Arquivo de Moçambique

Distúrbios em Maputo: protestos contra agravamento dos preços dos produtos básicos, pão, água e energia

Posted in Economia, Política, Sociedade with tags , , , , on 1 de Setembro de 2010 by gm54

Menor coloca um pneu na barricada a arder, de bloqueio na Estrada Maputo-Witbank, que liga a África do Sul

Três mortos no Bairro do Benfica e várias dezenas de feridos que deram entrada no Hospital Geral José Macamo é o saldo preliminar dos distúrbios populares que estão a caracterizar as cidades de Maputo e Matola, em Moçambique, em protesto contra o agravamento dos preços de energia, água, pão e outros bens de consumo.

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Sexto Festival Nacional de Cultura em Chimoio: a celebração e exaltação da cultura moçambicana

Posted in Moçambique with tags , , , , , , on 7 de Junho de 2010 by gm54

Bebé brincando com batuque, enquanto a mãe dançarina aguarda a entrada em cena

(Imagem (EGMatos) captada sábado, 5,na vila da Namaacha, na fase de apuramento dos representantes da província de Maputo)

Chimoio, Julho/agosto de 2010. Será exactamente na capital da província central de Manica, de 27 de julho a 1 de agosto, que os fazedores das artes e cultura, uma vez mais, terão a oportunidade de celebrar e exaltar as ricas, diversificadas e milenares tradições culturais moçambicanas. É o VI Festival Nacional da Cultura, evento nacional que ocorre no Ano Internacional de Aproximação de Culturas, facto proclamado pela 62ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em reconhecimento do poder da cultura como factor de compreensão mútua, de paz e sobretudo de desenvolvimento sustentável.

O VI Festival Nacional de Cultura pretende-se que seja o momento mais alto de celebração e exaltação da cultura moçambicana, no objectivo de preservar, desenvolver as artes, a cultura e as tradições das diferentes comunidades e criar uma plataforma de interacção, intercâmbio e de divulgação do rico e diversificado património cultural do país.

Da Universidade de Évora: Malangatana distinguido com doutoramento honoris causa

Posted in Artes Plásticas, Moçambique with tags , , on 13 de Fevereiro de 2010 by gm54

A Universidade de Évora atribui na passada quarta-feira, 10, o doutoramento honoris causa ao pintor moçambicano Malangatana, no ano em que se assinalam 50 anos da sua obra. Com a laudatio da responsabilidade de Marcelo Rebelo de Sousa, a cerimónia decorreu na Sala de Actos da instituição.

No dia do doutoramento, foi inaugurada a exposição «Malangatana – 50 Anos de Pintura», no Palácio D. Manuel, que tem como objectivo traçar uma retrospectiva da vasta obra de artista, representada em inúmeros museus e colecções privadas em todo o mundo. A mostra reúne 50 trabalhos produzidos de 1950 até aos dias de hoje, ilustrativos das suas diferentes fases. A exibição está patente até 28 de Março.

Malangatana, 50 anos de pintura

Malangatana Valente Ngwenya nasceu na vila de Matalana, província de Maputo, em 1936. Frequentou a Escola da Missão Suíça protestante, onde aprendeu a ler e a escrever em ronga. Após o encerramento desta instituição, transitou para a Escola da Missão Católica em Bulázi, onde conclui, em 1948, a terceira classe.

O seu pai era mineiro e passava longos períodos afastado da sua família. Por isso, Malangatana cresce muito ligado à sua mãe, de quem aprecia o desenho e as cores com que esta decorava cabaças ou bordava cintos de missangas. Mas esta educação não o afastou das raízes culturais: foi iniciado nos costumes ancestrais, aprendendo os elementos da medicina tradicional (nyamussoro) com a médica que tratou sua mãe, quando esta adoeceu.

Na sua aldeia, foi pastor de bovinos e aos 12 anos começou a trabalhar em Lourenço Marques, onde desempenhou diversas tarefas, como ‘criado’ de meninos, apanhador de bolas no clube de ténis e, mais tarde, como empregado de mesa. Posteriormente, teve o seu talento artístico reconhecido e foi, por isso, encorajado a estudar arte, tendo tido como mestre o Arquitecto Garizo do Carmo.

Pintor “engagé”

A mulher sempre presente na obra do mestre moçambicano

E, em 1959, as suas obras foram, pela primeira vez, expostas publicamente. Tornou-se artista profissional em 1960 graças ao apoio do arquitecto Miranda Guedes, que lhe cedeu a garagem para atelier e lhe adquiria dois quadros por mês, para que se pudesse manter. Mas foi em 1961 que organizou a sua primeira exposição individual, no Banco Nacional Ultramarino.

