Zeca Tcheco: 42 anos de engenho e arte e a “confusão agradável” em que se encontra a música moçambicana

Posted in Música Moçambicana, Moçambique, Radiodifusão, Word Music with tags , , on 6 de Abril de 2011 by gm54

 

Zeca Tcheco no Estúdio Auditório da Rádio Moçambique em mais um ensaio com o Grpo RM

Por Francisco Manjate

Nasceu há 60 anos e é um dos exímios bateristas que Moçambique produziu. O seu nome há muito que está guindado nos anais da “pauta musical”: Zeca Tcheco! Com 42 anos de carreira, tem um percurso musical de causar inveja. Com as suas baquetas já tocou quase todos os ritmos. Da marrabenta ao jazz, passando pelo rock, afro, bossa nova, samba, rumba. Até fado ele tocou. Nesta entrevista, o baterista faz uma viagem pelo tempo, fala das suas paixões musicais, das amizades e traça um olhar crítico sobre a nossa música, afirmando mesmo que ela, neste momento, encontra-se numa “confusão agradável”. Enfim, um homem maduro e artista experiente, Zeca Tcheco – um dos membros fundadores do conceituado Grupo RM – fala da vida e dos homens.

– Que desafios ainda existem para um artista que já conta com 60 anos de vida e 42 de carreira?

– Os desafios são, naturalmente, muitos. Até porque nós morremos a aprender. Depois, existem projectos que são de longo prazo e ficamos à espera de uma oportunidade para realizá-los. Mas é gratificante quando olhamos para trás e vemos que, ao longo do nosso percurso, fizemos coisas boas…

– Agora, qual é a sua luta?

– A minha luta é, se calhar, numa direcção contrária a de muitos, porque há quem diga que, na arena musical, o maior sonho de um músico é gravar um disco musical. Essa é a ambição de alguns músicos. Mas nem todo o músico é compositor e nem todo o compositor é cantor, por isso, como compositor, faço música e depois vejo a voz que se adapta àquilo que pretendo e vou buscar esse músico para cantar o que fiz. Já fui ter com Mingas, a Zulfa já cantou as minhas músicas, tal como aconteceu também com José Barata. Agora, um álbum meu seria, por exemplo, a selecção dos músicos que dei as minhas canções para cantarem.

– Portanto, assume-se puramente um instrumentista, para lá de outras particularidades?

– Sim, eu não sou cantor e nem quero fazer experiências desse género, embora não saibamos o que poderá acontecer amanhã. Quero sempre, isso sim, fazer música e nos moldes nos quais trabalhei que é ir buscar os músicos que acho que podem cantar muito bem as minhas canções e dar-lhes para fazerem isso.

– Mas muitos ainda não conseguem destrinçar uma coisa da outra.

– O que eu critico é essa falta de clareza. É preciso saber que há compositores que não são cantores e não há vergonha nisso, embora hajam compositores cantores. Por exemplo, a Whitney Houston ou o Michael Jackson e ainda tantas outras lendas da música no mundo cantaram músicas que não foram feitas por eles. Eles têm os seus compositores que fazem as canções e lhes dão para interpretarem. Porque é que um bom cantor não vai procurar um bom compositor ou um bom compositor não procurar um bom cantor.

– Assim forma-se uma equipa multifacetada e mais completa.

– É sim. É como na construção civil onde temos várias equipas de especialistas a trabalharem na mesma obra, há engenheiros de construção civil, de decoração, arquitectos, portanto, um conjunto de pessoas que está ali para pôr o edifício belo, cada qual na sua área, mas a fazerem um trabalho único. Esse é o apelo que faço aos jovens. É bom saberem acasalar todas essas sensibilidades: compositores, cantores, instrumentistas e arranjistas. É que sozinho não é possível fazer tudo isso e ainda querer ser produtor.

– Mas, aos 60 anos de idade, e com 42 anos de carreira, quais são ainda os seus sonhos?

– O que eu gostaria era realizar um grande festival musical, numa dimensão que a mantenho em segredo – porque não quero anunciar isso e depois apropriarem-se das minhas ideias e fazerem de uma forma muito errada e contrária ao que defini. Gostaria também que o Grupo RM tivesse um disco, como Grupo RM. Veja que desde 1979 nós não temos um disco como banda. Participamos no Projecto Orquestra Marrabenta, que basicamente era composto pelo Grupo RM, gravamos um álbum, mas teve o nome de Orquestra Marrabenta. Paris, França, fomos gravar o disco “Baila Maria”, que ficou registado como da banda Moya. Mas esse grupo era formado basicamente pelos elementos do Grupo RM.

– Até porque esses são sonhos realizáveis…

– Penso que sim. Até porque já estamos no fim da gravação de uma série de temas que poderão vir a compor esse projecto de disco. Mas, enquanto nós avançamos com a nossa parte, deparamos com a questão financeira, pois conseguimos gravar porque temos os estúdios da Rádio Moçambique, mas a edição do disco exige fundos. E quando vai aparecer o dinheiro é o que não sabemos. E enquanto não atingir esse objectivo não ficarei satisfeito.

– Quando é que estará concluído pelo menos a parte que vos cabe?

– No geral, nós continuaremos a lutar para que o projecto esteja concluído e o disco seja lançado ainda este ano. O desejável até seria que fosse em Outubro, que é o mês da Rádio Moçambique. Se isso não acontecer teremos que continuar à espera de uma oportunidade financeira qualquer.

– Até porque a ser lançado o disco do Grupo RM, seria um grande brinde para si.

– É verdade, seria um grande brinde. Mas tudo é possível, desde que haja força de vontade, não só minha e dos meus colegas, mas de todos que estão envolvidos no projecto.

Grupo RM actuando em Estoril, Portugal, em 1981

MÚSICA MOÇAMBICANA: UMA “CONFUSÃO AGRADÁVEL”

– Aos 60 anos de idade e com 42 anos de carreira, que olhar tem sobre a música moçambicana?

– Neste momento, essa é minha opinião, há uma “confusão agradável” na música moçambicana, porque estamos numa fase em que temos muitos jovens a fazerem música, alguns dos quais optaram por produzir ritmos como pandza, hip-hop, rap. Por outro lado, há outros jovens que se agarraram à música de raiz. Temos exemplos dos Timbila Muzimba, que fazem música tradicional, a banda Kakana, Djaaka e ou Massukos. Isso para mim é muito bom porque mesmo o pandza tem muito a ver com marrabenta, ela tem uma base muito forte de marrabenta. Portanto, esses jovens que fazem isso não estão muito longe daquilo que é nosso. A música tem várias frentes e isso é muito bom.

– Aliás, temos o exemplo de Denny OG, o seu filho, que está na música, mas não seguiu exactamente a sua perspectiva.

– Sim, o meu filho tem a sua perspectiva. Ele fazia rap e depois saltou para o pandza. É como outros da idade dele que faziam “play-back”, mas hoje vemos que há uma preocupação de quererem trabalhar com bandas. Isso representa uma evolução. A música é como a língua, ela não é estática, daí que não podemos continuar a tocar da mesma maneira a marrabenta tal como tocavam os conjuntos João Domingos ou Djambo. O mais importante é manter isso como nossa grande referência. Eu também que apareci depois do Djambo e sempre procurei mostrar algo diferente. É o que esses jovens estão a fazer.

– Mas, critica-se muito o facto de só recorrerem aos computadores. Tudo muito sintético?

– Sim. Eu também não sou a favor disso. Nunca fui e jamais serei. Quando a música é tocada nos computadores deturpa a essência, vai contra o original. Mas já com banda temos espectáculo e isso é bom, é diferente. O computador mantém a música estática, fica tudo na mesma, enquanto que com banda há uma evolução, pois obriga os instrumentistas a viajarem e a investigarem constantemente.

– E qual é a dica que deixa?

– O que a malta jovem tem que saber é que a música é algo muito séria. É preciso ter sempre exercícios melódicos, exercitar a voz e o canto, as cordas vocais. É como alguém que vai correr e hoje faz 50 metros, mas amanhã vai fazer mais., portanto, evolui. Não basta dormir e acordar dizer que vai fazer música. Isso é um trabalho muito sério.

– Estaremos então no bom caminho?

– A música moçambicana não está tão mal como se pode pensar. Eu penso que o caminho que estamos a trilhar é salutar. Hoje já temos muitos bons compositores, bons instrumentistas e bons músicos, sobretudo cantoras. Há muitas mulheres que cantam muito bem. Acho que elas ganharam coragem e estão a fazer coisas maravilhosas, estão a pesquisar a música e a aprofundar os seus conhecimentos, o que demonstra que elas são capazes.

JAIMITO MALHATINE: UMA ESCOLA!

– Fale de Jaimito Malhatine, essa figura lendária.

– Falar de Jaimito na música é o mesmo que falar de mim ou mesmo de um Pedro Cumaio, porque essas três pessoas foram família na arena musical. Eu cresci na música a trabalhar com essas duas pessoas. E mais tarde o Abel Chemane. Eu aprendi tanta coisa na música com Jaimito e Pedro Cumaio. Estávamos sempre juntos a ouvir música, a ensaiar. Passeávamos sempre juntos.

– Onde ensaiavam?

– Tínhamos um espaço chamado Escola do Acordeão, onde no princípio alugavam-se os estúdios, mas como frequentávamos e ensaiávamos ali chegou uma altura que deixaram de nos cobrar, numa altura em que não era fácil isso. Mesmo quando essa escola passou para onde hoje funciona a messe da Polícia, continuamos a ter acesso aos estúdios…

– É daí que nasce o trio “Experiência”?

– Nós formamos o trio “Experiência” e tocamos juntos durante muitos anos. E até nos separarmos continuamos sempre amigos, porque havia uma grande amizade.

– O que sente quando vês hoje o Jaimito desamparado?

– É muito doloroso e frustrante para mim, não. Não imaginas ver um irmão com quem convivi naquela situação. É doloroso, é chato. Para mim é como se ele estivesse morto porque está inútil. Não faz nada senão aquilo que escreve (em pedaços de papeis em frente a Rádio Moçambique) e cada um interpreta como acha. O que me interessa não é que ele escreva coisas com sentido, mas é ele voltar a ser o que era. Eu fico muito magoado com tudo isso. E se pudéssemos voltar a termos o homem e o grande guitarrista, para que possamos trabalhar como antigamente, embora essa seja como que uma hipótese quase remota. Talvez algum dia alguém o pegue para ser recuperado, pois eu não tenho forças para fazer isso. O que posso fazer é só lamentar.

– E há muita coisa que ele fez e deixou como legado.

– As composições de Jaimito são únicas. Há muita coisa de Jaimito, embora só se conheça o tema instrumental “Magica”. Ele fez muitos temas que foram cantados por Wazimbo e Pedro Ben.

– Tocou com muitos músicos. Isso o ajudou a crescer musicalmente.

– Sim, porque antes de eu, Jaimito e Pedro Cumaio formarmos o “Experiência” tinha o “Soul Band” e quando se desfez o grupo comecei a tocar nos cabarés. Nessa altura não tinha banda, era um músico independente. De dia ensaiava para ir tocar a noite, sempre com grupos diferentes. Toquei tango, pachanga, que é um ritmo de que já não se fala, merengue, bossa nova, samba e até fado que muitas vezes não levava bateria. Isso só me favoreceu porque quando comecei a tocar marrabenta baseei-me naqueles ritmos que já tocava há muito tempo, o que fez com que eu volta à marrabenta. Alguns até diziam que o que eu tocava não era marrabenta, mas insisti e depois a moda pegou. Isso foi produto dessa vida musical que tive, ouvindo muita música e a tocar muito vários ritmos.

UMA PASSAGEM PELO CASINO ESTORIL

Estada em Portugal. Zeca com José Mucavele e Milagre Langa

– Esteve em Portugal, onde tocou no Casino Estoril. Como foi isso?

– Esse projecto nos foi arranjado na altura pelo secretário de Estado da Cultura, Luís Bernardo Honwana, onde fui com Alípio Cruz, Chico António, José Guimarães, José Mucavele, Sox, Izildo Gomes e Milagre Langa. Depois de termos tocado lá e no fim do contrato fiquei mais um tempo a tocar num cabaret lá em Portugal, numa banda onde o líder era brasileiro.

– O que tocavam?

– Ele como brasileiro gostava de tocar ritmos brasileiros. E, o mais engraçado é que eu tinha um domínio sobre esses ritmos e às vezes ele perguntava se eu estivera no Brasil e como aprendi a tocar tudo aquilo. Eu expliquei que foi em Moçambique. Quer dizer, o exercício de aprendizagem que tive cá valeu-me muito lá.

– Uma experiência agradável…

– Uma experiência agradável.

Zeca Tcheco e Sox (Guitarrista), dois dos fundadores do Grupo RM

UMA DISCOTECA, VÁRIOS RITMOS

 

– Tem uma discoteca em casa e o que colecciona?

– Quase tudo. Jazz, afro-jazz, fusão, blues, bossa nova, música moçambicana, que não podia faltar, música africana de Angola, Zimbabwe, África do Sul, Congo, etc.

– São centenas de discos?

– São alguns discos. O mais difícil é comprar discos, porque são caros e quase não existem. A única saída é através da África do Sul ou na Europa, com amigos, porque é sempre bom ter um bom disco original. Mas na impossibilidade pede-se sempre uma cópia a um amigo.

– Há um músico que ouve com regularidade?

– São vários. Gosto, por exemplo, de David Walker, Richard Bona, Dollar Brand. Gosto também de ouvir um pianista, que toca a solo, chamado Kate Gerard, há um grupo africano chamado Ultramarino, aprecio os pianistas sul-africanos…

– Não tem, portanto, um estilo musical padronizado?

– Não, não. Hoje está tudo muito diversificado, por isso gosto de explorar essas possibilidades que se abrem ao mundo.

– Hoje só está no Grupo RM?

– Estou na banda e também sou produtor musical. E quando há trabalhos de pesquisa e recolha de música tradicional eu vou e faço isso. Estou também envolvido nas gravações e nas produções musicais.

– Com uma carreira de 42 anos, deu para acumular dinheiro e ficar rico? (risos)

– Eu estou rico de ideias. Em termos de dinheiro não estou rico e nem estou bem… (risos)

Por Francisco Manjate

Memórias perdidas, Identidades sem cidadania (*)

Posted in Comportamento, Literatura, Moçambique, Sociedade, Sociologia with tags on 6 de Abril de 2011 by gm54

 

Ungulani Ba Ka Khossa

Por Ungulani Ba ka Khosa

Permitam-me que conte um episódio que para muitos, ao tempo da história, terá parecido ridículo, inusitado, extemporâneo, pois aos olhos do tempo o momento era de reassentamento da população deslocada pela guerra que assolou Moçambique em mais de dez anos. A história passou-se com uma brigada do Alto Comissariado para os Refugiados, algures numa região do sul de Moçambique. A brigada, transportando centenas de camponeses, viu-se, durante mais de catorze horas, completamente desorientada ao não encontrar o lugar real de reassentamento, porque a população, não atinava com os marcos que identificavam o espaço, como seja a árvore, o cemitério, o bosque.

O espaço de preservação da memória destas populações havia se eclipsado com a guerra. No lugar do bosque, da árvore ou do cemitério familiar, encontraram a natureza no seu estado selvagem, indomesticada. Para os funcionários do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, na maioria moçambicanos contratados, a história entrou no anedotário local. Para eles, a reivindicação do espaço identitário da população não tinha sentido em presença da terra e da distribuição de panelas, mantas e instrumentos de produção. O importante estava em garantir à população os bens materiais essenciais à retoma da vida. Não lhes importava os referentes perdidos, os esteios à perenidade da memória. Este desencontro, desconhecimento, distanciamento e, o mais angustiante, desprezo para com a realidade identitária de parte considerável do tecido social do país, patente nos funcionários, estendia-se, a diferentes amplitudes, a toda a classe administrativa do país e, mais grave ainda, ao poder político que se apressava a dar substância à separação e interdependência de poderes consagrados na nova constituição que proclamava os direitos, garantias e liberdades individuais.

Apercebi-me, nesse momento de euforia, de encantamento com a paz, de deslumbramento com a conquista das liberdades individuais, que o nosso país se construía sobre os cacos de identidades esfaceladas, esquecidas, detestadas. E este assassínio, desculpem a impiedade do termo, teve a cumplicidade do poder político ao tempo da proclamação da independência.

Com a proclamação da independência esperava-se que as identidades circunscritas ao universo étnico ganhassem, no espaço soberano da pátria, a liberdade e o direito de confrontarem-se com identidades afins.

AS LÍNGUAS E A IDENTIDADE

O nosso país tem, segundo dados de recenseamento recente, cerca de vinte e três línguas de origem bantu que veiculam todo o universo cultural de etnias afins. Sabe-se que no período colonial, por mão de igrejas protestantes, houvera um esforço de fixação escrita das línguas, permitindo uma crescente alfabetização das populações, manifesta no fácil trato com a literatura religiosa amplamente traduzida nas línguas locais. Este esforço, embora centrado ao universo étnico, numa geografia precisa, teve o impacto de fazer chegar aos dias de hoje uma literatura que porventura se teria perdido com o tempo. Acresce-se a isto, embora reduzido a militância de poucos, o esforço de missionários católicos em recolher contos e provérbios, em elaborar dicionários e gramáticas das línguas veiculares das populações. Em consequência, era de se esperar que com o advento da independência estas iniciativas, ilhadas ao universo étnico, tivessem cidadania plena, gozando, por conseguinte, do direito de circulação e consequente confrontação com outras realidades culturais. Esperava-se que a secular presença islâmica e indiana, reduzida a nichos culturais bem delimitados, ganhasse outra amplitude no solo pátrio, de modo a que, por exemplo, as especiarias e outros aromas, enraizados ao longo da costa, se embrenhassem pelo sertão adentro e se incrustassem no adobe das palhotas da nossa existência. Esperava-se que a língua portuguesa, língua da unidade e do desenvolvimento, partilhasse o seu espaço hegemónico na educação, na informação, nos espaços públicos e privados, com outras línguas, tal como aconteceu nos princípios do século XX, quando na reduzida cidade de Lourenço Marques havia espaço para um jornal Bilingue, português/ronga, o Africano e, posteriormente, o Brado Africano, e um diário em língua inglesa, o Lourenço Marques Guardian. A língua portuguesa nunca saiu beliscada desse convívio multilingue. Com a independência esperava-se, enfim, que as várias identidades ganhassem cidadania e contribuíssem, na sua diversidade, para a construção do tecido identitário moçambicano. Mas tal não aconteceu.

