vendida cada vez mais barata”, argumenta.

Hugue Vassal, fotógrafo e um dos fundadores da agência, entretanto, tem outra análise para a concordata. Para ele, a mudança na forma de pagamento dos profissionais, que previa a divisão do lucro de uma foto em 50% para a agência e 50% para o fotógrafo – um modelo do qual a Gamma fora uma das pioneiras -, teria diminuído o interesse de grandes fotógrafos, resultando em queda da qualidade.

Outra razão, segundo Vassal, teria sido o advento da foto digital. “Hoje, numa guerra ou num terremoto, teremos a foto de todo modo. Na época, vendíamos uma reportagem por 15 mil. Hoje, vende-se por 3 mil. A época de ouro acabou.”

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O “Até sempre Ricardo Rangel” é hoje em Maputo

Posted in Imprensa with tags , , , on 15 de Junho de 2009 by gm54
Rangel no Centro de Formação Fotográfica, em Maputo

Rangel no Centro de Formação Fotográfica, em Maputo

Vão hoje a enterrar no cemitério de Lhanguene, em Maputo, os restos mortais do proeminente fotojornalista moçambicano, Ricardo Rangel, falecido na noite da passada quinta-feira, 11.

O estado moçambicano tomou a si a responsabilidade das cerimónias do último adeus a este ícone da fotografia moçambicana, aguardando-se que várias centenas de pessoas, entre colegas, familiares, fazedores de arte, membros do governo, da sociedade civil e outros, prestem o derradeiro adeus a Rangel.

A urna contendo os restos mortais do foto-jornalista estará depositada nos Paços do Conselho Municipal da cidade de Maputo, após o que será transportada para a sua derradeira morada.

A morte de Rangel ocorreu de forma súbita, quando ele se encontrava em sua residência por volta das 20 horas desta Quinta-feira. No mesmo dia, ele havia estado a trabalhar no Centro de Formação Fotográfica (CFF), onde ele era director.

Contudo, desde Setembro de 2006, Rangel padecia de problemas cardiovasculares, tendo ficado hospitalizado durante perto de um ano. Por causa deste problema, foi-lhe amputada uma das suas pernas em 2007, mas desde lá vinha recuperando, apesar de sofrer recaídas de quando em vez.

Considerado decano dos fotojornalistas moçambicanos, Ricardo Achiles Rangel foi um dos primeiros jornalistas de imagem do país não-brancos com carreira iniciada no tempo colonial.

Ao longo do regime colonial português, diversas fotografias de Rangel foram banidas devido ao seu carácter crítico. Aliás, em entrevista dada a BBC em Junho de 2005, Rangel chegou a dizer que os “censores” da era colonial não eram muito inteligentes.

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“Muitas vezes eles não se apercebiam da mensagem que transmitia certo texto ou determinada fotografia: não sabiam ler as fotografias. Passaram algumas que eram declaradamente contra o regime, mas a grande maioria só foi publicada depois da independência”, disse ele, na altura.

Ao longo da sua careira, Rangel fotografou diversos acontecimentos que documentam diversos acontecimentos de carácter socio-económico e cultural do país.

Ele faz parte do grupo de jornalistas da revista Tempo, a primeira publicação a cores do país, bem como trabalhou para os jornais “A Tribuna”, “Domingo”, entre outros, tendo depois fundado o CFF, onde era director desde 1983.

Ano passado, a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior e mais antiga instituição do ensino superior do país, distinguiu Rangel com o titulo de Doutor Honoris Causa em História Visual, em reconhecimento da sua contribuição para o país ao longo do seu percurso humano e profissional.

É o único fotojornalista moçambicano que, graças à grandiosidade e universalidade da sua obra, foi seleccionado para figurar numa lista mundial de ouro, que integra apenas os melhores mestres da arte de fotografar de todo o mundo. Actualmente, conta com 327 nomes compilados nos últimos 200 anos.

Outro facto que mostra que Rangel foi um grande mestre na arte de fotografar, é que essa lista de ídolos fotográficos mundiais, encabeçada pelo pioneiro francês desta arte Louis Daguerre, nascido em 1787 e falecido 73 anos antes do nascimento de Rangel – é que o nosso RR é apenas um dos três africanos que fazem parte dessa galeria de ouro dominada por grandes mestres fotográficos dos EUA, França, Grã-Bretanha e vários outros países desenvolvidos, como Itália, Alemanha, Suécia, Suíça, Japão, Canada e Austrália.

Os outros dois mestres do nosso continente são Gary Schneider, da África do Sul e Samuel Fosso, apresentado na lista como sendo apenas um africano.