A sua actividade de pintor “engagé” concomitante com a publicação de poemas no jornal “Orfeu Negro” e na “Antologia da Poesia Moderna Africana”, indiciaram-no como membro da Frelimo, o que o fez ser preso, conjuntamente com José Craveinha e Rui Nogar. Julgado em Tribunal Militar, é absolvido a 23 de Março de 1966, sendo de novo preso a 17 de Junho desse ano, sendo restituído à liberdade a 11 de Novembro. Data, dessa época, a notável colecção “Desenhos de Prisão”.

Obteve uma bolsa da Fundação Gulbenkian que lhe permitiu ainda estudar gravura e cerâmica. Conseguindo vencer a oposição da PIDE, trabalhou em gravura na “Gravura – Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses” e em cerâmica, na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego.

Com a independência de Moçambique, Malangatana envolve-se directamente na actividade política (foi eleito deputado em 1990 nas listas da Frelimo; foi eleito em 1998 para a Assembleia Municipal de Maputo e reeleito em 2003), participa em acções de mobilização e alfabetização e, a partir de 1978, na organização das aldeias comunais na Província de Nampula. Foi um dos fundadores do “Movimento Moçambicano para a Paz”. Em 1984, integra os “Artistas do Mundo contra o Apartheid”, expondo em diversas cidades da Europa. Tem colaborado intensamente com a UNICEF e durante alguns anos fez funcionar a escola de bairro dominical “Vamos Brincar”.

Exposições colectivas e individuais

“Juízo final”, 1961

Desde 1959 que participa em exposições colectivas em várias partes do mundo e, a partir de 1961, realizou inúmeras exposições individuais em Moçambique e ainda na Alemanha, Áustria, Bulgária, Chile, Cuba, Estados Unidos, Espanha, Índia, Macau, Portugal e Turquia. Tem murais pintados ou gravados em cimento em vários pontos de Maputo (Mural do Museu de História Natural e Mural do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, entre outros), assim como em outros países.

A sua obra, para além dos murais, sobressaiu ainda em Pintura, Desenho, Aguarela, Gravura, Cerâmica, Tapeçaria, Escultura e encontra-se em vários museus e galerias públicas, bem como em colecções privadas, espalhadas por inúmeras partes do Mundo. Terminou, recentemente, um baixo-relevo, em mármore, na cidade do Barreiro. Malangatana é, sem dúvida, o artista plástico mais famoso – no plano internacional – de Moçambique e um dos mais destacados da África Austral.

Jaimito: Um louco ou o homem que devia ter nascido amanhã?

Posted in Comportamento, Moçambique, Radiodifusão with tags , , , , on 16 de Janeiro de 2010 by gm54

Jaimito, sentadoe lendo à entrada do Centro Social da Rádio Moçambique em Maputo

Num dos muros da vedação do jardim botânico Tunduru, mesmo defronte do edifício-sede da Rádio Moçambique, em Maputo, estão expostos em papel normal ou cartolina, algumas reflexões, em texto, de um homem que chama a atenção de todo o transeunte da zona, mais precisamente da Rua da Rádio.

Estes escritos são de autoria de Jaime Machatine, mais conhecido por Jaimito, seu nome artístico.

Não estão registados em algum caderno ou simples bloco de notas e muito menos em livro, mas estão disponíveis para quem os quiser consultar, interessado em conhecer e compreender o que aquele homem, que um dia foi considerado um dos melhores guitarristas moçambicanos no seu tempo, pensa de si e da sua vida e dos que o rodeiam.

“Os escritos do Jaimito”, assim me atrevo a chamá-los, podem ser entendidos como sendo fragmentos do pensamento do seu autor sobre os mais díspares assuntos, que vão da música ao cinema, passando pela literatura e religião, que é o que ele mais gosta de dissertar nas suas notas e em conversa com aqueles que o conhecem.

Um outro assunto sobre o qual ele escreve tem a ver com a sua longa e misteriosa permanência fora de Moçambique e sobre a qual os pormenores são escassos e dispersos e deles o Jaimito jamais se refere.