O governo da época, sob a batuta dos heróis da gesta nacionalista, transladou o princípio reinante nas zonas libertadas de matar a tribo para construir a nação. O terceiro congresso da Frelimo, acontecido dois anos depois da independência, 1977, veio legitimar a uniformização cultural e ideológica como condição única para a Unidade Nacional. Estavam criadas as condições para o esbatimento da memória local e de identidades que há muito procuravam cidadania para além do espaço étnico, graças a crescente urbanização do território.

Pergunto-me hoje se é possível aquilatar as consequências do silenciamento oficial das memórias identitárias que buscaram a luz da perenidade com a independência do país? Nunca teremos a resposta adequada. Mas os sinais de que o monolitismo decretado era um erro de consequências imprevisíveis veio em forma de relatório do Comité Central da Frelimo, em 1983, em vésperas do IV Congresso, ao fazer constar que “É grande a nossa diversidade étnica e linguística. Foram diversas as formações sociais pré-coloniais, cada uma com as suas características próprias. A dominação colonial abateu-se sobre a totalidade do nosso país, mas afectou de formas diferentes as diversas regiões de Moçambique.

(…) Hoje, liberto o país, devemos lutar contra a tendência simplista de recusar a diversidade como forma de realizar a unidade. Fazer isso é considerar, erradamente, que a diversidade é um elemento negativo da criação da unidade nacional; é pensar, erradamente, que a unidade nacional significa uniformidade.”

Mas o medo há muito que havia se instalado no país. As identidades que a custo sobreviveram a seculares tentativas de esmagamento, fecharam-se nos seus nichos de sobrevivência. A guerra que se disseminava pelo território fez uso destes erros infantis cometidos pelos guerrilheiros da gesta.

Moçambique não se encontrou. Devo dizer, embora existam teorias em contrário, que o papel do Estado é fundamental na libertação de iniciativas que conduzam a cidadania plena. E os primeiros anos de independência foram fulcrais na definição da pauta da nossa sinfonia cultural. Esmagamos as notas da diversidade, silenciamos as vozes que vinham das furnas do tempo e, movidos por pretensões ideológicas de difícil sustentação, tentamos erigir um corpo, permitam-me o empréstimo, sem ADN, incaracterístico, insosso, descolorido, de voz monótona, desenraizada, totalmente à deriva. Perdemos, na euforia da libertação, a oportunidade de libertar a memória e de traçar, com inteira liberdade, o nosso destino cultural.

José Luís Cabaço, político e académico moçambicano, na sua tese de doutoramento, Moçambique – Identidades/Colonialismo e libertação, não se aventurou ao período pós-independência, mas teve a clareza de afirmar que a identidade, sendo sempre em processo, em permanente dialéctica com o passado e com o Outro, não se conclui e nunca assume o perfil dos modelos prescritivos. (…) esses modelos tendem  a criar um novo tipo de conflitualidade social e psicológica entre a representação da identidade nacional unitária e a vida real do cidadão, problema que se agrava nas sociedades africanas pós-coloniais pela sobrevivência da estrutura tendencialmente dualista herdada da colonização…

Até hoje, trinta e cinco anos depois da independência, ainda se discutem as várias formas de grafar as línguas locais. De um seminário a outro, as elites vão debulhando ideias que ficam em letra morta nos relatórios que ninguém lê. As universidades, melhor, a universidade pública Eduardo Mondlane, vai ensaiando cursos que legitimam educadores das línguas de base étnica. De tempos a tempos, ouve-se falar de uma experiência em ensino nas línguas locais. Pouco ou nada é publicitado. São iniciativas a saca-rolha. E, no meu entender, estão a margem da dinâmica da sociedade que se acultura acriticamente aos valores que a globalização vai, sem freios, difundindo pelos cantos mais remotos.

As elites recusam-se, à luz do dia, a dar cidadania aos valores circunscritos às suas etnias. Outros grupos, sem identificação étnica, escusam-se a trazer à luz os valores que herdaram de gerações e gerações que se foram fixando no solo pátrio. Mas todos falamos de uma diversidade a que desconhecemos os contornos específicos.

No campo que me diz respeito, literatura, tenho acompanhado algumas perversões a que os tempos modernos me dão a assistir. Volta e meia, leio aqui e ali, frases como segundo a nossa literatura oral, fazendo fé nas nossas tradições orais, socorrendo-me dos saberes transmitidos à volta da fogueira, e ecaetera. Pergunto-me: essa literatura oral está sendo transmitida por quem e em que espaços? Que valores se transmitem nessa literatura? Quando falamos da tradição de que tradição falamos?

Creio que as elites culturais e políticas do meu país ainda não se encontraram quanto ao objecto ou referência dos seus espaços identitários. Sou da opinião de que só posso falar da tradição quando esta me é posta a ouvir, ler e consumir. Quando quero falar da minha tradição, do meu passado, tenho que me ater a valores que me estão próximos e dos quais me confronto diariamente, interpretando-os de diversos ângulos quando, a palavra é bonita, em alteridade. Mas esses valores não estão comigo. E se estão, actuam subliminarmente. O que me é dado a ver e consumir não passa de arremedos baratos e descartáveis de valores e memórias dum tecido cultural que se vai esboroando. Os nossos filhos, especificamente os da faixa urbana, geração imediata à independência, perderam por completo o contacto com as línguas maternas dos pais ou avós; as âncoras da identificação cultural circunscrevem-se, a título de exemplo, aos modismos culturais hoje em voga, como o lobolo praticado nos casamentos modernos, os ritos de iniciação na floresta do cimento, as oferendas aos espíritos em árvores tornadas sagradas nas inaugurações de edifícios públicos e outros empreendimentos de cariz económico e social, e pouco mais. Não há uma literatura difundida desses fenómenos.

Nunca houve, nestes anos de secura cultural, um esforço concertado de, ao menos, propagar, por diversos meios, a literatura recolhida em tempos, ou a que, militantemente, foi acolhida por instituições culturais. Desde a alvorada da nossa independência que os currículos escolares não fazem constar provérbios e contos que espelhem o universo cultural moçambicano. Quando falamos de tradição, de memória, de que tradição e memória falamos?

Diz-se, em provérbio Macua, língua falada na região norte de Moçambique, que A cobra trepa sem ter pernas – Enowa enniwela ehi mettó. Mais a sul, entre os Tsonga, diz-se: Pessoa calma (silenciosa) é cobra- Munhu wo rhula i nyoka. Há aqui duas formas distintas de assumir o símbolo cobra. Para os macuas, a cobra representa versatilidade, uma capacidade invulgar de realizar determinadas actividades. Nos tsonga, pelo contrário, a cobra simboliza periculosidade; ela é o símbolo da falta de transparência, da astúcia, dos jogos de bastidores. Estes exemplos demonstram a diversidade cultural existente no meu país que não se reflecte na escola, símbolo da cidadania. As pessoas falam da tradição, mas pouco ou nada dela sabem. E o tempo vai aniquilando esses valores a que as elites se recusam a dar cidadania plena.

Várias explicações têm vindo à tona para este alheamento às realidades culturais locais. Em muitos há o medo de se perder o chão da moçambicanidade, pois temem que ao se falar da tradição, esteja-se a falar da pretização das instituições, da balcanização de um país que se pauta pelo princípio da universalidade e igualdade inscrita nos direitos, deveres e liberdades fundamentais, consagrados na constituição. Para este grupo, falar da tradição é um retrocesso, um nacionalismo redutor. Para outros, com desmedidos apetites políticos, a tradição, os valores de uma etnia, são um passaporte válido para a cidadania política, para uma carreira sem aferição de qualidade. E para muitos, a tradição não passa de um espaço arqueológico não catalogado. E todos, o que é triste, sejam grupos étnicos ou outros espaços identitários que secularmente se sedimentaram no país, não vêem a tradição como espaço de memória interpretando-se continuamente face a outras memórias em plena cidadania. E esta cidadania é conquistada hoje, na escrita, na televisão, na rádio, nas campanhas de saúde pública, nos intérpretes com direito igual aos de outras línguas soberanas que campeiam em salas repletas de auriculares, enfim, em todas os cantos e recantos.

A cidadania que se quer às diversas identidades ou tradições, é a de abertura desses espaços a outros valores próximos e distantes. Tem-se dito, e eu perfilho, que é na troca dos paladares, dos valores culinários, que a diversidade cultural ganha o primeiro grande patamar de convívio são. Se a saudosa Natália Correia dizia que a poesia é para se comer, direi que as identidades devem ser degustadas até ao tutano, para que a diversidade cultural não seja de facto um tigre de papel neste mundo globalizado.

E muito obrigado.

*Comunicação apresentada, em Coimbra, no Colóquio Internacional “Portugal entre Desassossegos e Desafios”.

George Lois e as suas capas para a Esquire

Posted in Artes Plásticas, Comportamento, Fotografia, Imprensa, Jornais with tags , on 6 de Abril de 2011 by gm54

Considerado um dos maiores publicitários do século 20, o nova-iorquino George Lois criou, entre 1962 e 1972, dezenas de capas icônicas para a revista masculina Esquire. As capas retratam alguns dos factos e mudanças mais importantes da década, como o feminismo, a guerra do Vietnam e as conquistas dos negros no país. Muitas delas são lembradas até hoje, como a que traz o pugilista Muhammad Ali como São Sebastião e a que mostra o artista Andy Warhol afundando numa das famosas latas de sopa Campbell. Durante todo o ano de 2008, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) exibiu uma retrospectiva do trabalho de Lois na Esquire. Abaixo, algumas das obras expostas, seguidas de comentários do artista sobre os bastidores.

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Img 1 Chamando para a briga“Em 1962, aceitei o desafio de fazer uma capa para Esquire. Uma das matérias era sobre a decisão do título mundial dos pesos-pesados, entre o campeão Floyd Patterson e o desafiante Sonny Liston. Fiz uma peça surrealista sobre a derrota e Harold Krieger fotografou esta cena na St. Nichols Arena. Ninguém apostava em Liston, mas eu sabia que ele acabaria com Patterson. Após algumas semanas, Liston o destruiu no primeiro assalto! A imprensa comentou a nossa audácia de chamar uma briga na capa e a edição esgotou.”

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Img 2 Os seios de Cleópatra“Em agosto de 1963 Esquire publicou uma matéria sobre o romance entre Richard Burton e Elizabeth Taylor que surgiu no set de filmagens de Cleópatra. Dias antes do deadline da capa, a minha esposa Rosie estava  num táxi quando viu um pôster gigante de Cleópatra a ser pintado no Teatro Rivoli. Saí a correr, aluguei um quarto no hotel do outro lado da rua e chamei o fotógrafo Carl Fisher. Os pintores já tinham acabado, saquei 20 dólares, e eles voltaram com o andaime até o local ideal da foto.”

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Img 3O primeiro Papai Noel negro “Sonny Liston foi um campeão dos pesos-pesados que não ligava para a sua imagem, já havia sido preso por assalto à mão armada. Era início dos anos 60, época da Revolução Negra, a América estava a  mudar e eu queria Liston como Pai Natal negro na Esquire. O editor Harold Hayes gostou da capa, mas foi difícil: vários anunciantes fugiram e assinantes exigiram reembolso. Dezoito anos depois, a Time descreveu a capa como ‘uma das melhores representações sociais das artes plásticas desde a Guernica de Picasso’.”

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Img 4 A capa que decolou“Para compensar a  minha recusa em criar uma típica capa “garota da capa” para a Esquire, fiz uma repleta de beleza. A reportagem tratava de viagens e, por isso, convidei 15 das principais companhias aéreas internacionais para me enviar as suas aeromoças mais bonitas. As 40 moças se divertiram, eu e o fotógrafo Timothy Galfas tivemos uma agradável experiência. As pessoas estavam a escolher as suas companhias aéreas pelas mulheres da capa, e esta tornou-se uma das mais vendidas da Esquire.”

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Img 5 Uma capa atrevida sobre o movimento feminista“Em 1965, o movimento que mais crescia era o da liberação das mulheres dos seus papéis tradicionais na sociedade. Fazer uma capa da Esquire era o ideal para chamar a atenção sobre o assunto. Queria fazer uma brincadeira com uma estrela do cinema em atitude masculina, mas inicialmente fui rejeitado por todas as beldades de Hollywood – Kim Novak, Marilyn Monroe e Jayne Mansfield. Virna Lisi, uma actriz estreante nos EUA, reconheceu o humor da pose viril e fez a barba para a capa.”

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Img 6Ed Sullivan e a peruca“Ed Sullivan apresentou a beatlemania à América no seu show de variedades. Queria colocá-lo na capa com uma peruca dos Beatles! Fui até o The Ed Sullivan Theater e acampei na entrada. Quando Sullivan saiu, fiz a  minha proposta cara a cara com ele, explicando rapidamente. Ele deu um longo olhar e sorriu de orelha a orelha. Foi o mesmo sorriso da capa em que ele usou a peruca com gosto e sorriu como Ringo.”

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Img 7A acusação ‘prematura’ da Guerra do Vietnam“As palavras são de um soldado americano no Vietnam, relatado por John Sack num longo artigo sobre uma companhia de infantaria. Ao ler o artigo esta frase me saltou aos olhos durante a descrição de uma missão de busca e destruição. Afrase mostra a reacção horrorizada de um soldado ao se deparar com o corpo de uma criança vietnamita morta. A capa mostrou ao mundo que algo estava errado. A Esquire foi duramente criticada por muitos leitores por esta acusação ‘prematura’ da guerra.”

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Img 8Outra maldita capa de mocinha“Desde a primeira capa que criei para o editor Harold Hayes, as vendas de Esquire cresceram radicalmente. Mas os anunciantes reclamavam das minhas capas controversas e as provocadoras assustaram algumas agências de publicidade. Nos anos 60, a publicidade estava confortável com mocinhas na capa e sabia que Hayes estava a planear uma matéria sobre a nova mulher americana. A inspiração para essa capa foi uma piada machista, racista e popular na época pré-feminista.”

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Img 9Muhammad Ali como mártir“Em 1967, Muhammad Ali, campeão mundial de boxe, recusou alistar-se no exército americano alegando motivos religiosos – antes, ele convertera-se ao Islão. Um júri federal condenou-o a cinco anos de prisão. Em 1968, enquanto esperava a decisão da Suprema Corte dos EUA, queria Ali na capa como São Sebastião – um romano que sobreviveu à execução por flechas após converter-se ao cristianismo – nos moldes do quadro de Francesco Botticini. A capa transformou-se num cartaz de protesto e, três anos depois, Ali foi absolvido por unanimidade.”

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Img 10 – ‘Como ensinei Nixon a usar maquiagem e tornar-se presidente’ “Fiz esta capa na primavera de 1968, antes de Richard Nixon tornar-se presidente. Esta foto foi discutida em programas de TV na década de 60. Encontrei esta foto dele num banco de imagens e fotografei quatro mãos, inclusive a mão a segurar o batom. Pouco tempo depois, o editor Harold Hayes recebeu um telefonema do secretário de imprensa de Nixon, Ron Ziegler. Ele estava irritado – na verdade, furioso – por causa do batom. Ele disse que era um ataque contra a masculinidade de Nixon.”

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Img 11Andy Wahrol devorado pela fama“Esta capa tornou-se um símbolo da Esquire, da celebração da cultura pop e da desconstrução da celebridade. O movimento Pop Art nos EUA foi lançado em 1962 por Roy Lichtenstein, James Rosenquist, Tom Wesselmann, Robert Indiana e Andy Warhol.  Este último tornou-se o artista mais conhecido do movimento. A lata de sopa Campbell’s de Warhol era o símbolo de Pop Art. Para a capa resolvi mostrá-lo a afogar-se na sua própria sopa. Nós fotografamos a lata de sopa e o artista separadamente.”

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Img 12 A capa matadora“Em novembro de 1970, enquanto William Calley aguardava o julgamento pelo seu envolvimento no massacre de cerca de 500 civis em My Lai, em 1968, a Esquire publicou um trecho de As Confissões do Tenente Calley. Eu queria mostrá-lo rodeado de crianças vietnamitas. Aqueles que pensavam que ele era inocente entenderiam e aqueles que achavam que ele era culpado também. Fotografamos no estúdio de Carl Fischer e a capa causou um furor na época.”

Hortêncio Langa: os 60 anos de um grande compositor que um dia foi tocador da Gaita-de-beços e de Xighoghogwani (*)

Posted in Uncategorized with tags , on 25 de Março de 2011 by gm54

Alguém disse, e nós citamo-lo:

Um artista é normalmente uma pessoa que procura acrescentar alguma coisa a tudo o que foi feito; é alguém que procura entender-se a si próprio e entender o mundo através da arte que faz.”.

Estamos em crer que poucos recusarão a convicção que temos de que Hortêncio Langa se encaixa que nem uma luva na afirmação que acabámos de citar. E pelas mais variadas razões, e todas elas a concorrerem, hoje, 23, para justificar a circunstância de o homem e artista celebrar os seus 60 anos de vida e 41 de carreira.

Vinte e três de Março de 1951, Manjacaze, Gaza, nasce Hortêncio Ernesto Langa. Não o conhecemos pelas terras dos Khambanes, mas quem o acompanha desde os primórdios conta-nos que ele entra para as lides musicais pela via de uma tosca gaita-de-beiços que lhe foi oferecida aos 5 anos de idade. O instrumento cabia-lhe no bolso e assim podia transportá-lo para todo o lado e em todo o lado usá-lo para soprar as mais populares cantigas da época. Xin’veka, talvez!