São também escassas referências a pessoas ou instituições com quem se relacionou no período em que permaneceu fora do seu pais, embora, numa conversa corriqueira das muitas que tenho mantido com ele quando juntos tomamos uma “Bica” de café, se tenha referido “a minha mulher”  a propósito de uma das obras musicais de Joni Mitchel, cantora canadiana, versátil, que disse apreciar particularmente. Disse-me que tanto ele como aquela a sua companheira – de nacionalidade americana – partilhavam a mesma opinião sobre Mitchel, recordando até “compramos um LP” com uma foto da cantora sentada numa pedra nas margens de um lago ou riacho envolto numa paisagem tipicamente da América do Norte.

Na imagem pode-se ler as bandas do agrado do Jaimito

Num dia particularmente diferente dos demais Jaimito “soltou” um pouco a língua, talvez porque acabara de lhe oferecer uma cassete contendo a gravação do álbum “Thick As A Break” dos Jethro Tull, que me pedira havia muito tempo. Interessante como ficou agitadissímo quando comprovou no seu mal-tratado gravador o teor da gravação, que disse ter reconhecido logo de imediato ao ouvir os acordes da guitarra acústica iniciais da obra. Educadamente confidenciou-me que da banda liderada por Ian Anderson tinha particularmente preferência pela obra “ Benefit”, lançada dois anos (1970) antes dos Jethro Tull terem gravado o épico poema do pequeno Gerald Little Milton) Bostock.

Apenas para se aferir dos conhecimentos que Jaimito tem da música, é interessante a sua surpresa quando lhe informei que uma das últimas obras discográficas de Joni Mitchel que me chegaram as mãos tinha a ver com uma parceria entre a cantora e Charles Mingus, que este nunca viria a conhecer porque morrera uns dias antes da sua edição. Jaimito ficou extremamente interessado nos pormenores daquela que lhe parecera uma “estranha” mas ao mesmo tempo agradável colaboração entre uma assumida cantora folk e um jazzman esquizofrénico como o era Mingus. Fez-me prometer-lhe uma cassete com o registo da obra, tal era o seu interesse em ouvir que sonoridades Joni Mitchel e Charles Mingus poderiam produzir e oferecer que pudessem agradar aos seus fãs divididos quanto aos géneros.

Pois então, contou que viveu 16 anos nos Estados Unidos, após dois ou três anos de permanência em Portugal.

Em Lisboa e no Algarve, o guitarrista terá tocado em clubes nocturnos, com moçambicanos, angolanos e cabo-verdianos, nomeando Bana como tendo sido um deles. Não se recorda de alguma vez ter trabalhado com o Fu, um reputado baterista moçambicano radicado há vários anos em Portugal, muito conhecido nos meios musicais no Algarve.

Disse que com um certo Mitó Dickson (com quem se conhecera ainda em Moçambique) fez algumas gravações de músicas de autores moçambicanos, entre os quais de Wazimbo. Desconhece o paradeiro desses registos mas diz ter uma vaga ideia de que terão sido editados em disco pelo Mitó Dickson.

Em Portugal terá conhecido a “minha mulher”, americana, que entretanto engravidara. A filha de ambos, gerada naquele pais europeu, viria a nascer em 1982 nos Estados Unidos, por vontade expressa da mãe. Zara Jaime Machatine assim se chama a filha de Jaimito, tendo hoje 28 anos de idade.

O que fazia e de que vivia Jaimito nos Estados Unidos tal continua envolto num mistério, sendo certo porém que foi naquele país onde todos os seus problemas actuais tiveram origem.

Sabe-se apenas que dez dos dezasseis anos nos EUA foram vividos em cadeias e estabelecimentos psiquiátricos a mando dos tribunais, onde, como ele próprio me confidenciou, passou por experiências terríveis e conheceu gente da “pior espécie”.

É de supor que Jaimito, guitarrista dotado acima do normal para os padrões de Moçambique e Portugal, não tenha singrado em terras americanas onde o mercado musical é certamente mais exigente e bastante concorrido.

Sem trabalho e sem meios para uma vida desafogada e independente, terá então ficado na dependência da mulher, situação que, acredito, se lhe tornou insuportável e geradora de conflitos com a parceira, a quem, diz-se, terá violentado por diversas ocasiões.

O seu caso – e continuo nas meras suposições – terá sido comunicado as autoridades judiciais que não se fizeram de rogado perante um “estranja”.

A mais recente informação dá conta que, depois de várias anos de encarceramento em penitenciárias, a sua nacionalidade e a língua portuguesa, terão criado um natural interesse e simpatia de um psiquiatra americano de origem cubana. Tornaram-se amigos de longas e proveitosas conversas, o suficiente para o especialista caribenho lhe propor duas alternativas para solucionar o embróglio em que Jaimito se encontrava amarrado: ir viver para Cuba ou … regressar ao seu país.

O nosso guitarrista não hesitou: acompanhado por dois “gorilas” do FBI, voou dos EUA, com escala em Johanesburgo, até Maputo, onde foi entregue às autoridades moçambicanas.

De um dia para outro, ei-lo que encontra na Rádio Moçambique a sua casa e galeria de exposição dos seus textos “filosóficos”.

Os escritos estão sobre papel A4 normal mas, na falta deste, o autor fa-los em pedaços de cartões de embalagem de produtos alimentares ou bebidas, material fornecido por amigos e conhecidos, ou que ele próprio recolhe na rua ou nos cestos de lixo.

O lugar onde ele escreve as suas notas não podia ser mais inspirador para o Jaimito: num local público bastante concorrido por homens e mulheres das mais diversas profissões, a maior parte deles ligados a música e destes, alguns antigos membros de bandas que ele integrou antes de “dar o fora” de Moçambique.

Eis a galeria onde estão expostos os materiais do Jaimito: muro do Jardim Tunduru em Maputo

É no Centro Social da Rádio Moçambique onde preenche os seus dias, toma as refeições que lhe são oferecidas e dorme ou passa a noite numa das entradas daquela rádio pública. Todos os que por ali passam já se habituaram a vê-lo acocorado ou sentado a escrever as suas notas, compenetrado no que faz, aparentemente alheado do rebuliço da estrada.

O local tem todas as condições para que o Jamito se inspire para o que vai escrevendo, pois para além de se encontrar e conversar com os que foram seus amigos de outrora, testemunha como ninguém os mais diversos comportamentos dos frequentadores do estabelecimento.

De madrugada, contam os homens que velam pela segurança do centro, Jaimito entrega-se normalmente a tarefa de “publicar” os seus pensamentos, pregando-os numa frondosa árvore plantada no jardim dos serviços administrativos da Rádio Moçambique, qual um jornal de parede. Por estes dias, a “exposição” pode ser vista num dos muros do jardim botânico Tunduru, defronte da RM.

Após pregar o material, o nosso “escritor de rua”, faz o que todos fazemos – ou devíamos fazer: dirige-se as casas de banho do centro, onde cuida da sua hegiene pessoal. Senta-se depois num pequeno muro situado na rampa que dá acesso ao bar do centro, folheando velhos e rasgados livros, ou então escutando música de um pequeno gravador de cassete com auscultadores minúsculos ofertados certamente por uma alma compreensiva.

Registei em imagem fotográfica alguns dos seus escritos com a sua devida autorização. Antes faço notar que quando lhe pedi para lhe fazer um retrato ou uma fotografia em conjunto recebi dele um redondo “não”, justificando a recusa com o intrigante argumento de “eu não quero mais problemas com ninguém”. Anui e dei-me por satisfeito, não sem deixar de me perguntar a que problemas se referia e com quem.

Brasileiro que fotografou independência de Moçambique expõe em Tóquio

Posted in Africa, Fotografia with tags , , , , on 24 de Outubro de 2009 by gm54

SEBASTIAO SALGADO/ENTREVISTA

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado apresentou nesta sexta-feira (23) no Japão a sua mostra “África”, um trabalho de mais de 30 anos no continente.  Com as suas fotografias, ele diz querer “contar histórias” que necessitam do compromisso da imprensa e das ONG para poderem ser mudadas.

A exposição “África” começa este sábado e vai até o dia 13 de dezembro, no Museu Metropolitano de Fotografia de Tóquio. Salgado, de 65 anos, viajou por todo o mundo fotografando pessoas e lugares com as suas  imagens em preto e branco e que já lhe renderam diversos prêmios internacionais, consideradas por ele “mais intensas” que as composições em cor.

Na sua opinião, os protagonistas de suas fotos “podem ser pessoas empobrecidas, mas não deprimidas, nem miseráveis”. Nas suas viagens por África, Salgado teve a oportunidade de retratar o processo de independência de Angola e Moçambique e tragédias humanitárias como a crise de fome na África Central ou os deslocamentos de comunidades no Ruanda.

O fotógrafo brasileiro disse que o fotojornalista actual precisa “emoldurar o seu trabalho na realidade. Para isso, é necessário ter conhecimentos amplos em economia, sociologia e geopolítica”, e não somente um domínio técnico.

O fotógrafo disse ainda que o jornalismo tem que ser honesto, ter controle e não fomentar estereótipos, diferente do que acontece actualmente.