Aos 12 anos, já radicado no Chibuto, um pouco mais a Sul, Hortêncio funda, com Wazimbo e Miguel Matsinhe, seus amigos de infância, os Rebeldes do Ritmo, naquilo que foi a sua primeira experiência musical em grupo. Até aí, Hortêncio apenas soprava o realejo, ou eventualmente cantasse. Por essa altura, Hortêncio também se inicia na guitarra. Viola de lata, ou xighoghogwani, entenda-se. E inicia-se com quem? Com um outro amigo de infância, o José Xidhakwa Mukhavele, hoje, como o Hortêncio, um nome marcante no panorama musical de Moçambique.

 

Foi com Wazimbo que Hortêncio Langa dá os primeiros passos na carreira

A necessidade de continuar os estudos, uma vez concluída a quarta-classe, leva-o à terminal do Xitonhana, as Oliveiras, onde apanha o machimbombo que o conduz à então Lourenço Marques.

Seria em Lourenço Marques, já na segunda metade da década de 60, que haveríamos de conhecer o Hortêncio, mais conhecido por Tom Tan Kamik entre a rapaziada de Mimangueni, no Chamanculo. E diga-se de passagem que foi aliás no Chamanculo que travámos conhecimento com a larga maioria dos nomes que iriam corporizar uma importante fornada de artistas-referência da actual música ligeira moçambicana.

Por aquelas alturas, e agora para avivarmos a memória do Hortêncio e de outros, a maior parte dos potenciais artistas da música ligeira emergente em Moçambique frequentava dois espaços no bairro do Chamanculo: as varandas do Telinho e do Queiroz. O Hortêncio, mais na varanda do primeiro do que na do segundo. Ainda com Wazimbo e Miguel, este infelizmente já falecido, Hortêncio participa na reedição do trio de Chibuto, mudando-lhe porém a designação para The Geyser (lê-se gaiza).

Sobre as denominações dos trios de Chibuto e de Lourenço Marques, não deixamos de manifestar alguma curiosidade. Se nos parece fácil relacionar a juventude com a rebeldia, isto por causa da denominação Os Rebeldes, ainda para mais para uma banda de rapazes vindos do Chibuto, já mais difícil será relacioná-la com um cilindro eléctrico para aquecer água. Mas deixemos isso para uma outra ocasião, mormente para daqui a 10 anos quando, com propriedade e legitimidade maiores, o Hortêncio poder dizer: Ni Tsendzelekile, andei por todo o lado!

Entretanto, as tendências musicais de então induzem uma mudança estrutural dos The Geyser. Entendem os seus mentores que o trio deveria evoluir para uma estrutura de supergrupo. Integram o Jaime Machatine, mais conhecido por Jaimito, que ingressa na banda como baterista. E se calhar ninguém imaginava que ali se escondesse um virtuoso viola-solo que se viria a revelar anos depois. Um Jaimito que nos dilacera as consciências vendo-o sem rumo nas imediações do Jardim Tunduru, defronte da nossa estação emissora, e deixando-nos mensagens pungentes que só o tempo, se alguém as conservar, ou anotar, as descodificará.

Dissemos atrás que Hortêncio e os seus The Geyser decidiram evoluir para aquilo a que na época se chamou de supergrupo. E o que é isso de supergrupo? Uma resposta a esta pergunta passará, necessariamente, por termos presente que a transformação dos The Geyser em supergrupo acontece em 1970, não sendo também por isso inocente tal circunstância. Foram sem dúvida os Ecos do Festival de Woodstock, um evento que deixou marcas em todo o mundo. E só isso explica o passo dado pelos The Geyser? Pode explicar, sim, mas exigindo melhor enquadramento.

Em 2010, quando assinalávamos neste espaço os 60 anos de vida de José Mukhavele, Hortêncio Langa revelou que o documentário sobre Woodstock provocou uma autêntica onda de choque nos músicos da capital, que lotavam a sala do Scala, em sessão da meia-noite em dia de estreia. Disse-nos Hortêncio:

O Scala estava cheio de músicos. Depois da sessão, ficámos a conversar em grupos, até às 4 da madrugada, sobre aquilo que havíamos acabado de assistir. Ninguém saiu indiferente, fomos para as nossas casas com a certeza de que algo mudaria nas nossas carreiras.”

Momento marcante do Festival de Woodstock, isto no segundo dos três dias do evento, foi quando o trio formado por David Crosby, Stephen (lê-se stifen) Stills e Graham Nash evoluiu para quarteto, integrando Neil Young. Isso foi anunciado em público e em público Neil Young assumiu o seu lugar no palco ao lado dos novos companheiros. Foi um autêntico delírio! Disse-se também na altura que isso significou a passagem de trio para uma estrutura de supergrupo. Fica assim claro, portanto, que supergrupo não significa, necessariamente, um elevado número de componentes. Para isso estava o termo big band, mais dado a grupos de Jazz. Era supergrupo porque o quarteto integrava elementos com nome feito, embora, posteriormente, tivessem visto a sua cotação subir após aquele acto público.

Portanto, o conceito de supergrupo nasceu no final dos anos 60 do século passado, e era normalmente usado para designar uma banda emergente formada por nomes famosos a solo, ou provindo de bandas famosas. A curta duração foi quase uma característica comum dos supergrupos, normalmente formados para a produção de um, no máximo dois álbuns, e invariavelmente de elevadíssima qualidade. Além dos Crosby, Stills, Nash and Young de que falámos, outros supergrupos perfilam na História da música ligeira internacional. Citamos apenas os mais conhecidos entre nós: Emerson, Like and Palmer, Beatles, Pink Floyd, Queen, Genesis, Yes. E, já agora, os The Geyser!

 

Hortêncio e os produtores do Programa Clube dos Entas: Edmundo Galiza Matos e Luís Loforte

Polémica à parte, foram os Cream que vieram a ser considerados o primeiro supergrupo da História, o qual teve na sua composição nomes como os de Eric Clapton, Steve Winwood, Jeff Back, Ginger Baker (lê-se beika) e Jimmy Page. Todos eles famosos, ou antes ou a posteriori. Um dia voltaremos a esta matéria com mais propriedade e num programa específico. E tudo porque hoje falamos de Hortêncio Langa. E para continuarmos a saga e dizer que para nós, quaisquer que tenham sido as linhas com que se vieram a coser os The Geyser na sua conversão para supergrupo, a verdade é que Hortêncio Langa se inspirou também nos Crosby, Stills, Nash and Young, com a honra de ter injectado elementos musicais da sua terra naquele tipo de música, feito de guitarra acústica e combinação de vozes fora do comum. E para isso secundado por nomes como os de João Cabaço e Arão Litsuri, como veremos lá mais para o fim.

Entretanto, e ao mesmo tempo que trabalha nos The Geyser, Hortêncio Langa inscreve-se na tuna universitária de Lourenço Marques, mais concretamente na tuna da Associação Académica de Lourenço Marques, onde toca viola e bandolim. Não só por esta incursão pelos meios académicos do cimento, mas sobretudo pela influência determinante do que vira de Woodstock, Hortêncio Langa foi, e continua a ser, para nós, um músico de pouca instrumentação, de duetos e de trios, mais dado ao acústico, do que, propriamente, a grandes bandas. Pode ser que nos enganemos, mas esta é a nossa convicção, convicção fundada no que lhe temos escutado ao longo dos anos. Tire o ouvinte as suas conclusões escutando as bonitas vozes de Hortêncio Langa e Arão Litsuri, um tudo ou nada à imagem do que lhe apontámos de Woodstock.

Depois de um hiato mais ou menos considerável, voltamos a cruzar-nos com Hortêncio Langa em Nampula, no ano de 1973, andava ele de verde-azeitona vestido e ao serviço do exército português. Expressão do seu eclectismo musical, ele faz parte de dois projectos musicais, o Grupo 2 e Alta Dimensão, e às vezes tocando com o lendário saxofonista moçambicano Chico da Conceição, como daquela vez que o vimos tocar num baile em Namialo. O Grupo 2 que integrava Eduardo Samalam, a viola-ritmo, Issufo Mussagy, na bateria, Samuel Chambe, na viola-baixo, Papaia, a vocalista, e Luís Betencourt nos teclados. E, já agora, António Marques (sim, o nosso homem das corridas de carros), no papel de apresentador. O grupo Alta Dimensão era mais curto, mais apropriado às características de Hortêncio Langa: João Paulo, que alternava actuações com Os Monstros, Mário Viegas, ao piano, José Rodrigues, a viola-baixo, e Necas na bateria.

De regresso a Lourenço marques, concluído o serviço militar, Hortêncio Langa cria, em 1974, com Jaimito, Zeca Tcheco, Billy Cuca, Milagre Langa (seu irmão) e Pedro Khumaio, a banda de afro-rock Monomotapa. Quem acompanhou com atenção a obra dos Monomotapa sabe que eles terão sido os principais precursores de uma nova inflexão que se imprimiu à marrabenta e magikha, uma acção que aconteceu entre 1974 e 1977. E se dúvidas houver… está aí o instrumental Magikha experimental!

E agora uma pausa ao discurso cronológico para dois momentos importantes: o primeiro, para desfazermos equívocos, e o segundo para um momento histórico e honroso para o Clube dos Entas. Comecemos com uma pergunta: quem é o autor do tema Xibomba xa ROMOS?

Nos anos 80, tivemos a honra de fazer parte de uma expedição cultural da Rádio Moçambique que se deslocou à cidade de Inhambane. O Grupo RM estendeu o seu elenco integrando nomes como os de Fany Mpfumu, Astra Harris, Billy Cuca, Hortêncio Langa, entre outros. O autocarro com que nos fazíamos transportar fora alugado à ROMOS, Rodoviária Moçambique – Sul. Teve muitas avarias e muitas foram as horas que consumimos até chegarmos à Terra da Boa Gente. O consolo para os massacrados expedicionários era o facto de a comitiva integrar músicos que, enquanto o autocarro era reiteradamente consertado, dedilhavam as suas guitarras ou cantavam alguns versos das suas canções. Até que, provavelmente em Zavala, com o cansaço no auge, e quando todos dormíamos, do fundo do machimbombo nos começou a chegar o som de uma guitarra tocada com paixão.

Todos nos quedámos no silêncio e embalados por aqueles langores de guitarra acústica provindos de mãos hábeis, embora desconhecidas para a maioria de nós. Hortêncio Langa sabia quem estava a dedilhar a guitarra. Sabia que era o Zé, que só podia ser o Zé Mukhavele. Improvisou a lírica, e toda ela adaptada às circunstâncias de uma viagem atribulada, embora com os seus encantos. A banana e a laranja na Manhiça, o arroz e a batata-doce em Xai-Xai, o ananás e a mandioca em Chissico, e, finalmente, o alvo do destino, o coco e a sura. É isso: “deixem de chorar que o machimbombo da ROMOS vos levará ao destino, ao destino do coco e da sura…”:

Primeiros intérpretes: uma delegação cultural de mais de 50 pessoas, entre músicos e desportistas e sob a bandeira da Rádio Moçambique.

Depois de um grande projecto que foi a banda Monomotapa, e isto para retomar o fio à meada, Hortêncio Langa teve uma curta carreira a solo, para depois formar um duo com Arão Litsuri, com o qual, aliás, iria conhecer o seu baptismo internacional, em 1979, quando se desloca a Cuba, Jamaica e Guiana, pouco depois da visita de Samora Machel àqueles países. Com a integração de João Cabaço, sem dúvida uma das melhores vozes de Moçambique, o duo passou a trio, para nós o projecto mais bem conseguido de Hortêncio Langa. Nesse mesmo ano, o trio é convidado a participar do Festival de Neubrandenburg (lê-se noibrandenburg), na então República Democrática Alemã. Da participação resultou um álbum de grande valor histórico e cultural para o nosso país, aqui recordado pelo Clube dos Entas nos seus temas mais significativos. Mas antes, uma sugestão: não só pelo seu valor musical, mas também pelo simbolismo que ele representa, este álbum deveria merecer um tratamento especial por parte do Ministério da Cultura, nomeadamente reeditando-o em suporte digital.

(*) – Viola feita de Lata de Azeite de 5 Lts

Texto da autoria de Luís Loforte para o Programa Clube dos Entas da Rádio Moçambique transmitido dia 24/03/2011

Distúrbios em Maputo: protestos contra agravamento dos preços dos produtos básicos, pão, água e energia

Posted in Economia, Política, Sociedade with tags , , , , on 1 de Setembro de 2010 by gm54

Menor coloca um pneu na barricada a arder, de bloqueio na Estrada Maputo-Witbank, que liga a África do Sul

Três mortos no Bairro do Benfica e várias dezenas de feridos que deram entrada no Hospital Geral José Macamo é o saldo preliminar dos distúrbios populares que estão a caracterizar as cidades de Maputo e Matola, em Moçambique, em protesto contra o agravamento dos preços de energia, água, pão e outros bens de consumo.

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Morreu baixista dos Kinks

Posted in Pop Rock, Word Music with tags , on 2 de Julho de 2010 by gm54

O músico britânico Peter Quaife, fundador do grupo Kinks, um dos mais populares da década de 1960, morreu quinta-feira em Londres, anuncia a BBC.

A causa da morte não foi ainda tornada pública, mas, segundo a BBC, Quaife sofria de problemas renais e fazia hemodiálise há dez anos.

Quaife foi um dos fundadores dos Kinks, grupo britânico pioneiro do hard rock liderado pelo vocalista e guitarrista Ray Davies. Quaife tocou em êxitos do grupo como ‘You Really Got Me’, ‘All Day and all of the Night’ e ‘Everybody’s Gonna Be Happy’, entre outros.

Em 1966 Peter Quaife sofreu um acidente de carro em que partiu uma perna. Em cosequência, o músico foi substituído por John Dalton por alguns meses. De volta à banda, Quaife participou de alguns dos discos mais importantes dos Kinks, casos de ‘Something Else’ e “Village Green Preservation Society’, que Quaife considerava o ponto mais alto da sua carreira.

Cansado dos conflitos entre os irmãos Dave e Ray, o músico saíu dos Kinks em 1969 e tentou ainda formar outra banda, os Maple Oak. No entanto, o grupo fracassou e Quaife passou a dedicar-se a trabalhos gráficos e ilustrações, passando a viver no Canadá e Dinamarca.

Leonard Cohen anuncia novo disco

Posted in Pop Rock, Word Music with tags on 2 de Julho de 2010 by gm54

O cantor canadiano Leonard Cohen anunciou que vai lançar um novo disco, o primeiro em seis anos. Ainda sem título, o álbum chega às lojas no próximo ano.

De acordo com o jornal britânico ‘The Guardian’, o novo disco terá 10 ou 11 canções, que foram compostas antes da digressão mundial de Cohen em 2008 e 2009.

“Na verdade, uma delas foi escrita durante a digressão. Todas as outras foram escritas antes”, explicou Cohen durante a sua introdução no ‘Songwriters Hall of Fame em Nova Iorque, na última quinta-feira.

O novo álbum será produzido pelo próprio Cohen, que contará com as colaborações da cantora de jazz Anjani Thomas e de Sharon Robinson, com quem partilha a autoria de várias canções desde a década de 80.

Mia Couto: seria desastre nacional se alguma vez Afonso Dlakhama chegasse ao poder em Moçambique

Posted in Uncategorized on 26 de Junho de 2010 by gm54

Malangatana e Mia Couto

O escritor Mia Couto analisa o recente processo eleitoral em Moçambique e os caminhos trilhados pela jovem nação africana até a conquista de um Estado democrático pleno

O escritor e biólogo moçambicano Mia Couto vê com cepticismo as possibilidades de o actual processo eleitoral no seu país induzir o renascimento das utopias que animaram o processo revolucionário moçambicano na década de 1970 e a consolidação de um projecto de nação que ele ajudou a construir. No entanto, não deixa de ressaltar o papel fundamental da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) – actual partido governista e elementar no processo de redemocratização como grupo revolucionário – na estabilidade do país e na continuidade do processo de construção nacional.

LEIA MAIS AQUI: www.rm.co.mz

Como o senhor definiria o perfil social e político da oposição?

Seria um desastre nacional se alguma vez Afonso Dlakhama, da Renamo, chegasse ao poder. Já Deviz Simango, jovem engenheiro que saiu em ruptura com a Renamo e que ainda é prefeito da cidade da Beira (a segunda cidade de Moçambique) fez um bom trabalho em prol da cidade. Mas é preciso dizer que a oposição é algo que está em processo de criação. E é urgente que se crie uma oposição capaz, uma oposição construtora de alternativas e que abra caminhos e ideias novas.

Rui Quadros, caçador guia e campeão de tiro: Tombou um Kambako

Posted in Uncategorized on 26 de Junho de 2010 by gm54

Por Marcelino Gonçalves*

Nascido na histórica Ilha de Moçambique, em 1937, RUI QUADROS, é o primogénito de uma prole de nove irmãos, filhos de um casal cujo patriarca – Afonso Quadros – era funcionário do quadro da administração civil da colónia e que se tornou muito conhecido no território precisamente por ser chefe de uma tão grande família, coisa rara entre os brancos. Outra faceta que notabilizou o pai Quadros era a sua grande paixão pela caça, que praticava nas áreas da sua jurisdição administrativa, quando chefe de Posto, a propósito de resolver problemas de alimentação do pessoal sob a sua responsabilidade empregue nas diversas actividades (administrativo, obras, presos, abertura e limpeza de picadas, etc,) ou mesmo para eliminar animais daninhos que invadiam os povoados e suas culturas.

As constantes transferências a que estavam sujeitos os funcionários daquele quadro administrativo levaram Afonso Quadros e a sua família a viverem praticamente em todos os distritos da colónia de Moçambique e em locais dos mais isolados e inóspitos do interior. Dizia-se, não sei se com fundo de verdade, que o pai Quadros pedia para ocupar os Postos Administrativos mais isolados e afastados que normalmente eram recusados pelos seus colegas, precisamente porque se localizavam nas regiões onde existia maior densidade de animais selvagens. Estiveram na rota de trabalho deste funcionário localidades do interior com tais características, como Lunga, Itoculo, Matibane, Lalaua, Muite, Mutuali, Malema, Ligonha, Macuzi, Inhassunge, Gilé, Funhalouro e Saúte.