Na opinião de Salgado, os protagonistas das suas fotos "podem ser pessoas empobrecidas, mas não deprimidas, nem miseráveis".

Na opinião de Salgado, os protagonistas das suas fotos "podem ser pessoas empobrecidas, mas não deprimidas, nem miseráveis".

Para Salgado, continentes como a África ou a América Latina estão a viver uma época de desenvolvimento e crescimento, como é o caso de Botswana e África do Sul ou Argentina e Brasil.

“A África não é um continente subdesenvolvido, tem o desenvolvimento que tem. Está a procura da sua identidade. Os pobres não necessitam de piedade ou de caridade, mas compressão e assistência”, ressaltou Salgado.

O fotógrafo disse ainda que com a chegada dos Jogos Olímpicos ao Rio de Janeiro em 2016 “será feita justiça”, pois é necessário que o hemisfério sul e a América Latina organizem aquele acontecimento mundial.

Mundinho: um falcão entre a luz e a penunbra

Posted in Uncategorized with tags , , , on 19 de Outubro de 2009 by gm54

mundinho

Mundinho será daqueles músicos que nunca tocará nada sem ter a certeza daquilo que vai fazer. É um homem com o qual se deve ter cuidado na conversa, porque, como nas claves, que sustentam toda a sua vida, exigirá que as palavras sejam talhadas com responsabilidade. Está agora a caminho dos 70 – completa- os no dia 1 de Fevereiro de 2010 – e vive entre a luz e a penumbra, ou seja, é conhecido por muitos, mas muitos mais ainda o desconhecem. Por causa de mal-entendidos de algumas pessoas intelectualmente despreparadas, em certas ocasiões fi ca com medo de exprimir a sua opinião honesta. “Por vezes aparece alguém a perguntar-me se o fulano ou sicrano toca bem ou não determinado instrumento e eu respondo: sim, toca bem, mesmo sabendo que isso não é verdade.

O problema é que as pessoas não querem ouvir as verdades e eu também já não tenho idade para aguentar as farpas que virão depois disso”. Toca jazz standard, sem que isso lhe impeça de passar por outros estilos, como por exemplo a bossa nova, que ele nunca desgostou. “A bossa nova tem uma harmonia fantástica, como tem harmonia toda a música que é feita pelos brasileiros”, e Mundinho deixase cair facilmente nessa tentação. Mas será no jazz onde vamos encontrar a forte marca deste homem que vive hoje tranquilamente no bairro do Aeroporto, na cidade de Maputo.

Fomos à sua casa num dia desses, tendo como mote uma série de manifestações que estão sendo organizadas por um dos seus fi lhos: Adeodato, com vista a assinalar os 70 anos de vida de um homem que passou a vida inteira a cantar o tempo com instrumentos musicais. Um verdadeiro falcão que se revolta quando, no palco, no seu desempenho, é interrompido por indivíduos que não têm nenhuma cultura de jazz. “Como é que você vai fazer barulho, falando mais alto que os instrumentos, numa sessão de jazz? O jazz não é para qualquer pessoa. Fiquei desapontado no “Gil Vicente” quando, ao tocarmos, vezes sem conta apareciam ali pessoas embriagadas a manifestarem-se de forma negativa. Acho que se devem equilibrar os comportamentos para cada lugar”.

No semblante deste homem nota-se facilmente o sentido de vida. Parece um tigre que perscruta. Ou seja, recebeu-me com desconfiança na sua casa e eu percebi isso. Porém, passado pouco tempo de conversa, sentiuse impelido a abrir-se. Levou-me ao seu arsenal, onde, para além do piano vertical que me mostrou, deixoume contemplar mais cinco pianos eléctricos, um violão, uma bateria, uma guitarra e dois instrumentos de sopro. “Quando acordo fico sem saber que instrumento tocar para preencher os meus sentimentos. Se eu não toco não vivo”. E Mundinho toca aqueles instrumentos todos. O cachimbo é um adereço que faz parte do status deste artista. Fica mais tempo nas mãos do que propriamente nos lábios.

“Mas eu venho fumando desde os meus 20/22 anos, intercalando com cigarrilhas e charutos”. E isso é espantoso porque quando olhamos para o rosto do jazz-man, ele não está degradado. “Nunca tive problemas de saúde por causa do tabaco”

70 ANOS

pianistaSobre os eventos que Adeodato está a organizar em homenagem ao seu pai, Mundinho diz sentir-se bastante honrado. “Estou naturalmente feliz por esta iniciativa do meu fi lho. É uma forma de mostrar às pessoas que eu existo e fazer com que os que não me conhecem saibam quem é Mundinho”. Este músico apresenta-se em público pela primeira vez em 1956, com apenas 16 anos, no “Aquário” (uma casa de pasto famosa na altura, na então cidade de Lourenço Marques).