Naturalmente que os filhos, desde pequenos, criaram também a mesma paixão do seu progenitor, sabido que é que a caça é uma atracção muito forte para os jovens que têm o privilégio de viver em contacto com o mato e os animais bravios. O Rui, sendo o mais velho, desde tenra idade que acompanhava o pai nas incursões pelo mato e desde os seis anos que começou a lidar com espingardas. Começou pelas de pressão de ar e depressa passou às de bala de calibre ponto vinte e dois e depois às de calibres maiores. Iniciou-se no abate de aves e roedores e aos oito anos já matava pequenos antílopes. Aos nove anos abateu o seu primeiro búfalo e aos doze o primeiro elefante, tudo sob a batuta do seu pai e por vezes dos próprios cipaios do Posto.

Conheci o pai Quadros em meados da década de cinquenta durante as deambulações que também fiz como funcionário do mesmo quadro. Curiosamente, ele chefiou um Posto que bem conheci: o de Saúte, localizado na circunscrição do Alto Limpopo, província de Gaza, entre o rio Save e o rio Limpopo. Uma região de clima muito seco e com pouca população humana mas povoada de muitos milhares de animais bravios. Foi considerada, até à década de oitenta, a melhor área de caça de Moçambique e aquela que albergava mais variedades de espécies, algumas delas raras, como a girafa, a avestruz, a mezanze, a palapala cinzenta, a chita, a lebre saltadora, a raposa orelhuda e o lince. Outras espécies comuns, como elefantes, búfalos, elandes, zebras, gnús, palapalas, gondongas, cudos, leões, leopardos, chacais, hienas, inhalas, inhacosos, hipopótamos, impalas, changos, crocodilos, facoceros e cinco espécies de cabritos, eram muito abundantes. A célebre planície de Banhine era o epicentro desta região tão fértil em fauna selvagem e ficava a dois passos da povoação de Saúte. Um autêntico paraíso para a prática da caça, com destaque  para a chamada caça grossa, que ali foi praticada em regime livre até à década de sessenta. Viria, depois, a ser ali criada a coutada oficial n. 17 que mais tarde, em 1973, foi extinta devido à criação do Parque Nacional do Banhine.

Caçador-guia e desportista

Rui quadros mostra a um amigo algumas das mazelas da caça

Foi nesta e noutras regiões idênticas que Rui Quadros passou a maior parte da sua juventude e adquiriu uma larga experiência como caçador, tornando-se também um apaixonado pela vida animal. Só depois da instrução primária, que lhe foi ministrada pela mãe, se afastou para continuar os estudos (concluiu aos 17 anos os estudos secundários na África do Sul), mas durante as férias voltava sempre ao seio familiar e todo o seu tempo disponível era ocupado nas caçadas, que praticava à sombra das facilidades concedidas pelo próprio pai na qualidade de representante máximo da autoridade na respectiva área.

Gorados os seus sonhos de tornar um biólogo virado para o ramo da fauna selvagem, por dificuldades financeiras dos pais para o manterem a estudar na África do Sul, procurou em Lourenço Marques uma actividade que o mantivesse em contacto com os animais bravios e assim começou por estagiar no Museu Álvaro de Castro (actual Museu de História Natural) onde aprendeu a embalsamar pequenas espécies, nomeadamente aves. Rapidamente se interessou pela ornitologia e ao serviço do Instituto de Investigação Científica de Moçambique dedicou-se à captura de pássaros. Percorreu todo o território em busca de espécies raras não catalogadas, obtendo mais de uma centena de espécies novas para a vasta colecção do Museu. Durante uma dessas campanhas, de mais de seis meses, na região do Lago Niassa, desenvolveu ali o gosto pela caça submarina, uma actividade que, para além de emotiva, lhe dava substancias proveitos, pois vendia o pescado capturado, que normalmente atingia algumas dezenas de quilos por dia.

Entretanto, a cidade capital também o cativou. Gostava de belas mulheres e de belos carros. O Ford Mustang descapotável era uma das suas imagens de marca. Mas o irmão acha que o Rui se dava da mesma maneira no conforto de um hotel de cinco estrelas ou na esteira de uma palhota, no meio do mato.

Na capital, à altura Lourenço Marques, dedicava o tempo disponível à prática do tiro de stand e ao atletismo. Em ambas as actividades depresessa se notabilizou, logo a partir da categoria de júnior. No atletismo foi campeão de 400 e 800 metros. No tiro atingiu o patamar cimeiro em todas as provas, tornando-se campeão de Moçambique tanto na prancha como nos pombos, título que renovou sucessivamente, torneio após torneio, vencendo também inúmeras provas internacionais em que participou. Centenas de taças, medalhas e outros troféus foram-se acomulando na sua casa ao longo dos anos, primeiro em vitrines organizadas e depois a monte sobre os móveis da sala.

De entre os melhores atiradores da época só o seu colega e amigo Amadeu Peixe o equiparou em títulos. Morreu no último domingo (14 de junho), depois de uma sopa de feijão manteiga no seu inseparável Piri-piri.

* adaptação editorial do Savana (edição de 18/06/2010)

Sexto Festival Nacional de Cultura em Chimoio: a celebração e exaltação da cultura moçambicana

Posted in Moçambique with tags , , , , , , on 7 de Junho de 2010 by gm54

Bebé brincando com batuque, enquanto a mãe dançarina aguarda a entrada em cena

(Imagem (EGMatos) captada sábado, 5,na vila da Namaacha, na fase de apuramento dos representantes da província de Maputo)

Chimoio, Julho/agosto de 2010. Será exactamente na capital da província central de Manica, de 27 de julho a 1 de agosto, que os fazedores das artes e cultura, uma vez mais, terão a oportunidade de celebrar e exaltar as ricas, diversificadas e milenares tradições culturais moçambicanas. É o VI Festival Nacional da Cultura, evento nacional que ocorre no Ano Internacional de Aproximação de Culturas, facto proclamado pela 62ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em reconhecimento do poder da cultura como factor de compreensão mútua, de paz e sobretudo de desenvolvimento sustentável.

O VI Festival Nacional de Cultura pretende-se que seja o momento mais alto de celebração e exaltação da cultura moçambicana, no objectivo de preservar, desenvolver as artes, a cultura e as tradições das diferentes comunidades e criar uma plataforma de interacção, intercâmbio e de divulgação do rico e diversificado património cultural do país.

Música tradicional moçambicana: “Timbila ta Venâncio”: Testemunho e consagração do icone da timbila

Posted in Moçambique, Uncategorized with tags , , , on 28 de Maio de 2010 by gm54

A Música chopi, figurada na timbila, registou esta semana mais um momento alto da sua secular história. O seu ícone, Venâncio Mbande, aos 80 anos de idade, lançou segunda-feira (21 de Maio, Dia Mundial da Diversidade Cultural), em Maputo, o seu primeiro disco compacto, com o título génerico “Timbila Ta Venâncio – Ao vivo no Teatro África”.

Trata-se de uma obra prima que em si encerra a dimensão de Venâncio Mbande, enquanto músico e precursor deste instrumento tradicional que da província de Inhambane, sul de Moçambique, granjeou simpatia em todo o mundo e hoje é Património Oral e Imaterial da Humanidade.

O disco, com um total de onze faixas que retratam musicalmente a vivência e sonhos de Venâncio Mbande, é assumido desde já como a sua maior consagração.

Conta-se que este não é o primeiro registo discográfico. Logo após o seu regresso ao país e com base num estúdio móvel de 24 pistas, o músico e produtor finlandês Eero Koivistoin registou na casa do próprio Venâncio Mbande, a primeira obra intitulada “Timbila Ta Venâncio”, a qual foi editada pela NAXOS WORLD.

São escassas as informações sobre a circulação deste disco no mercado, entretanto, o que se afirma é que a NAXOS não produz para fins comerciais, mas sim funciona como depositária dos maiores clássicos do mundo.

Sob influência do seu tio e outros familiares, Venâncio Mbande aprendeu a tocar timbila aos 6 anos de idade e aos 18 anos, emigrou para África do Sul para trabalhar nas minas de Ouro. Foi neste país que em 1956, criou a sua própria orquestra e começou a compor as suas próprias músicas, começando assim, a sua grande ascensão como um dos maiores mestres de música Chopi.

Foi ainda a partir da vizinha África do Sul que Venâncio Mbande catapulta a música Chopi para os vários quadrantes do globo, particularmente depois do lançamento em 1948 do livro “Chopi Musicians”, escrito pelo etnomusicólogo Hugh Tracey. Diz-se que o livro contribuiu bastante para o reconhecimento internacional da música Chopi.

Mas foi com o apoio do professor de etnomusicologia Andrew Tracey, filho de Hugh Tracey que Venâncio Mbande se tornou no maior mestre de timbila conhecido no mundo, tendo actuado em muitas cidades importantes da Europa, e a sua música ou filmes, constam dos arquivos das mais importantes bibliotecas e arquivos espalhados pelo mundo inteiro.

Entretanto, o disco “Timbila Ta Venâncio – Ao vivo no Teatro África”, produzido sob a chancela da editora nacional “Ekaya Productions”, liderada por João Carlos Schwalbach”, surge no âmbito das celebrações dos seus 30 anos da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD) e foi igualmente associado ao Festival Aldeia Cultural que decorre desde a última sexta-feira, na capital do país.

É forma de reconhecimento e homenagem da CNCD àqueles que com o seu talento e criatividade contribuíram para o desenvolvimento da cultura, criando um ambiente favorável para a prática e massificação das actividades culturais.

Conforme disse David Abílio, director geral da CNCD, entre essas figuras, destaque vai para o Venâncio Mbande, considerado o maior ícone de timbila. “Nós somos testemunhos disto. Nas nossas viagens, pelo mundo fora por curiosidade, visitamos bibliotecas e arquivos especializados em música e dança, para sabermos que informação dispunham de África e em particular de Moçambique. E encontramos com surpresa e satisfação, músicas gravadas e imagens de Venâncio Mbande, as vezes como a única referência de Moçambique”, anotou David Abílio, afirmando que prova maior da presença universal de Mbande foi a proclamação de Timbila pela UNESCO em 2005 como Obra Prima do Património Oral e Imaterial da Humanidade.

O Primeiro-Ministro moçambicano, Aires Ali presente na cerimónia oficial do lançamento do disco, apelou a dado passado do seu discurso, a união de esforços para que haja mais registo de obras de Venâncio Mbande, não só sob forma de disco, mas também de filme.

É interesse que a obra daquele ícone de timbila seja cada vez mais difundida e que sirva de bandeira da moçambicanidade. Aliás, Aires Ali disse que nas suas visitas de trabalho quer dentro ou for a do país, vai lever sempre consigo o disco de Venâncio Mbande.

De referir que depois da cerimónia oficial de lançamento do disco nas instalações do Centro Cultural Franco Moçambicano, Venâncio Mbande e a sua orquestra constituída foi 20 elementos, fizeram-se ao palco principal da “Aldeia Cultural” para apresentação ao grande público do novo álbum “Made in Mozambique”.

Indica-se que além da CNCD, da Ekaya Productions, o disco foi registado e produzido com o patrocínio da MOZAL, contou com o apoio da UNESCO e do Centro Cultural Franco Moçambicano.

Entretanto, o disco “Timbila Ta Venâncio – Ao vivo no Teatro África”, produzido sob a chancela da editora nacional “Ekaya Productions”, liderada por João Carlos Schwalbach”, surge no âmbito das celebrações dos seus 30 anos da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD) e foi igualmente associado ao Festival Aldeia Cultural que decorre desde a última sexta-feira, na capital do país.

É forma de reconhecimento e homenagem da CNCD àqueles que com o seu talento e criatividade contribuíram para o desenvolvimento da cultura, criando um ambiente favorável para a prática e massificação das actividades culturais.

Longa-metragem ‘A República das Crianças’ de Flora Gomes nasce nas ruas de Maputo

Posted in Cinema, Moçambique, Uncategorized with tags , on 23 de Maio de 2010 by gm54

Flora Gomes dando instruções a um dos jovens actores numa rua da cidade de Maputo

Numa cidade onde todos os adultos foram para a guerra, são as crianças que assumem as funções dos mais velhos, de polícia sinaleiro a deputado, e constroem um mundo novo, de esperança e de sonhos. A cidade existe só na cabeça de Flora Gomes, mas está gradualmente a tomar forma nas ruas da capital moçambicana, onde o realizador guineense está a filmar A República das Crianças, a sua quinta longa-metragem.

O argumento, escrito a meias com um amigo, está pronto há meia dúzia de anos mas só agora começaram as filmagens, depois de escolhidos os nove actores principais entre 600 crianças de Maputo. No meio delas, um adulto, o actor norte americano Danny Glover, de Escape from Alcatraz, Lethal Weapon, Silverado ou, mais recentemente, 2012, onde interpreta o papel de presidente dos Estados Unidos.

“Queria falar um pouco de uma África mais organizada, uma África de esperança. Nos últimos tempos tem havido muitas guerras civis no nosso continente e queria virar as páginas da história, fazer com que pensássemos como um povo livre, que sonha e que constrói um país, para uma nova geração”, conta Flora Gomes. O cineasta resume assim o conteúdo do conto dos meninos que ocuparam a cidade que os adultos abandonaram, que organizaram o sistema de saúde e de educação, e criaram um Parlamento onde o presidente é diferente todos os dias.

Como em filmes anteriores, Flora Gomes escolheu não-profissionais para fazer o filme, onde Danny Glover, o conselheiro da República, é um dos poucos adultos com um papel relevante.

“Gosto dessas aventuras, de trabalhar com crianças, e até adultos, que nunca fizeram cinema. E tem dado resultado”, diz o realizador.

“Não e fácil trabalhar com meninos, mas é apaixonante. Gosto muito. Em todos os meus filmes sempre tenho essa possibilidade de trabalhar com os miúdos que nos dão coisas extraordinárias”, garante Flora Gomes num intervalo das filmagens, quando grandes camiões, projectores, máquinas de filmar e muita confusão deixam de boca aberta dezenas e dezenas de outras crianças, ávidas de ver o “circo” que se monta uma manhã inteira para um minuto de filmagem.

O filme, diz o cineasta guineense, deverá estar pronto no final do ano e a montagem é feita em Portugal, tanto mais que é uma co-produção portuguesa (Tejo Filmes) e francesa (Les Films de l’Après-midi).

Património histórico-cultural: Governo mobiliza fundos para restauração de importantes monumentos em Nampula

Posted in Arquitectura, Fotografia, Religião, Turismo with tags , , , , , , on 16 de Abril de 2010 by gm54

As autoridades culturais em Nampula estão a desenvolver esforços para angariar apoios financeiros junto de parceiros internacionais para serem aplicados num ambicioso plano de restauro de importantes infra-estruturas histórico-culturais localizadas no distrito costeiro de Mossuril, defronte da Ilha de Moçambique.

O Palácio de Verão dos governadores, a feitoria e a rampa dos escravos e a Igreja da Nossa Senhora dos Remédios, monumentos em avançada degradação progressiva, são as relíquias históricas que, em caso de uma resposta positiva de eventuais doadores, irão sofrer as necessárias obras de restauro.

O suplemento “Caderno Cultural” do matutino Notícias, escreve na sua última edição, que apenas a embaixada da Espanha mostrou interesse em desembolsar fundos para a aquele efeito, prometendo no entanto fazê-lo através da UNESCO, a agência das Nações Unidas para a Ciência Cultura e Educação.

Outra exigência da representação espanhola, é elaboração, pelas autoridades culturais de Nampula, de uma proposta detalhada relacionada com a futura utilização sobretudo do Palácio de Verão dos Governadores, após o que poderá desembolsar os fundos para custear as despesas com a restauração do imponente imóvel localizado na zona da Cabaceira Grande, no continente.

Mário Intetepe, chefe dos serviços de acção cultural na Direcção Provincial de Educação e Cultura, é citado pelo “Caderno Cultural” como tendo dito que a exigência catalã está a ser satisfeita, priorizando-se o aproveitamento do Palácio de Verão dos Governadores e a residência de Neutel de Abreu.  Este edifício, de acordo com Intetepe, poderá ser utilizado também como local de debate, entre jovens, de assuntos ligados à história e cultura, para além de outros temas do seu interesse.

Os edifícios em questão possuem espaços amplos que podem servir de salas de aulas para leccionar algumas turmas que estudam ao relento na Cabaceira Grande.

Mário Intetepe acrescentou por outro lado que aqueles imóveis constituem ponto de atracão turístico daí que a sua instituição olha para a questão da sua restauração como uma prioridade.

Relativamente a outros imóveis histórico-culturais de Mossuril que igualmente necessitam de alguma intervencão de restauro, Mário Intetepe afiançou que as autoridades culturais de Nampula vão prosseguir contactos com outros parceiros que fazem parte da rede da UNESCO comprometidos com a valorização do património tangível da região costeira de Nampula, nomeadamente o Japão, Portugal e Noruega no sentido de mobilizar mais recursos financeiros.

Era na feitoria onde se fazia a selecção e compra dos escravos idos sobretudo dos distritos de Erati, Memba, Monapo e Nacaroa, conduzidos depois pela rampa para o interior das embarcações que seguiam para diferentes destinos como as Américas, Ásia e Europa.

A progressiva degradação do Palácio de Verão dos Governadores e a Igreja da Nossa Senhora dos Remédios, é agravada pelo saque por populares, da estrutura de madeira, que a utilizam como combustível lenhoso.

A sede do distrito de Mossuril dista cerca de 40 quilómetros da Ilha de Moçambique e os turistas que demandam aquela que foi a primeira cidade capital de Moçambique, deslocam-se ao continente para conhecerem outros traços da colonização portuguesa e da influência da civilização árabe, patententes nas chamadas Cabaceiras grande e Pequena.

Após 18 meses de inoperância, reaberta a Biblioteca Nacional de Moçambique em Maputo

Posted in Arquitectura, História, Moçambique with tags on 15 de Abril de 2010 by gm54

Fachada da Biblioteca Nacional de Moçambique, após restauro

A Biblioteca Nacional de Moçambique (BNM), baseada em Maputo, reabriu ontem (quarta-feira) ao público, depois de ter encerrado as portas durante um ano e meio devido as obras da sua reabilitação e ampliação.