E daí para a frente foi uma espécie de turbilhão, que nunca mais parou de perfurar. Misturou-se, no seu percurso, com grandes nomes desse tempo, os quais se confundem até hoje, com o seu sucesso. Estamos a falar, por exemplo, de João Franco Dantier, Luís Franco Dantier, Fernando Chichorro, Mário Confaque, Alex Govers, Joel Libombo e o grande Daíco, um guitarrista alucinante que recebeu, pela Associação Africana, a primeira guitarra eléctrica em Moçambique. Mas estes são apenas alguns nomes de uma enxurrada deles, daquele tempo de mitos, porque hoje podemos encontrar Mundinho entre a nata dos melhores jazistas deste tempo. Apesar de Mundinho ser um pianista por excelência, e bom executante de outros instrumentos, poucas vezes – para um músico do seu gabarito – aparece em casas de especialidade.

“Já não tenho idade para tocar por meia dúzias de amendoins. Não vou porque não querem pagar. Os músicos devem ser bem pagos e aqui no nosso país, infelizmente, não está a acontecer isso”. Ainda na senda dos pagamentos, Mundinho recorda- nos que é afi nador de pianos. “Uma vez chamaram- me para o Hotel Polana e perguntaram-me quanto é que queria que me pagassem para afi nar um piano que estava parado há bastante tempo. Pedi 500 dólares e eles dispensaram os meus serviços. Foram contratar um sul-africano que, de certeza absoluta, pediu muito mais do que eu.

O resto você pode perceber o que é que signifi ca”. O músico sente-se – apesar de estar realizado de uma forma geral – desapontado com algumas situações do seu país, onde se nota facilmente que o músico não é devidamente valorizado. Mundinho tem um disco gravado – ainda sem título – com os músicos Filipinho e Edgar Wilson. “Esta obra ainda tem de ser aperfeiçoada. Vai sair no seu devido tempo”. E enquanto o disco não sai, Mundinho está a caminho dos 70 e, quando olha para trás, deixou um caminho feito de trabalho e música bem feita.

Capitão Mário Wilson já tem 80 anos

Posted in Uncategorized with tags , , , , on 19 de Outubro de 2009 by gm54

Por Carlos Rias (jornal “A Bola”, 18/outubro/2009)

Mario Wilson

É um nome incontornável na história do futebol português. Confessa, ainda hoje, que tem dois amores- o Benfica e a Académica. Mas tudo começou em Moçambique, há 80 anos. Mário Wilson está de parabéns e celebra o aniversário com uma entrevista a A BOLA.