Orçadas em cerca de 14 milhões de meticais (cerca de 400 mil dólares americanos) desembolsados pelo Governo moçambicano, estas obras consistiram na construção de um edifício de dois pisos destinado a alojar funcionários da instituição, redimensionamento do espaço, revisão da instalação eléctrica, entre outros aspectos.

Segundo o director da BNM, Roque Félix, com essas novas facilidades, esta instituição poderá fornecer novos serviços ao público, como material de leitura infanto-juvenil, leitura para pessoas portadoras de deficiência física, Internet e mediateca.

No âmbito do mesmo projecto, a BNM contou com mais oito mil livros (entre didáticos, ficção e de conhecimentos gerais) que se adicionam ao anterior acervo bibliográfico estimado em cerca de 150 mil obras.

Falando durante a cerimónia de reabertura desta instituição, o Primeiro-Ministro moçambicano, Aires Ali, disse que o Governo atribui a BNM um papel muito importante de preservar, conservar e disponibilizar o património documental do país e de interesse para o país.

“É justamente por isso que o Governo aprovou, em 2007, a criação em todo o país das bibliotecas públicas provinciais bem como atribuiu aos governadores provinciais competência de criar bibliotecas públicas distritais e outras”, disse o governante, acrescentando que “assim lançamos as bases de criação de condições para a materialização do apanágio do Governo de melhorar a qualidade do ensino, criando espaço para um ambiente de leitura permanente”.

Ainda na mesma cerimónia, foi lançada página da Internet (www.redicem.org.mz) da Rede dos Direitos da Criança em Moçambique, uma iniciativa de diversas organizações, incluindo as Nações Unidas, destinada a criar um espaço para a promoção e protecção dos direitos legítimos da criança através da partilha de informação entre organizações da sociedade civil e outras instituições que trabalham nesta área.

Esta página da Internet é parte do projecto do Centro de Informação para o Desenvolvimento, uma unidade que passará a funcionar dentro das instalações da BNM onde as pessoas poderão ter acesso a inúmeras obras que se encontravam nas bibliotecas de diversas instituições internacionais, incluindo agências das Nações Unidas.

Depois destes passos, a BNM tem agora o desafio de informatizar todo o seu acervo bibliográfico e das bibliotecas públicas espalhadas pelo país de modo a permitir que, gradualmente, estas instituições estejam ligadas a uma única rede.

Renascimento da filatelia moçambicana? Os sabores da nossa gastronomia em 3 selos assinados pelo chief Marcos Graça

Posted in Artes Plásticas, Correios de Moçambique, Filatelia, Moçambique on 14 de Abril de 2010 by gm54

Selo sobre borboletas moçambicanas editado pelos serviços filatélicos coloniais portuguêses

Uma colecção de três selos assinados por Marcos Graça, um chief de cozinha moçambicana e internacional, circula há semanas pelo mundo. É a primeira vez que a empresa Correios de Moçambique emite selos com temática sobre os pratos típicos de Moçambique, a chamada gastronomia nacional.

Os serviços de Filatelia de Moçambique, ao longo dos anos, apresentaram selos retratando imagens sobre o rico potencial faunístico incluindo lugares e terras moçambicanas, nomedamente, grupos de animais, de flores, nomes de terras e lugares etc.

A nova colecção sobre a gastronomia moçambicana apresentam o valor facial de 8MT, 20MT e 40MT (Usd 1 equivale a 31MT) e presentemente já esgotaram no mercado segundo o autor das estampilhas.

Sobre quando é que ele teve conhecimento do referido concurso, ele sustenta que muitas vezes as pessoas são reconhecidas pelo seu valor, quer profissional, académico, artístico ou de qualquer outra índole. Assim, no caso dele, a sua participação foi-lhe sugerido e encorajado por pessoas que conhecem o seu potencial criativo e assim ele acedeu. “Como eu tenho por tradição guardar o meu acervo e registo profissional, tecnicamente chamado por portifolio, foi fácil levar para este concurso.

“Nesse portifolio continha fotografias dos pratos das regiões do sul, centro e do norte. No total eram quinze propostas e foram seleccionadas três”, recorda.

Trata-se de imagens representando um bolo de milho (Nampula), quiabo com camarão e coco ( Zambézia) e matapa com carangueijo com coco e amendoim (Inhambane).

Sobre a sua participação no certame, chief Marco Graça explica que para a emissão de selos, a empresa lançou um concurso desafiando aos potencias candidatos da área de para que apresentam as suas propostas na área de gastronomia moçambicana em 2008. A ideia era de levar os selos para participar numa mostra internacional em Portugal na Associação dos Operadores dos Correios de Portugal dos Países e Territórios de Expressão de Língua Portuguesa, e receberam muitas propostas. E de tantas propostas o jurado escolheu três propostas da minha autoria (reunidas num portofolio em fotografia) que são pratos típicos da nossa gastronomia dividida em três regiões.

História: primeiro hospital central do país corre risco de desabar na Ilha de Moçambique

Posted in Arquitectura, História, Moçambique with tags , on 13 de Abril de 2010 by gm54

O edificio onde funcionou o primeiro hospital central do país, na Ilha de Moçambique, em Nampula, está na eminência de desabar, devido à falta de trabalhos visando a sua restauração, enquanto não há definição por parte das instituições governamentais e parceiros ligados à matéria daquilo que será o destino daquele património histórico da humanidade.

O referido edifício é constituído por duas partes importantes sendo a principal que acomoda os serviços de administração, onde funciona a direcção distrital da mulher, saúde e acção social. Na parte traseira funcionam as enfermarias e serviços de consultas externas para servir uma cidade com cerca de 14 mil habitantes.

De acordo com o jornal Noticias de Maputo, uma parte do bloco administrativo foi tomada de assalto por funcionários públicos transferidos de outros distritos, os quais transformaram os compartimentos em habitação, sem o consentimento do governo municipal, segundo dados apurados pela nossa reportagem.

O governo da Ilha de Moçambique avançou há cerca de cinco anos com uma proposta ao Ministério da Saúde no sentido de concessionar o edifício, do primeiro hospital do país erguido há cerca de 137 anos, a um grupo privado ligado ao ramo de turismo. A ideia inicial era de transformar o imóvel em estabelecimento hoteleiro de quatro estrelas.

A proposta do referido grupo constituído por investidores norte-americanos, incluía a construção de raiz de um centro de saúde com serviços de maternidade, cirurgia, estomatologia, pediatria entre outros, numa área a ser definida pelas entidades do sector da saúde, entre a parte insular da Ilha ou a zona continental do Lumbo.

No entanto, o ministro da saúde, Ivo Garrido, distanciou-se dessa iniciativa que visava, segundo os preponentes, salvar aquele edifício que está num estado crítico de conservação, pois não beneficia de intervenção há mais de duas décadas.

Na ocasião, o titular da pasta da saúde reconheceu que a reabilitação do edifício onde funcionou o referido hospital e relegado ao nível de centro de saúde o Governo vai acarretar custos elevados para a sua reabilitação, os quais o Executivo não está em altura de os suportar.

Celestino Gerimula, director do Gabinete de conservação da Ilha de Moçambique, GACIM, disse quando indagado sobre o futuro do edifício em causa que a indecisão que prevalece em torno do aproveitamento daquela infra-estrutura está somente a contribuir para o agravamento dos níveis de degradação do referido património.

Acrescentou que tal situação dificulta a concretização dos esforços que estão sendo encetados no sentido de mobilizar fundos junto de parceiros internacionais integrados na rede liderada pela UNESCO, virada à restauração do património tangível da Ilha de Moçambique em que o edifício do antigo hospital central está integrado.

De referir que o actual centro de saúde a Ilha de Moçambique não reúne as condições exigidas para a prestação de cuidados sanitários, porquanto o tecto deixa infiltrar água para o interior das enfermarias e áreas concebidas para consultas externas. Alguns serviços indispensáveis como a morgue e estomatologia funcionam abaixo das suas capacidades, situação que propicia a deslocação dos pacientes para a vila de Monapo, onde os serviços são mais adequados.

Em Maputo: construção do monumento em memória de Samora Machel dentro dos prazos

Posted in História, Moçambique with tags , on 11 de Abril de 2010 by gm54

Esta estátua de Samora Machel está situada junto da Casa de Ferro, defronte do Pórtico do Jardim Tunduru, na cidade de Maputo

O presidente moçambicano,  Armando Guebuza, reafirmou que os trabalhos de construção, na Praça da Independência, cidade de Maputo, do futuro monumento em memória do primeiro presidente de Moçambique independente, Samora Machel, estão dentro do prazo e serão concluídos até 2011.

Guebuza respondia a uma pergunta feita dos jornalistas no Senegal, onde ele juntamente com outros líderes africanos testemunharam a inauguração do gigantesco e magnífico monumento do Renascimento Africano, com 50 metros de altura, edificado nas vulcânicas colinas Ouakam, arredores em Dakar, capital daquele país da costa ocidental africana.

“Quando lançamos a primeira pedra concluímos que o mesmo devia ser feito em todas as capitais provinciais e indicou-se como horizonte temporal cinco anos que ainda não passaram”, explicou Guebuza.

O estadista moçambicano disse, por outro lado, que além da primeira pedra já existem em várias partes do país trabalhos de concessão e mesmo de construção daquilo que será o monumento em todas as capitais provinciais, representando a verdadeira dimensão de Samora Machel.

Guebuza disse, em Outubro de 2006, no lançamento da primeira pedra, acto que também coincidiu com a passagem do 20º aniversário da sua morte, que a melhor e mais indelével homenagem ao presidente Samora Machel é um Moçambique em paz e livre da pobreza, onde se consolida continuamente a unidade nacional.

Em relação a decisão de colocar o monumento de Samora Machel na Praça da Independência, lugar que é, na verdade, mais aberto a qualquer pessoa que visita a cidade, Guebuza disse ser ali que tiveram lugar as grandes realizações políticas, intrinsecamente ligadas ao percurso e liderança do fundador do Estado moçambicano.

Guebuza apontou, a título de exemplo, o facto de ter sido naquela praça que Samora Machel conferiu posse ao primeiro Governo de Moçambique independente e dirigiu comícios populares e foi nela onde foram anunciadas as mais importantes decisões com grandes implicações políticas, económicas e sociais.

O valor histórico da Praça da Independência reside também no facto de ser nela em que os moçambicanos disseram, segundo Guebuza, o seu derradeiro adeus a Samora Machel, líder carismático, nobre filho de Moçambique e de África e cidadão do Mundo.

Samora Machel morreu na sequência do despenhamento do avião presidencial em que seguia, nas colinas de Mbuzini, na África do Sul, quando regressava da Zâmbia. Com ele pereceram 34 membros da sua delegação, cujas reais circunstâncias da tragédia ainda não foram devidamente esclarecidas.

Literatura: Vera Cruz lança “Linhas de Fuga”, uma colectânea de longas crônicas de viagem

Posted in Crónicas de Viagem, Literatura, Moçambique with tags on 9 de Abril de 2010 by gm54

“Linhas de Fuga” é o título da nova obra literária do escritor, jornalistas e docente universitário, Germano Vera Cruz, a ser lançado no próximo dia 14 de Abril, no Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM), em Maputo. Trata-se de um livro de crónicas de viagem à França, Swazilândia, Japão, Finlândia, Moçambique e Brasil.

Editada pela Imprensa Universitária, a obra é uma colectânea de longas crónicas de viagem que tratam de experiências pessoais do autor na relação com os povos locais, abordando igualmente aspectos socioculturais desses países.

As crónicas já foram publicadas em jornais ou revistas nacionais e estrangeiras.

“Conto as minhas experiências de viagem de maneira lúdica, com muito humor, utilizando para o efeito uma linguagem bastante criativa”, disse Vera Cruz.

“Como vivi durante muitos anos na França, quando vinha de férias a Moçambique observava o meu próprio país, de certa maneira, como um estrangeiro. Daí que eu tenha escrito também algumas crónicas de viagem sobre Moçambique, uma das quais consta do livro”, explicou.

O autor realçou ainda que este livro é o primeiro volume do género. “Se tudo correr bem, próximo ano pretendo publicar um livro que será o segundo volume.

Nele constarão crónicas de viagem à Itália, China, Coreia do Sul e do Norte, Estados Unidos, Rússia e Austrália. Aliás, as referidas crónicas já foram todas escritas”.

O livro a ser lançado é o quinto livro publicado pelo autor (entre os quais livros científicos, romances e um livro de poesia), sendo o terceiro a o ser feito em Moçambique, dado que os restantes dois foram publicados em francês, na França.

Exposição de fotografias mostra diplomacia do jazz durante Guerra Fria

Posted in Africa, Comportamento, História, jazz, Política, Política Internacional, Word Music with tags , on 9 de Abril de 2010 by gm54

O Departamento de Estado americano usou Duke Ellington, Louis Amstrong, Miles Davis e outros ícones do jazz como embaixadores culturais com fins políticos durante a Guerra Fria, conforme evidencia uma exposição de fotos em Tel Aviv.

Trata-se de uma exposição de 45 fotografias que exemplificam os peculiares e até há pouco desconhecidos esforços diplomáticos empreendidos em 25 países durante um quarto de século pelos astros da música norte-americana.

Intitulada “America’s Jazz Ambassadors Embrace the World” (“Os embaixadores americanos do jazz percorrem o mundo”, em tradução livre), a exibição é fiel reflexo da estratégia de Washington de recorrer às figuras do jazz para cativar os seus inimigos de meados dos anos 50 até fins dos 70.

Tal período inclui eventos históricos como a Crise dos Mísseis em Cuba (1962), a invasão soviética da Tchecoslováquia (1968) e a Guerra do Vietnam (1959-1975). Alguns deles custaram a Washington tensões com Moscovo e, outros, o descrédito em boa parte do mundo.

Para remediar a situação, a diplomacia americana decidiu enviar os gigantes do jazz aos quatro pontos cardeais que então contavam em termos de sedução ideológica: o Islão, a América Latina, a África Subsaariana e o bloco soviético.

O objectivo era apresentar o jazz como a face amável da cultura americana e como sinônimo de liberdade. A exposição apresenta diversas fotos históricas dos personagens retratados e o contexto diplomático de cada situação.

Entre as imagens, há cenas como a de Louis Amstrong a jogar pebolim com Kwame Nkrumah – pai do pan-africanismo e da independência de Gana -, tocando trompete sobre um camelo nas pirâmides de Giza e rodeado de crianças numa escola do Cairo.

Em outras, Dizzy Gillespie dirige uma motocicleta nas ruas de Zagreb, na antiga Jugoslávia de Tito, e utiliza as notas do seu trompete para estimular a dança de uma cobra em Karachi, no Paquistão.

A exposição também mostra o pianista Dave Brubeck a dar um show numa gélida Varsóvia ou a aterrar no aeroporto de uma calorosa Bagdad, por onde Duke Ellington também passou na mesma campanha e onde, além de tocar piano, fumou pela primeira vez um cachimbo d’água.

Ellington também viajou para Adis-Abeba para se reunir com o imperador Halie Selassie e a Dacar para ser condecorado com todas as honras por Leopoldo Sedar Senghor, pai da independência senegalesa e criador do conceito humanístico de “negritude”. Já Miles Davis aparece na exposição com a sua banda encantando o público de Belgrado.

Mas o grande destaque é uma foto na qual Benny Goodman cumprimenta Nikita Khrushchov quando ainda estava longe o reatamento diplomático entre Moscovo e Washington.

Nada era por acaso. Se para as viagens à África Negra se escolhiam músicos afro-americanos, para as visitas à antiga União Soviética se preferia brancos como Goodman, que interpretava jazz mas também música clássica europeia, muito apreciada em Moscovo.

A política do Departamento de Estado de fazer amigos através da música terminou antes do início da década de 80 e devido à oposição republicana de se gastar o dinheiro do contribuinte em empresas culturais e num gênero como o jazz.

Para o organizador da exposição, Doron Polak, “foi um grande êxito. A diplomacia do jazz conseguiu que a cultura americana se espalhasse pelo mundo como algo de todos.

Para melhorar a imagem dos Estados Unidos não havia música melhor para se escolher”.

“Podia ter-se optado pelo country, mas é uma música demasiado local, muito pouco universalista”, disse Polak em declarações à Agência Efe. Segundo ele, “foi uma iniciativa para utilizar a arte com fins políticos e de propaganda”.

Lembrou, no entanto, que “a utilização da arte para esses fins sempre existiu e continuará a existir”.

José Mucavele: o tributo do Clube dos Entas (*), pelo percurso de vida e pela brilhante carreira do cantor

Posted in Comportamento, Moçambique, Radiodifusão, Word Music with tags , , , on 8 de Abril de 2010 by gm54

José Mucavele e Edmundo Galiza Matos, em novembro de 2009(José Mucavele e Edmundo Galiza Matos (um dos autores do Programa “Clube dos Entas”)

José Alfredo Mucavele, natural de Chibuto, Gaza, 1950. Na próxima segunda-feira, 5 de Abril, quando fizermos a reposição destas palavras, um dos maiores compositores e intérpretes do nosso país estará completando 60 anos de vida. Aqui e agora, e certamente traduzindo a vontade do país artístico, e não só, um modesto tributo do «Clube dos Entas» a José Mucavele. Pelo seu percurso de vida e pela brilhante carreira que tem trilhado desde 1969.

Conhecemos o José Mucavele em 1969, trabalhava então como pintor publicitário, ocupação para a qual ingressara em benefício de um curso de desenho tirado na Escola Industrial da então cidade de Lourenço Marques.

Decorria ainda o ano de 1969 quando o vemos integrado no conjunto «Os Escravos», conjunto que, depois, e claramente por razões de ordem política, se viu obrigado a mudar para a designação de «Os Psicadélicos».

Depois dos «Psicadélicos», Mucavele é convidado a integrar o agrupamento «Djambu 70», onde actua como trompetista. Em 1971, faz parte da banda «Conceito», formada por músicos universitários actuando na casa dos Antigos Estudantes de Coimbra e na residencial universitária vulgarmente conhecida por SELF.