– Lembra-se de Moçambique, das primeiras brincadeiras?– Perfeitamente. Tanto na rua, como nos recreios, manifestava a minha enorme paixão pelo futebol, identificava-me com ele. Quer calçado ou descalço, queria era jogar.
– E o cheiro da terra de África?
– Tenho-o comigo, imortalizei-o na minha memória. E a memória tem-me sido benéfica para coisas que são prioritárias.
– Chegou a constituir uma equipa com os amigos, os «Fura-redes»…
– Isso foi no Alto Maé. Era uma zona de transição, aí já funcionava a sociedade moçambicana. Tive a sorte de ser neto de Henry Wilson…
– Que era americano. E teve uma avó que era rainha…
– Chamávamos-lhe a rainha de Tembe, mas não era bem rainha, era uma princesa, porque era filha de um dos primeiros régulos, que vivia na Catembe. Foi aí que o meu avô, no seu percurso comercial, chegou e a viu. Os régulos tinham filhas que nunca mais acabavam! O meu avô fez uma opção: casar.
– E Henry Wilson…
– Era espectacular. Pegou na minha avó em Tembe e transportou-a para Lourenço Marques. É como ir buscá-la a Almada e trazê-la para Lisboa. Dela teve seis filhos. E educou-os na África do Sul. Isso fez com que aparecesse uma mentalidade diferente em toda a família Wilson. O meu pai também era um dos que ia para lá estudar.
– O seu avô era branco?
– Branquinho! No meu ginásio, o «Mister Wilson», está a minha fotografia, mas para mim é o meu avô que lá está. Há qualquer coisa muito profunda, com raízes espectaculares. Disso não me livro.
– Que fazia o seu pai?
– Quando regressou da Africa do Sul beneficiou da situação privilegiada que o pai tinha. E instalou-se nas oficinas de electricidade e outras que este já possuía. A minha ida para Coimbra tem muito a ver com esta filosofia familiar, com o sentimento de que era preciso estudar, ter cultura, ser independente.
– Jogou numa filial do Benfica, o Desportivo de Lourenço Marques…
– É daí que aparece a minha tendência benfiquista, mais ainda quando começo a ler uma revista, a Stadium. Nessa revista aparecem fulanos africanos, o Paquete, campeão de 100 metros, o Matos Fernandes, campeão barreirista, o Espírito Santo, que era do salto em altura e da velocidade…Todos eles fizeram aparecer em mim esse primeiro amor.
– Mas vem para o Sporting!
– Eu e o Juca éramos da selecção e gozávamos de ser elementos de eleição. Já aí começa a aparecer o Costa Pereira, no Ferroviário. E há um fulano do Sporting, que tinha a papelaria Progresso, que disse: «Estes dois vão para o meu Sporting». E trouxe-nos. Em Lisboa treinava três vezes por semana e ia estudar ali para os lados dos Olivais. Morava na Praça do Chile. O meu pai, pela formação que tinha, sabia que o futebol era coisa passageira.
– Quantos irmãos tem?
– Comigo somos seis.
– Todos formados?
– Os mais novos é que vieram para Portugal formar-se. Eu, um que é psiquiatra e outro que é radiologista, viajámos para cá e é por causa dos estudos que deixo o Sporting, quando tinha acabado de ser campeão nacional. E vou para a Académica. Em Coimbra instalo-me na «república» onde estava o Almeida Santos, já com o meu irmão lá.
– Em Moçambique era conhecido por Corina!
– Corina! Isso aparece de uma forma curiosa. Quando nasço, entra em voga em Moçambique uma música portuguesa. Ainda hoje a canto: «Corina, Mário morreu»E como tive o nome de Mário, a minha madrinha chamava-me de Corina.
– Ainda o conhecem por Corina?
– Quando dizem Corina sei que estou a falar com um moçambicano. Da velha guarda, pois claro!

Campeão no Sporting

– Não veio contrafeito para o Sporting, rival do seu Benfica?
– Não, porque a minha base era os novos horizontes que Portugal me abria. Mais, vinha para substituir o Peyroteo, um dos cinco violinos. A clubite doentia nunca foi muito apanágio meu. Continuo a ter os meus dois amores (Benfica e Académica), mas libertei-me cedo da forma doentia de sentir e dizer «sou deste e não posso ver os outros».
– A viagem para Portugal levou um mês, não foi?
– Viemos no Mouzinho de Albuquerque, eu e o Juca. O Juca era um bonitão, de uma elegância fantástica, ainda por cima de raça branca. Era um dos engatatões nessa viagem. Nos bailaricos lá estava o Juca. Nós, os africanos de côr, ainda que eu tivesse uma estatura agradável, éramos segregados, punham-nos de parte de forma violenta.
– Chega a Alvalade com 19 anos, para substituir um ídolo, também moçambicano.
– E fui o melhor marcador do Sporting logo no primeiro ano e o segundo melhor do campeonato (o Julinho, do Benfica, ficou em primeiro) e campeão nacional na segunda época. Mas quando apareci, creio que nem fiz os jogos todos, não entrei logo de caras.
– Como é que passou a defesa-central?
O Sporting vai jogar uma Taça Latina e lesiona-se o Passos. Não tinham outro defesa-central, eu até era polivalente e disseram-me: «É menino para fazer o lugar do Passos?» Claro, disse que sim. E aceitei, porque antes, na despedida do Peyroteu, num jogo particular, puseram-me a defesa-central e eu abri o livro. Foi no Sporting que comecei nesse lugar. Quando vou para a Académica já vou com a sensibilidade do lugar. Não estranhei ocupar essa posição.