Em 1972, Mucavele é visto a tocar com «Os Outros», tão somente a melhor banda de música ligeira de todos os tempos na cidade da Beira. Também tocou para a «Alta Tensão», outra banda de referência dos anos 70.

A partir de 1973, a carreira musical de José Mucavele parece eclipsar-se. É visto a leccionar a 4.ª Classe em Caniçado, Gaza, e depois, em 1974, a engajar-se nas fileiras da Frente de Libertação de Moçambique, para o que teve de fazer treinos militares em Nachingweya, na Tanzânia, juntamente com outros jovens de então como o até recentemente Ministro das Obras Públicas e Habitação, Felício Zacarias.

Só que não foram, nem o professorado, nem as armas que conseguiram sublimar a apetência de José Mucavele pelo campo cultural. Começa por integrar o grupo cénico das então FPLM, para depois, entre 1976 e 1977, na empresa Metochéria Agrícola, em Nampula, onde foi colocado como funcionário, desenvolver uma das suas maiores paixões: a pesquisa etno-cultural ligada à música.

Não nos custa por isso acreditar que é dessas pesquisas que emerge esta autêntica obra-prima de José Mucavele, do qual sobressai o Muthimba, o Tsope e o Tufu. E isto se mais não couber. Que o diga Felício Zacarias, que o ouviu o trmpete de José Mucavale, pela primeira vez, na Tanzânia.

José Mucavele retoma a carreira em 1978, nomeadamente com a sua participação no festival da juventude realizado em Cuba, e sobretudo com a sua integração no projecto que conduziria à criação do Grupo RM, onde actuava como trompetista. A circunstância pode ser aproveitada para breves considerações sobre o Grupo RM.

O cantor e compositor e o autor deste texto, Luís José Loforte(O cantor e compositor, junto com Luís Loforte, autor deste texto do Clube dos Entas)

O projecto do Conjunto RM foi sem dúvida uma ideia interessante, principalmente por ter entretido pessoas e fixado canções até aí reduzidas à sua expressão meramente popular.

Não querendo elaborar muito à volta dessa matéria, manda porém a verdade dizer que quem acompanhou como nós o percurso histórico deste agrupamento da nossa estação, sabe o quanto a sua estrutura orgânica limitava, e muito, os horizontes e a criatividade dos inquietos músicos, entre os quais se conta, sem dúvida, o José Mucavele. Era o problema da constelação de estrelas, mas também, e sobretudo, do burocratismo e da compensação nivelada por baixo, os quais, como sabemos hoje tão bem, não são bons parceiros da cultura. Aliás, como toda a tentativa de dirigir a cultura, ou de fazê-la por decretos.

Estamos em «CLUBE DOS ENTAS», que decidiu, para esta noite, prestar um tributo a José Mucavele, por ocasião dos seus 60 anos de vida.

Dissemos que José Mucavele iniciou a sua carreira em 1969, um ano marcante para a canção internacional, ou seja, o ano do festival de Woodstock.

Sobre isso, e num dos programas com que evocámos os 40 anos desse acontecimento, Hortêncio Langa, outro músico de créditos firmados entre nós, defendeu que praticamente todos os músicos da sua geração, ele próprio incluído, foram fortemente influenciados pelo festival de Woodstock. E para sustentar a sua tese, avançou mesmo que José Mucavele, seu companheiro de percurso,  terá adoptado a técnica de Richie Heavens na forma como toca a sua guitarra. Uma técnica que confudi até grandes compositores nossos conhecidos, como seja, o português Rui Veloso e o moçambicano Roberto Xitsondzo.

Apenas para recuperar o que então dissemos, Richie Heavens abriu o festival de Woodstock no lugar de Joe Cocker, por este ter apanhado uma tremenda pedrada na noite de véspera. Realinhou-se o programa, e lá teve Richie Heaven que subir ao palco.

Beneficiando ou não do impacto que deixam sempre aqueles que inauguram os grandes acontecimentos, a verdade é que Heavens electrizou literalmente a assistência e todos aqueles que o viram em filme rodado sobre Woodstock. Rui Veloso como que nos obrigou a ir à poeira do tempo, onde pudemos verificar que de facto fazia todo o sentido a sua afirmação.

De resto, José Mucavele e Rui Veloso são companheiros de uma já longa estrada, que terão provavelmente vivido as mesmas crises de identidade musical, o que lhes confere alguma autoridade na apreciação de um sobre o outro. O que a nós compete dizer sobre isso é que estranho seria se os bons não se inspirassem nos melhores! De resto, qual é o músico dos anos 60 e 70 que não foi beber do Woodstock?

Nassurdine Adamo (direita), um dos autores do programa, em conversa com outro radiófilo, Emídio Oliveira(Nassurdine Adamo, à direita, o sonoplasta do Clube dos Entas, na companhia de outro radiófilo, Emídio de Oliveira)

Mais à frente veremos como José Mucavele teve as suas próprias opções a partir das matrizes musicais nacionais, aí se tornando, sim, o músico que todos conhecemos, aliás a razão por que o celebramos esta noite.

Influenciado ou não pelo festival de Woodstock, ou se quiserem por Richie Heavens, o mais importante é que José Mucavele veio a encontrar e a seguir o seu próprio caminho, como aliás o prova toda a sua obra.

Interessante também é saber o que pensa José Mucavele sobre a música de outros criadores de Moçambique.

Decorria o ano de 2009 quando num debate, não nos ocorrendo se  na televisão ou na rádio, ouvimos José Mucavele dizer que para ele o maior músico de Moçambique de todos os tempos é Matchonguezy.

Tratando-se sem dúvida de uma afirmação discutível, a nossa opinião sobre ela é de que Mucavele terá sido igual a si próprio. Não fugiu um milímetro da sua forma peculiar de provocar uma polémica: fazer uma afirmação arrojada para deixar as pessoas estupefactas e obrigá-las a pensar. E tal como se esperava, a maior parte das pessoas não sabia quem era o tal Matchonguezy. O moderador incluído.

Na nossa opinião, e sem que nos arrisquemos tanto pela catalogação em excesso, Matchonguezy é, de facto, um ilustre desconhecido do meio musical moçambicano. E se nos é permitida uma comparação também algo arrojada, Matchonguezy estará para a música moçambicana, como Luís de Camões é para a literatura portuguesa. E até pelo percurso de vida de ambos. Morreu no anonimato e na quase indigência, deixando porém atrás de si uma obra de dimensões descomunais. À parte as comparações, julgamos que se impõe um estudo aturado à obra de Matchonguezy. E talvez concluamos o mesmo que concluiu José Mucavele.

Mas aonde pretende chegar o José Mucavele quando qualifica o Matchonguezy como o maior músico de sempre do nosso país? Na nossa modesta opinião, a afirmação de Mucavele não nasce do nada. Tem também por alvo a justificação do caminho que ele próprio resolveu trilhar: a música com tonalidade verdadeiramente moçambicana. Logo, o herói maior tinha de ser a sua nova candeia: Matchonguezy.

(*) O Clube dos Entas é um programa da Rádio Moçambique, de atoria de Edmundo Galiza Matos, Luís Loforte e Nassurdine Adamo. Vai para o AR às quintas-feiras (22H05) e segundas-feiras (02H05) e pode ser ouvido no www.rm.co.mz

O presente texto, de autoria de Luís José Loforte, é uma adaptação do programa dedicado a Zé Mucavele, que dia 5 de Abril completou 60 anos e 41 de carreira.

Swazilândia: o sapato preto e a pera abacate “Made in Mozambique”

Posted in Comportamento, Economia, História, Moçambique, Uncategorized with tags on 8 de Abril de 2010 by gm54

Uma "mamana" swazi experimentando um sapato, acossado por muitos miúdos vendedores de calçado no 'Shoprite' da Namaacha (Foto de EGMatos)

Se nos anos mais “quentes” da guerra em Moçambique, e até aos finais dos anos 90, a Swazilândia era o “El dorado” para os moçambicanos, hoje, aquele estatuto do país vizinho parece ter ficado para a história. Uma história triste, que nenhum moçambicano se atreve hoje a evocar por ter sido escrita com o sangue de centenas dos nossos conterrâneos e manchada pelo tratamento humilhante com que os “maswazis” nos brindavam.

A escassêz no nosso país do essencial para a sobrevivência – estou a referir-me a produtos tão simples como o pão, o açucar, a farinha de milho, arroz, óleo de cozinha e até sabão – resultado do nosso colapso económico devido à guerra dos 16 anos, levou os moçambicanos a terem que ir se abastecer daqueles produtos no mercado swazi. Diariamente, muitas centenas de concidadãos nossos, atravessavam a fronteira com o país de Sua Majestade para as compras, injectando na sua economia milhões de dólares que, numa situação normal em Moçambique, não entrariam nos cofres daquele país. Escusado será dizer que a guerra em Moçambique deve ter enriquecido muita gente, cá e lá.

Mas dizia eu que o “El dorado” swazi passou para a história, sendo que hoje, Moçambique, em paz, começa a ser o destino preferido dos nossos “irmãos” do outro lado, não só para compras, como também para a descoberta de uma outra realidade, muito mais dinâmica e menos estupificadora como aquela a que são obrigados a respeitar. Sabem do que estou a referir-me.

Se é verdade que moçambicanos há que ainda atravessam a fronteira da Namaacha para alguma compra do outro lado – sobretudo da carne bovina e suína – não o é menos que são aos magotes os cidadãos swazis que entram em Moçambique não só para adquirirem artigos de vestuário, como também para fazer turismo – ainda que barato – e, pasme-se, para provar a agua da grande lagoa salgada: o mar.

À quarta-feira e sábado, funciona na vila fronteiriça da Namaacha um mercado informal, informalmente chamado de Shoprite, onde, para além de produtos hortícolas, comes e bebes e quinquilharia diversa, se vende de tudo um pouco. Mas é sobretudo artigos de vestuário e principalmente calçado em segunda-mão o alvo preferido de muitas mulheres vindas da Swazilândia. No que ao calçado diz respeito, o curioso é que o mesmo deve ser de cor preta, sendo que é impossível encontrar um par que seja de uma outra matiz.

Muitas jovens swazis deslocam-se ao mercado da Namaacha para compras de algo para revenda no seu país

A explicação para esta preferência pela cor preta do calçado é tão simples quanto dramática: é a cor predominante nos fardamentos escolares dos diferentes estabelecimentos de ensino do país. A outra razão prende-se com o facto de quase todos os subditos de Sua Majestade acordarem todos os dias com a notícia do falecimento de um ente querido, vítima da Sida. O luto não é ocasional, uma vez que a chamada doença do século ameaça tornar a Swazilândia um país despovoado dentro de poucos anos.

Poucos estarão informados da forma quase doentia com que os nossos vizinhos apreciam a fruta da abacateira, fruta abundante na província de Maputo. Carregam-na em grandes quantidades para o seu país, onde a revendem a preços escandalosos para nós. Este é outro dos motivos da “invasão” swazi, sobretudo nos primeiros trés meses do ano, altura da pera abacate.

Depois das compras, esta senhora swazi arruma peças de vestuário e sapatos, enquanto aguarda pelo transporte para o seu país

A baixa de Maputo, ou, para ser mais exacto, alguns dos hotéis ali implantados, são literalmente ocupados por muitos jovens provenientes da Swazilândia, organizados em grupos excursionistas, interessados em conhecer uma cidade moderna, com atractivos diferentes dos das urbes do seu país e, mais do que isso, mais aberta em termos comportamentais. “Tá-se bem aqui”, imagino que deve ser isso o que dizem os jovens swazis.

Seria petulância da minha parte aferir, a partir deste volt-face nas relações entre as pessoas de ambos os países, que Moçambique é hoje o “El dorado” dos swazis. Nem pode ser, dado que as circunstâncias em que decorrem essas relações, não são ditadas por condicionalismos como guerra e escassêz de bens necessários à sobrevivência de uns e de outros.

A verdade porém manda concluir que se os moçambicanos não tiram proveito para se “vingarem” das humilhações a que foram sujeitos durante aqueles anos difíceis, que os vizinhos aprendam, de uma vez por todas, que um dia de um qualquer ano, também eles poderão ter que invadir o Mercado moçambicano para adquirirem o essencial para a sua sobrevivência. Até como espécie, sabe-se lá!

Instalação inusitada em Londres

Posted in Vida Animal with tags on 27 de Fevereiro de 2010 by gm54

A galeria Barbican em Londres apresenta uma instalação inusitada: trata-se de um aviário que usa guitarras e baixos no lugar de poleiros, fazendo com que o movimento dos pássaros ao pousar e voar produza notas musicais.

Da Universidade de Évora: Malangatana distinguido com doutoramento honoris causa

Posted in Artes Plásticas, Moçambique with tags , , on 13 de Fevereiro de 2010 by gm54

A Universidade de Évora atribui na passada quarta-feira, 10, o doutoramento honoris causa ao pintor moçambicano Malangatana, no ano em que se assinalam 50 anos da sua obra. Com a laudatio da responsabilidade de Marcelo Rebelo de Sousa, a cerimónia decorreu na Sala de Actos da instituição.

No dia do doutoramento, foi inaugurada a exposição «Malangatana – 50 Anos de Pintura», no Palácio D. Manuel, que tem como objectivo traçar uma retrospectiva da vasta obra de artista, representada em inúmeros museus e colecções privadas em todo o mundo. A mostra reúne 50 trabalhos produzidos de 1950 até aos dias de hoje, ilustrativos das suas diferentes fases. A exibição está patente até 28 de Março.

Malangatana, 50 anos de pintura

Malangatana Valente Ngwenya nasceu na vila de Matalana, província de Maputo, em 1936. Frequentou a Escola da Missão Suíça protestante, onde aprendeu a ler e a escrever em ronga. Após o encerramento desta instituição, transitou para a Escola da Missão Católica em Bulázi, onde conclui, em 1948, a terceira classe.

O seu pai era mineiro e passava longos períodos afastado da sua família. Por isso, Malangatana cresce muito ligado à sua mãe, de quem aprecia o desenho e as cores com que esta decorava cabaças ou bordava cintos de missangas. Mas esta educação não o afastou das raízes culturais: foi iniciado nos costumes ancestrais, aprendendo os elementos da medicina tradicional (nyamussoro) com a médica que tratou sua mãe, quando esta adoeceu.

Na sua aldeia, foi pastor de bovinos e aos 12 anos começou a trabalhar em Lourenço Marques, onde desempenhou diversas tarefas, como ‘criado’ de meninos, apanhador de bolas no clube de ténis e, mais tarde, como empregado de mesa. Posteriormente, teve o seu talento artístico reconhecido e foi, por isso, encorajado a estudar arte, tendo tido como mestre o Arquitecto Garizo do Carmo.

Pintor “engagé”

A mulher sempre presente na obra do mestre moçambicano

E, em 1959, as suas obras foram, pela primeira vez, expostas publicamente. Tornou-se artista profissional em 1960 graças ao apoio do arquitecto Miranda Guedes, que lhe cedeu a garagem para atelier e lhe adquiria dois quadros por mês, para que se pudesse manter. Mas foi em 1961 que organizou a sua primeira exposição individual, no Banco Nacional Ultramarino.

A sua actividade de pintor “engagé” concomitante com a publicação de poemas no jornal “Orfeu Negro” e na “Antologia da Poesia Moderna Africana”, indiciaram-no como membro da Frelimo, o que o fez ser preso, conjuntamente com José Craveinha e Rui Nogar. Julgado em Tribunal Militar, é absolvido a 23 de Março de 1966, sendo de novo preso a 17 de Junho desse ano, sendo restituído à liberdade a 11 de Novembro. Data, dessa época, a notável colecção “Desenhos de Prisão”.

Obteve uma bolsa da Fundação Gulbenkian que lhe permitiu ainda estudar gravura e cerâmica. Conseguindo vencer a oposição da PIDE, trabalhou em gravura na “Gravura – Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses” e em cerâmica, na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego.

Com a independência de Moçambique, Malangatana envolve-se directamente na actividade política (foi eleito deputado em 1990 nas listas da Frelimo; foi eleito em 1998 para a Assembleia Municipal de Maputo e reeleito em 2003), participa em acções de mobilização e alfabetização e, a partir de 1978, na organização das aldeias comunais na Província de Nampula. Foi um dos fundadores do “Movimento Moçambicano para a Paz”. Em 1984, integra os “Artistas do Mundo contra o Apartheid”, expondo em diversas cidades da Europa. Tem colaborado intensamente com a UNICEF e durante alguns anos fez funcionar a escola de bairro dominical “Vamos Brincar”.

Exposições colectivas e individuais

“Juízo final”, 1961

Desde 1959 que participa em exposições colectivas em várias partes do mundo e, a partir de 1961, realizou inúmeras exposições individuais em Moçambique e ainda na Alemanha, Áustria, Bulgária, Chile, Cuba, Estados Unidos, Espanha, Índia, Macau, Portugal e Turquia. Tem murais pintados ou gravados em cimento em vários pontos de Maputo (Mural do Museu de História Natural e Mural do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, entre outros), assim como em outros países.

A sua obra, para além dos murais, sobressaiu ainda em Pintura, Desenho, Aguarela, Gravura, Cerâmica, Tapeçaria, Escultura e encontra-se em vários museus e galerias públicas, bem como em colecções privadas, espalhadas por inúmeras partes do Mundo. Terminou, recentemente, um baixo-relevo, em mármore, na cidade do Barreiro. Malangatana é, sem dúvida, o artista plástico mais famoso – no plano internacional – de Moçambique e um dos mais destacados da África Austral.

Obra de Mia Couto será debatida num congresso na Bélgica

Posted in Literatura, Moçambique, Poesia with tags , on 10 de Fevereiro de 2010 by gm54

Um congresso internacional sobre a obra de Mia Couto vai decorrer na Antuérpia, Bélgica, de 23 a 25 de Março, organizado pelo Instituto Superior de Tradutores e Intérpretes da Bélgica com o apoio do Instituto Camões.