Na académica com ajuda do ministro

– É verdade que a sua transferência para Coimbra meteu a cunha do ministro da Educação?
– É verdade, em absoluto. Havia a famosa Lei de Opção, mas porque eu era estudante, o ministério abriu um precedente que me beneficiou. Depois apareceram outros jogadores, como o Peres, que se transferiram da mesma forma.
– Em Coimbra começa a viver num ambiente subversivo, contra o regime fascista…
– Antes vivi com o Agostinho Neto, em Lisboa. Tinhamos uma intimidade profunda. Nós, os africanos, não nos libertávamos do espírito de independência. Nessa altura reunia com Agostinho Neto, Mário Miranda, Marcelino dos Santos (que fez atletismo comigo) e outros ligados à Guiné e a Cabo-Verde. Juntávamo-nos na Praça do Chile à 2ª feira, era infalível, e íamos numa romaria até aos Restauradores. Em Coimbra junto-me a Chipenda e ao Araújo. Eles acabam por fazer a sua luta, mas entra em acção a PIDE e são presos. Depois são libertados, um pouco por minha influência. Os da PIDE chamaram-me, porque era o capitão da Académica e disseram-me: «Estes tipos queriam fugir e a gente apanhou-os a caminho da Figueira da Foz. É importante que o Capitão faça com que eles abandonem essa ideia. E diga ao Chipenda, que se quiser, deixamo-lo ir fazer os exames que tem marcados na universidade» E foi mesmo, no Mercedes da PIDE, com chaufer e tudo. Mais tarde dá-se um conflito académico de monta, que origina a paragem do campeonato por uma jornada, como forma de protesto contra a colonização. Surgem os militares e somos chamados à Praça da República para definir a nossa posição. Fui o primeiro a ser ouvido, mais uma vez por ser o capitão. «O senhor joga ou não joga?», perguntaram-me. «Desculpem, mas preciso de falar à parte com os jogadores», respondi. Juntámo-nos todos numa sala e falei: «Temos tempo para as nossas lutas, não vamos suicidar-nos colectivamente. Acho que devemos dizer que vamos jogar. E o Chipenda,o Araújo, o N’dalo França e os demais disseram que sim. Mais tarde fugiram e entraram na luta da independência.
– Em Coimbra passa a ser o Velho Capitão…
– Foi a alcunha que mais perdurou. Porquê? Porque em Coimbra fui o eterno capitão, pela minha postura e maneira de ser. Era capitão na Académica quem tinha as habilitações mais elevadas. Até que apareceu Cândido de Oliveira e o Oscar Tellechea e disseram. «Não, o fulano que tem o perfil de capitão que nós imaginamos é Mário Wilson.» E fui capitão para sempre.
– Conheceu Mestre Cândido. Como era o homem, o treinador?
– Tive um convívio extremamente forte com ele. Foi sempre impecável. Ia para o hotel Astoria, onde vivia e falávamos horas a fio de futebol. Era um homem de grande dignidade, que gostava do bom convívio. Era uma delícia ouvi-lo. E era profundo, humano e inteligente no que defendia. Foi um dos catedráticos do futebol. Havia um grupo de doutores no café Arcádia que requisitava o Cândido e ele presidia a essas reuniões como um autêntico catedrático, com um domínio cultural impressionante sobre tudo o que se passava.
– Iniciou a sua carreira de treinador como adjunto dele, não foi?
– Sim, ainda era jogador, quando fui seu adjunto.
– Em 1963 acaba como jogador. Passa a adjunto de Otto Bumbel, depois de Janos Biri e de Mário Imbelloni e a fechar este ciclo é adjunto de Pedroto.
– Quando o Pedroto sai é que eu assumo o lugar de treinador da Académica. O Pedroto era intratável. Tinha atitudes que roçavam o racismo. Ele queria sempre ser o big boss.
«Pedroto era ele, ele e só ele»
– As grandes lutas Norte-Sul começam entre Pedroto e Wilson. E são lutas duras…
– São, são… Mas em Coimbra eu era o Capitão e os jogadores andavam à minha volta, pouco ligavam ao Pedroto. Eu era o espírito académico, o Pedroto era ganhar, ganhar…tinha uma determinação própria, um pouco a destoar daquele ambiente de Coimbra.
– Pedroto deixa a Académica por dar uma punhada num jornalista de Coimbra, não é?
– Exactamente. Ele foi acumulando pequenos ódios. Tinha coisas tal como o Pinto da Costa, de uma determinação inabalável. Uma das máximas do Pedroto era: «Morrer por morrer, que morra o meu pai, que é mais velho». Isto era Pedroto.
– Ia falar da saída de Pedroto…
– O Porto foi jogar a Coimbra e esse tal jornalista, depois do jogo, escreveu: «Este jogo antes de começar já estava perdido.» O Pedroto não esperou, foi ao café onde se reuniam os teóricos, viu o jornalista e perguntou-lhe: «Foi você que escreveu isto?». – «Fui, porquê?» E Pedroto respondeu-lhe com um soco nos queixos. Isto era Pedroto.