Comunicações de especialistas de diversas universidades da Europa e América serão apresentadas, incluindo da Universidade da Sorbone de Paris, da Universidade de Caen da Normandia (França), a Universidade de Bucareste (Roménia), Universidade de Utrech (Holanda), a Universidade Koln (Alemanha), Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), Universidade de Berkeley (Inglaterra), bem como as universidades portuguesas de Viseu, Lisboa, Porto e Trás-os-Montes.

No final do primeiro dia, inteiramente dedicado à análise da obra do escritor moçambicano, será exibido o filme Terra Sonâmbula que venceu diversos prémios internacionais de cinema.

Mia Couto vai estar presente no colóquio.

A primeira do evento será dedicada à tradução da obra de Mia Couto. “Serão escolhidos dois livros entre a obra do autor e serão convidados alguns dos tradutores destes textos, para participarem em mesas redondas”, segundo uma nota dos organizadores.

A segunda vertente “será centrada na análise da obra do autor”. Nessa parte, pretende-se abordar especificamente os temas como o trabalho/o jogo com a linguagem na obra de Mia Couto, bem como o seu processo narrativo, a literatura e a constituição de uma identidade (linguística, cultural e/ou política) moçambicana e a tradução, a divulgação e a internacionalização da obra do escritor moçambicano.

Além das comunicações seleccionadas, estão também previstas palestras por Mia Couto, Ana Mafalda Leite e Alberto Carvalho.

Os organizadores lançam um apelo à apresentação de comunicações numa das áreas temáticas do colóquio, devendo a intenção de apresentar uma comunicação acompanhada de um título provisório ser apresentada até 1 de Novembro de 2009.

Cinema moçambicano: uma merecida homenagem a Camilo de Sousa

Posted in Cinema, Moçambique with tags , on 10 de Fevereiro de 2010 by gm54

Camilo de Sousa, a homenagem que tardava

O cineasta Camilo de Sousa é o próximo homenageado no programa “Noite de Abraços”, numa apresentação a ser feita pelo cineasta e secretário-geral da Associação Moçambicana de Cineastas (AMOCINE), Gabriel Mondlane. O acto terá lugar esta quinta-feira, às 18.00 horas, no espaço do Sheik, onde irá se discorrer sobre vida e obras daquele que é um dos maiores cineastas moçambicanos.

Membro fundador e vice-presidente da Associação Moçambicana de Cineastas, criada em 2003, Camilo de Sousa nasceu em Lourenço Marques a 29 de Maio de 1953, onde fez os estudos secundários.

Em 1968, começou a interessar-se pela fotografia, trabalhando nas Artes Gráficas e, posteriormente, como repórter fotográfico e redactor do diário “O Jornal” publicado na então cidade de Lourenço Marques. Em 1972 refugiou-se na Bélgica, onde obteve o estatuto de refugiado político junto às Nações Unidas (UNHCR).

Em 1973 partiu para a Tanzânia e juntou-se à Frente de Libertação de Moçambique, participando na luta pela Independência de Moçambique.

Depois da proclamação da Independência Nacional em 1975, trabalhou em diversos projectos de carácter social e de comunicação na Província de Cabo Delgado, criando a primeira rede moçambicana de correspondentes populares de informação e levando o cinema móvel a todos os distritos e localidades desta província.

Em 1980, ingressou no Instituto Nacional de Cinema, onde trabalhou até 1991 como realizador, editor, director de produção, produtor e, finalmente, Director Geral de Produção.

Em 1992, com outros profissionais de cinema e comunicação, criou a primeira cooperativa independente de comunicação e produção de imagem, a Coopimagem.

Em 2001, associou-se à Ébano Multimédia, onde tem vindo a desenvolver a actividade de Produtor e Realizador.  É membro fundador e vice-presidente da Associação Moçambicana de Cineastas, criada em 2003.

Ele conta com uma participação em centenas de produções cinematográficas, como produtor, director, realizador, primeiro assistente.

Nas produções cinematográficas que marcaram Moçambique, Camilo de Sousa tem a sua participação, onde, a título de exemplo, se pode citar a sua presença no filme “O Tempo dos Leopardos”, uma longa-metragem de ficção co-produzida por Moçambique e a Jugoslávia.

A sua marca está igualmente presente no filme “O Vento Sopra do Norte”, uma longa-metragem de ficção do cineasta José Cardoso.

A “Noite de Abraços” é um evento cultural que visa criar um espaço para a interacção directa e informal entre personalidades da cultura moçambicana e os seus admiradores, constituindo uma oportunidade para os fazedores culturais trocarem impressões com os seus colegas e admiradores, partilhando caminhos que levem ao desenvolvimento cultural.

ALGUNS DOS VÁRIOS PRÉMIOS COMO PRODUTOR E REALIZADOR

REALIZADOR:

* “Um dia às 7.30 horas” 16mm p/b Moçambique – Melhor Documentário Moçambicano, 1983

* Não Mataram o Sonho de Patrício”, documentário, 16 mm p/b, Moçambique – Prémio do Centre International des Filmes pour les Enfants e la Jeunesse (Paris)

* “Ondas Comunitárias”, documentário, Betacam SP, Moçambique -Adquirido pelo CFI (França) foi difundido por toda África e em alguns países europeus em português, inglês e francês através da TV5

* “JUNOD”, documentário, Betacam SP, Moçambique – Prémio FUNDAC Kuxa-Kanema para o melhor filme moçambicano 2006

PRODUTOR:

* “Sonhos Guardados” (de Isabel Noronha) docu-drama, Moçambique * Melhor Documentário no Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa – Cataguazes, Brasil, 2005

* Prémio Instituto Camões – FIKE – Festival Internacional de Évora (Portugal) 2005

* Prémio FUNDAC Kuxa-Kanema para o melhor filme moçambicano 2005

* “Acampamento de Desminagem” (Licinio Azevedo) documentário Moçambique

* Prémio no Festival Internacional de Milano para o Melhor Documentário

* “O Grande Bazar” (Licinio Azevedo) ficção, Moçambique – FIPA de Prata (Biarritz França) 2006

* “Hósdedes da Noite” (Licinio Azevedo) docu-drama, Moçambique – FIPA de Ouro (Biarritz França) 2007

* “Ngwenya, o crocodilo” (Isabel Noronha) docu-drama, Moçambique

* Festival de Milano – Melhor documentário de África, Ásia e América Latina

* “Trilogia das Novas Famílias” (Isabel Noronha) docu-drama Moçambique – FDC

* Prémio FUNDAC Kuxa-Kanema para o melhor filme moçambicano 2007

* “Mãe dos Netos” Isabel Noronha e Vivian Altman – Animação Moçambique – FDC

* Seleccionado para vários festivais internacionais, especializados em animação, que tiveram lugar em 2009.

Moçambicanos celebram a festa do Ukanyi

Posted in Africa, Comportamento, Moçambique with tags , on 4 de Fevereiro de 2010 by gm54

Bebedores do Ukanye, utilizando cabaças, debaixo de um canhueiro, algures no sul de Moçambique

As comunidades da região sul de Moçambique estão em festa, tudo porque se está na época de ukanyi, vinho tradicional produzido a partir da fermentação do suco do fruto do canhoeiro.

Nesta época do ano assiste-se diariamente e, em especial, aos fim-de-semana, uma procissão de citadinos para as zonas suburbanas, incluindo alguns distritos das províncias de Maputo e Gaza, com agenda única: o consumo de ukanyi, uma bebida bastante apreciada, sobretudo, pelo seu valor social.

Diga-se, em abono da verdade, é também o momento do verdadeiro turismo doméstico.

Para um conhecimento mais aprofundado do assunto, a seguir algumas notas extraidas de um estudo realizado pelo Instituto de Investigação Sócio-Cultural (ARPAC), intitulado “Ritual das Primícias de Ukanyi”.

Ukanyi é um tipo de vinho tradicional de baixo teor alcoólico bastante apreciado, não somente pelo valor sócio-cultural que encerram as sessões de consumo, mas também pela sua conotação afrodisíaca. De facto, ao longo de gerações, o ukanyi tem sido objecto de muitos debates com relação à sua conotação afrodisíaca. Algumas pessoas se esforçam em consumi-lo, supostamente para o aumento da sua virilidade. Outras especulam negativamente em relação as tais propriedades.

O facto é que até agora não há confirmação científica. As conotações afrodisíacas são do domínio de crenças, essas propriedades têm sido atribuídas somente a uma parte de ukanyi, nomeadamente o hongwe que é a parte densa da bebida que fica no fundo do recipiente.

Tradicionalmente o hongwe era servido aos jovens de ambos sexos, como forma de dota-los de capacidades para uma melhor actividade sexual.

O suposto efeito afrodisíaco de ukanyi tem levado à tomada de medidas cautelares, durante os convívios, com a separação e distanciamento dos locais de dejecção, por sexo. Por outro lado, tem-se assistido à exposição de cordas para serem usadas contra os que perturbam a ordem e tranquilidade da festa de ukanyi.

A FESTA DA FAMÍLIA

Nos tempos idos a frutificação, fabrico e posterior consumo de ukanyi marcava a transição do ano no seio das comunidades. Uma outra importância associada ao ukanyi está relacionada, por um lado, com o fortalecimento das relações sociais e, por outro, com a criação de novos laços de solidariedade. É durante a época de ukanyi que se registam com maior frequência visitas entre indivíduos pertencentes a uma mesma família, incluindo membros de diferentes comunidades.

Durante o ano muitos membros das famílias ficam dispersos, cada um nos seus afazeres, mas chegada a época de ukanyi, as pessoas concentram-se, aproximam-se para conviver e discutir vários assuntos ligados à sua vida e a da sua comunidade. É também nesta ocasião que se fazem novas amizades.

O ritual de ukanyi cria e fortifica as redes de solidariedade entre habitantes de diferentes ecossistemas, o que por sua vez se revela importante na resposta às crises provocadas por calamidades naturais, no âmbito da segurança alimentar ou ruptura de reservas de sementes para a agricultura.

No que se refere à dimensão espiritual, o ukanyi reveste-se de uma importância crucial na manutenção do equilíbrio social. A época de ukanyi é vista com a fase de maior aproximação das populações locais aos espíritos dos seus antepassados, para fazer preces de vária ordem, tendo como finalidade a busca de um equilíbrio cosmológico, o que levou a sacralização da bebida e transformou-a num produto de venda proibida.

Para as comunidades do sul de Moçambique, o fabrico de ukanyi tornou-se numa das actividades que acompanham alguns momentos da sua vida. Com efeito, o ukanyi é indispensável nos eventos sócio-culturais, quer no seio da família, quer das comunidades.

RITUAIS ASSOCIADOS

Nas celebrações relacionadas com ukanyi, o seu consumo segue algumas regras costumeiras, nomeadamente três rituais fundamentais (kuphahla ukanyi, xikuwha e kuhayeka mindzeko), ou seja, as fases de abertura, festa e encerramento, respectivamente.

Estes rituais condicionam, na visão comunitária, o sucesso de toda a época de ukanyi, pois, supõe-se que esta bebida também alimenta os antepassados.

Todas as comunidades, independentemente do contexto social, realizam acções de modo a atingirem certa finalidade, seja política, económica ou cultural. Grosso modo, os ritos praticados testemunham a grande necessidade que o Homem tem de estar em harmonia com o cosmos.

Do ponto de vista mais pragmático, o ritual consiste na operacionalização de uma crença ou mais crenças, trazendo à superfície determinadas normas, valores e tradições comunitárias.

É neste contexto que o consumo de algumas bebidas tradicionais no seio das comunidades toma em consideração uma conjugação de factores sócio-culturais inerentes a cada grupo social. O ukanyi não é excepção. O seu consumo observa alguns rituais e mitos transmitidos de geração em geração, na base da oralidade.

Com efeito, para se proceder com o consumo de ukanyi, existem algumas regras a serem respeitadas: é preciso que o chefe de cada comunidade comece, em presença dos seus súbditos, o kuluma (ritual da abertura da época e o seu sentido ritual é tirar por certas cerimónias o carácter nocivo de um certo alimento) e só depois é que estes podem beber livremente nas suas povoações.

Tal acontece até hoje, o consumo liberalizado de ukanyi é antecedido por um ritual de abertura, conduzido por líderes comunitários, onde são evocados os espíritos dos antepassados. Este ritual é designado, de forma genérica por Kuphaha ukanyi.

IMPORTÂNCIA DO CANHOEIRO

O canhueiro, carregado do fruto já maduro

O canhoeiro possui uma grande importância para as comunidades. Nalgumas, reveste-se de valores associados à sacralidade, noutras a aspectos políticos utilitários. Estas qualidades, por um lado, tornam esta árvore mítica e especial, no contexto da preservação cultural e, por outro lado, inserem-na na vivência política e quotidiana das comunidades.

A respeito da sacralidade, esta surge como uma tentativa de interpretação do mundo e, sobretudo de busca de tranquilidade espiritual. Trata-se de um fenómeno antigo, adoptado numa primeira fase para o estabelecimento de uma feliz convivência entre o mundo animal e o humano e depois, como uma resposta às dinâmicas societárias.

Com efeito, o canhoeiro acabou fazendo parte da cosmovisão e do modus vivendi das comunidades da África Austral, em geral, e de Moçambique, em particular.

Em suma, embora não seja de carácter obrigatório, variando de comunidade para comunidade, o canhoeiro é usado para as cerimónias de veneração ou evocação de espíritos dos antepassados (localmente, ou melhor, na região sul do país, apelidados por “gandzelo”).

No concernente aos aspectos políticos, o canhoeiro está associado a aspectos como a lealdade às tradições e o respeito aos símbolos comunitários. É neste contexto, que se estabelece a relação entre o canhoeiro e os aspectos políticos, pois, no seio das comunidades, esta árvore simboliza o poder do chefe tradicional.

O canhoeiro é das árvores que os líderes comunitários e seus súbditos se sentam à sua sombra, discutem e resolvem os vários problemas que afectam a comunidade.

Os frutos do canhoeiro em Moçambique caem somente de Janeiro a Março. Nas suas múltiplas utilidades figura também o processamento e fabrico de jam de fruta, doces variados, vinagre e xarope anti-tússico. Entretanto, as comunidades usam mais para o fabrico de sumo.

Refere-se igualmente, que na província da Zambézia, centro do país, os frutos do canhoeiro são colocados ao redor das machambas para afugentar algumas pragas, especialmente os ratos.

APLICAÇÃO MEDICINAL

O fruto, já maduro, pronto para ser esprimido e fermentado

No âmbito da medicina tradicional, as aplicações do canhoeiro se inserem no domínio do conhecimento tradicional ou local.

As comunidades usam a casca interna para o tratamento da malária, tosse, aftas, hemorróides, bem como no alívio às picadas de escorpiões e cobras. A raiz é usada como antidiarreico. As folhas são fervidas, produzindo-se um chá, usado no tratamento de má-digestão e na cura de dores de ouvido.

A casca do tronco é usada para variados fins medicinais.

TIMONGO

A semente do canhoeiro, localmente designado por “fula” é usada, após o processo do fabrico do sumo (ukanyi) para extrair a amêndoa (timongo) que as comunidades usam como tempero na confecção de diversos alimentos.

A amêndoa, melhor o timongo, é também iguaria, servida para acompanhar o consumo de bebidas alcoólicas ou ara servir a pessoas de importância especial, como o chefe da família, o filho ou o neto mais amado.

O consumo do timongo é um indicador social da posição hierárquica reservada à alguém e, em geral, de admiração ou respeito no quadro das relações de parentesco. Assim, o consumo do timongo permite evidenciar o status social do individuo, distinguindo-o dos demais.

CANÇÕES TÍPICAS: CANÇÃO I

He masseve kundjani

Swakala leswi unga ni mahela swona

Swakala

He masseve kundjani

Swakala leswi unga ni mahela swona

(Explicação do sentido em português)

Minha/meu comadre/compadre

É muito raro o que me proporcionaste)

Canção II

Hoyo hoyo Massevee …

Hoyo hoyo masseve

Axirwala xa ukanyi xikala ngopfu masseve

Hinga tsama hindau nita kurungulisa

(Explicação do sentido em português)

Bem-vindo compadre

Uma oferenda de ukanyi não se ganha todos os das

Por issso, seja bem-vindo compadre

Sente-se aqui deste lado para saber da vossa saúde)

UMA DAS CANÇÕES QUE SE REFEREM AO EFEITO AFRODISÍACO DO HONGWE

Bava Matavele

Hi nga hi lavela mathando loko litxona

Há hela hi hongwe

Hahelóoo!

Hahela hi hongwé loko litxona

Hahela hi hongwe

Gwelani Matavele a hilavela mathand loko litxona

Ha hela hi hongwe

(Tradução em português)

Senhor Matavela!

Pedimos para nos arranjar companheiros

Porque não suportamos tanta excitação por causa da escória do canhú.

Nanando: a música moçambicana perdeu mais um dos melhores executantes

Posted in Moçambique with tags , , , , on 4 de Fevereiro de 2010 by gm54

Excelente executante de afro-jazz, Nanando fez da marrabenta a sua bandeira artística, tendo integrado bandas como Hokolokwè e Franze BappaMorreu na noite de terça-feira (2), vítima de doença, o conceituado guitarrista moçambicano Nanando. Luís Henrique Wilson, de seu nome completo, perdeu a vida no Instituto do Coração, em Maputo, onde se encontrava internado desde quinta-feira, data em que deu entrada queixando-se de fortes dores de cabeça.

Entretanto, os restos mortais de Nanando vão hoje (4) a enterrar, observando-se antes uma missa de corpo presente às 11.30 horas na sede da Associação dos Músicos Moçambicanos e o funeral será as 14.00 horas, no Cemitério da Lhanguene.

Os médicos diagnosticaram-lhe uma doença grave, entretanto não revelada. Sabe-se, porém, que na noite de terça-feira Nanando teve uma paragem cardíaca e que os médicos ainda tentaram reanimá-lo, mas debalde, acabando por sucumbir à doença.

Duas semanas antes de dar entrada no hospital o guitarrista perdera uma das suas filhas, de nome Luisinha, mas os médicos avançam que a morte da filha pouco ou nada tem a ver com a deterioração do seu estado saúde que acabaria lhe retirando a vida.

Excelente executante de afro-jazz, Nanando fez da marrabenta a sua bandeira artística, tendo integrado bandas como Hokolokwè e Franze Bappa.

Chegou a fazer parte do agrupamento Ghorwane, para além de ter trabalhado muitos anos na África do Sul e na Suazilândia. Depois da desintegração de Hokolokwè, Nanando fundou, com outros elementos, a banda Ngalanga. Mais recentemente Nanando trabalhava num projecto musical que leva o seu nome: Nanando Project. Realizou igualmente vários concertos musicais, sendo que num dos quais contou com a participação do agrupamento Majescoral.

Nascido no Bairro de Chamanculo a 1 de Abril de 1960, onde aprendeu a dar os seus primeiros toques na guitarra, muito inspirado por Jaimito Mahlatine, Nanando é considerado professor de guitarra de Jimmy Dludlu, em virtude de ter sido ele que lhe iniciou nesta área. Faz parte de uma geração de artistas de ouro do nosso país, tendo sido uma das faces mais visíveis dos concertos que os músicos moçambicanos realizam nas casas de pasto, onde a música de fusão é o prato mais forte.

Nanando conseguiu igualmente fazer a fusão do estilo tradicional ximandje-mandje com o jazz e a marrabenta.

Beyoncé faz história no Grammy e leva seis prêmios

Posted in Word Music with tags on 1 de Fevereiro de 2010 by gm54

Cantora pop americana tornou-se a maior vencedora da estatueta numa única edição

Beyoncé marcou um novo recorde na premiação do Grammy na noite do domingo, 31. A cantora americana ganhou seis estatuetas numa única noite, inclusive a de melhor canção do ano com a música “Single Ladies”, e com este feito é a mulher que mais foi premiada numa única edição. Mas o principal prêmio da noite, o de melhor álbum, foi para Taylor Swift pelo trabalho ‘Fearless’.

Aos 28 anos, Beyoncé chegou como favorita com dez indicações e viveu a sua grande noite na premiação da 52.ª edição do Grammy, considerado o Oscar da música americana. Venceu, além de melhor canção, como melhor performance de cantora feminina de R&B, com “Single Ladies (Put a Ring On It)”, melhor performance cantora tradicional de R&B, com “At Last”, melhor música de R&B, também por “Single Ladies (Put a Ring On It)”, e melhor álbum de R&B contemporâneo, por “I Am… Sasha Fierse”.

A rainha da festa apresentou o seu número musical logo no início da cerimônia, pouco depois da abertura feita dos performáticos Elton John de óculos prateados e Lady Gaga, ambos com os rostos sujos de tinta, cantaram e tocaram juntos com um piano de frente para o outro um dos maiores hits do cantor e compositor, Your Song. Os pontos altos dos shows foram de Beyoncé e de The Black Eyed Peas, com sua “I Gotta a Feeling’, em noite repleta de apresentações.

“Muito obrigado. Esta foi uma noite incrível para mim”, declarou a cantora, que aproveitou para agradecer a todos os fãs pelo apoio que ela recebeu durante o último ano.

Taylor Swift com seus 3 troféus e Lady Gaga, com 2.

A jovem de 20 anos, Taylor Swift, que vem se destacando no cenário country, surpreendeu a plateia ao levar o prêmio de Melhor Álbum, desbancando as divas Beyoncé e Lady Gaga e disputando ainda com pesos pesados The Black Eyed Peas e Dave Matthews band. A cantora levou também os troféus de melhor interpretação vocal feminina e melhor canção com “White Horse”, todos na modalidade de música country.

Nos seus discursos de agradecimento Taylor lembrou que no colégio as amigas diziam que ainda a veriam no Grammy e nesta noite ela realizava o que considerava “seu sonho impossível”. Dedicou ainda o prêmio ao pai “por sempre ter dito que eu poderia fazer tudo o que quisesse. Essa história eu contarei para os meus netos. Muito obrigada”, disse Taylor Swift ao receber o prêmio.

Já Lady Gaga, que vem sendo chamada de a nova Madonna, e conquistado legião de fãs levou apenas os prêmios de Melhor Gravação de Dance por “Poker Face’ e Melhor Álbum de Dance/Eletrônica, com ‘The Fame’.

Taylor, Beyoncé, Lady Gaga… o Grammy deste ano foi mesmo das mulheres.

Jennifer Hudson, Celine Dion, Smokey Robinson, Usher e Carrie Underwood cantam em tributo a  Michael Jackson no 52.º Grammy. Foto Mike Blake/Reuters

Durante a premiação, um dos momentos mais emotivos da cerimônia foi o tributo especial a Michael Jackson, com imagens em 3D de parte da turnê que o cantor faria antes de morrer em junho do ano passado. Aplaudidos pela platéia em pé, os seus filhos mais velhos, Prince e París, receberam um troféu em homenagem à trajectória do cantor.

Prince disse que eles tinham orgulho de estar ali a representar o seu pai, Michael Jackson. Emocionou-se ao agradecer a Deus por cuidar deles e aos avós pelo apoio nos últimos sete meses. “Também gostaríamos de agradecer aos fãs, a quem nosso o pai amava demais. O nosso pai sempre se preocupou com o planeta e a humanidade e ajudava os outros. Em todas as suas músicas a mensagem era simples: amor. Continuaremos a divulgar a sua mensagem e a ajudar as pessoas”, concluiu Prince. “Era para o meu pai estar aqui hoje, ele ia se apresentar este ano”. Ambos se despediram com um “obrigado, amamos-te pai”.

Confira a lista dos principais vencedores

* Álbum do Ano
’Fearless’ – Taylor Swift

* Música do Ano
’Single Ladies (Put A Ring On It)’ – Beyoncé

* Gravação do Ano
’Use Somebody’ – Kings Of Leon

* Revelação
Zac Brown Band

Categorias Pop

* Melhor Cantora (performances solos)
Beyoncé – “Halo”

* Melhor Cantor (performances solos)
Jason Mraz – “Make It Mine”

* Melhor Performance em dueto ou grupo
The Black Eyed Peas – “I Gotta Feeling”

* Melhor Colaboração Pop com vocais
Jason Mraz e Colbie Caillat – “Lucky”

* Melhor Performance Pop Instrumental
Béla Felck – “Throw Down Your Heart”

* Melhor Álbum Pop Instrumental
”Potato Hole” – Booker T. Jones

* Melhor Álbum Pop Vocal
”The E.N.D.” – The Black Eyed Peas

Categoria Rock

* Melhor Performance Solo
Bruce Springsteen – “Working On A Dream”

* Melhor Performance em dueto ou grupo
Kings of Leon – “Use Somebody”

* Melhor Hard Rock Performance
AC/DC – “War Machine”

* Melhor Performance Metal
Judas Priest – “Dissident Aggressor”

* Melhor Música Rock
”Use Somebody” – Kings Of Leon

* Melhor Álbum Rock
”21st Century Breakdown” – Green Day

Fio da Memória: a Rádio Moçambique vai lembrar Leite de Vasconcelos, um dos fundadodores deste programa há 20 anos

Posted in Radiodifusão with tags , on 23 de Janeiro de 2010 by gm54

Leite de Vasconcelos e António Fonseca (fundadores) e João de Sousa, actual realizador do "Fio da Memória"

Leite de Vasconcelos deixou-nos há 33 anos. Foi a 29 de Janeiro de 1997. Um telefonema vindo dum hospital de Joanesburgo transportava a triste notícia do seu desaparecimento fisico, daquele que foi o primeiro responsável pela realização do programa “Fio da Memória” de parceria com Carlos Silva, na altura em que António Alves da Fonseca era Director Comercial desta Rádio.

Um programa da RM que completou os seus 20 anos de existência em Outubro de 2009.

O “Fio da Memória”, na sua edição do dia 24, domingo, não podia deixar de lembrar esse facto naquilo que é, no dizer de um dos seus realizadores, a “nossa singela homenagem ao homem e ao profissional. Homem de rádio e televisão. Jornalista e poeta”.

Serão transmitidos extractos da última entrevista que ele concedeu, e onde Leite de Vasconcelos, entre outras coisas, refere-se às suas vivências musicais. Às canções que tocou na Rádio, mas especialmente às canções que o regime da época não deixou que ele tocasse. Nessa entrevista, a ser reposto este domingo (24), ele recorda-nos que a sua paixão pela rádio, começou muito fora dos Estúdios.

O “Fio da Memória” é produzido por João de Sousa e Carlos Silva. É transmitido aos domingos na Antena Nacional a partir das 09.05 horas e pode ser escutado na Internet em www.rm.co.mz

Jaimito: Um louco ou o homem que devia ter nascido amanhã?

Posted in Comportamento, Moçambique, Radiodifusão with tags , , , , on 16 de Janeiro de 2010 by gm54

Jaimito, sentadoe lendo à entrada do Centro Social da Rádio Moçambique em Maputo

Num dos muros da vedação do jardim botânico Tunduru, mesmo defronte do edifício-sede da Rádio Moçambique, em Maputo, estão expostos em papel normal ou cartolina, algumas reflexões, em texto, de um homem que chama a atenção de todo o transeunte da zona, mais precisamente da Rua da Rádio.

Estes escritos são de autoria de Jaime Machatine, mais conhecido por Jaimito, seu nome artístico.

Não estão registados em algum caderno ou simples bloco de notas e muito menos em livro, mas estão disponíveis para quem os quiser consultar, interessado em conhecer e compreender o que aquele homem, que um dia foi considerado um dos melhores guitarristas moçambicanos no seu tempo, pensa de si e da sua vida e dos que o rodeiam.

“Os escritos do Jaimito”, assim me atrevo a chamá-los, podem ser entendidos como sendo fragmentos do pensamento do seu autor sobre os mais díspares assuntos, que vão da música ao cinema, passando pela literatura e religião, que é o que ele mais gosta de dissertar nas suas notas e em conversa com aqueles que o conhecem.

Um outro assunto sobre o qual ele escreve tem a ver com a sua longa e misteriosa permanência fora de Moçambique e sobre a qual os pormenores são escassos e dispersos e deles o Jaimito jamais se refere.

São também escassas referências a pessoas ou instituições com quem se relacionou no período em que permaneceu fora do seu pais, embora, numa conversa corriqueira das muitas que tenho mantido com ele quando juntos tomamos uma “Bica” de café, se tenha referido “a minha mulher”  a propósito de uma das obras musicais de Joni Mitchel, cantora canadiana, versátil, que disse apreciar particularmente. Disse-me que tanto ele como aquela a sua companheira – de nacionalidade americana – partilhavam a mesma opinião sobre Mitchel, recordando até “compramos um LP” com uma foto da cantora sentada numa pedra nas margens de um lago ou riacho envolto numa paisagem tipicamente da América do Norte.

Na imagem pode-se ler as bandas do agrado do Jaimito

Num dia particularmente diferente dos demais Jaimito “soltou” um pouco a língua, talvez porque acabara de lhe oferecer uma cassete contendo a gravação do álbum “Thick As A Break” dos Jethro Tull, que me pedira havia muito tempo. Interessante como ficou agitadissímo quando comprovou no seu mal-tratado gravador o teor da gravação, que disse ter reconhecido logo de imediato ao ouvir os acordes da guitarra acústica iniciais da obra. Educadamente confidenciou-me que da banda liderada por Ian Anderson tinha particularmente preferência pela obra “ Benefit”, lançada dois anos (1970) antes dos Jethro Tull terem gravado o épico poema do pequeno Gerald Little Milton) Bostock.

Apenas para se aferir dos conhecimentos que Jaimito tem da música, é interessante a sua surpresa quando lhe informei que uma das últimas obras discográficas de Joni Mitchel que me chegaram as mãos tinha a ver com uma parceria entre a cantora e Charles Mingus, que este nunca viria a conhecer porque morrera uns dias antes da sua edição. Jaimito ficou extremamente interessado nos pormenores daquela que lhe parecera uma “estranha” mas ao mesmo tempo agradável colaboração entre uma assumida cantora folk e um jazzman esquizofrénico como o era Mingus. Fez-me prometer-lhe uma cassete com o registo da obra, tal era o seu interesse em ouvir que sonoridades Joni Mitchel e Charles Mingus poderiam produzir e oferecer que pudessem agradar aos seus fãs divididos quanto aos géneros.

Pois então, contou que viveu 16 anos nos Estados Unidos, após dois ou três anos de permanência em Portugal.

Em Lisboa e no Algarve, o guitarrista terá tocado em clubes nocturnos, com moçambicanos, angolanos e cabo-verdianos, nomeando Bana como tendo sido um deles. Não se recorda de alguma vez ter trabalhado com o Fu, um reputado baterista moçambicano radicado há vários anos em Portugal, muito conhecido nos meios musicais no Algarve.

Disse que com um certo Mitó Dickson (com quem se conhecera ainda em Moçambique) fez algumas gravações de músicas de autores moçambicanos, entre os quais de Wazimbo. Desconhece o paradeiro desses registos mas diz ter uma vaga ideia de que terão sido editados em disco pelo Mitó Dickson.

Em Portugal terá conhecido a “minha mulher”, americana, que entretanto engravidara. A filha de ambos, gerada naquele pais europeu, viria a nascer em 1982 nos Estados Unidos, por vontade expressa da mãe. Zara Jaime Machatine assim se chama a filha de Jaimito, tendo hoje 28 anos de idade.

O que fazia e de que vivia Jaimito nos Estados Unidos tal continua envolto num mistério, sendo certo porém que foi naquele país onde todos os seus problemas actuais tiveram origem.

Sabe-se apenas que dez dos dezasseis anos nos EUA foram vividos em cadeias e estabelecimentos psiquiátricos a mando dos tribunais, onde, como ele próprio me confidenciou, passou por experiências terríveis e conheceu gente da “pior espécie”.

É de supor que Jaimito, guitarrista dotado acima do normal para os padrões de Moçambique e Portugal, não tenha singrado em terras americanas onde o mercado musical é certamente mais exigente e bastante concorrido.

Sem trabalho e sem meios para uma vida desafogada e independente, terá então ficado na dependência da mulher, situação que, acredito, se lhe tornou insuportável e geradora de conflitos com a parceira, a quem, diz-se, terá violentado por diversas ocasiões.

O seu caso – e continuo nas meras suposições – terá sido comunicado as autoridades judiciais que não se fizeram de rogado perante um “estranja”.

A mais recente informação dá conta que, depois de várias anos de encarceramento em penitenciárias, a sua nacionalidade e a língua portuguesa, terão criado um natural interesse e simpatia de um psiquiatra americano de origem cubana. Tornaram-se amigos de longas e proveitosas conversas, o suficiente para o especialista caribenho lhe propor duas alternativas para solucionar o embróglio em que Jaimito se encontrava amarrado: ir viver para Cuba ou … regressar ao seu país.

O nosso guitarrista não hesitou: acompanhado por dois “gorilas” do FBI, voou dos EUA, com escala em Johanesburgo, até Maputo, onde foi entregue às autoridades moçambicanas.

De um dia para outro, ei-lo que encontra na Rádio Moçambique a sua casa e galeria de exposição dos seus textos “filosóficos”.

Os escritos estão sobre papel A4 normal mas, na falta deste, o autor fa-los em pedaços de cartões de embalagem de produtos alimentares ou bebidas, material fornecido por amigos e conhecidos, ou que ele próprio recolhe na rua ou nos cestos de lixo.

O lugar onde ele escreve as suas notas não podia ser mais inspirador para o Jaimito: num local público bastante concorrido por homens e mulheres das mais diversas profissões, a maior parte deles ligados a música e destes, alguns antigos membros de bandas que ele integrou antes de “dar o fora” de Moçambique.

Eis a galeria onde estão expostos os materiais do Jaimito: muro do Jardim Tunduru em Maputo

É no Centro Social da Rádio Moçambique onde preenche os seus dias, toma as refeições que lhe são oferecidas e dorme ou passa a noite numa das entradas daquela rádio pública. Todos os que por ali passam já se habituaram a vê-lo acocorado ou sentado a escrever as suas notas, compenetrado no que faz, aparentemente alheado do rebuliço da estrada.

O local tem todas as condições para que o Jamito se inspire para o que vai escrevendo, pois para além de se encontrar e conversar com os que foram seus amigos de outrora, testemunha como ninguém os mais diversos comportamentos dos frequentadores do estabelecimento.

De madrugada, contam os homens que velam pela segurança do centro, Jaimito entrega-se normalmente a tarefa de “publicar” os seus pensamentos, pregando-os numa frondosa árvore plantada no jardim dos serviços administrativos da Rádio Moçambique, qual um jornal de parede. Por estes dias, a “exposição” pode ser vista num dos muros do jardim botânico Tunduru, defronte da RM.

Após pregar o material, o nosso “escritor de rua”, faz o que todos fazemos – ou devíamos fazer: dirige-se as casas de banho do centro, onde cuida da sua hegiene pessoal. Senta-se depois num pequeno muro situado na rampa que dá acesso ao bar do centro, folheando velhos e rasgados livros, ou então escutando música de um pequeno gravador de cassete com auscultadores minúsculos ofertados certamente por uma alma compreensiva.

Registei em imagem fotográfica alguns dos seus escritos com a sua devida autorização. Antes faço notar que quando lhe pedi para lhe fazer um retrato ou uma fotografia em conjunto recebi dele um redondo “não”, justificando a recusa com o intrigante argumento de “eu não quero mais problemas com ninguém”. Anui e dei-me por satisfeito, não sem deixar de me perguntar a que problemas se referia e com quem.

Morre o fotógrafo que imortalizou as estrelas de Hollywood

Posted in Fotografia with tags , on 16 de Janeiro de 2010 by gm54

Dennis Stock morreu aos 81 anos

O fotógrafo Dennis Stock morreu em 11 de janeiro aos 81 anos em sua casa em Sarasota, na Flórida, segundo informou o Washington Post. A notícia foi divulgada pela Magnum, mítica agência em que ele desenvolveu grande parte de sua carreira profissional, conforme o jornal espanhol El País.

Stock, nascido no Bronx, em Nova York, é autor de fotos que imortalizaram estrelas de Hollywood como James Dean, o universo musical do jazz e a contracultura dos anos 60, lembra o El País. São suas as fotos de Louis Armstrong com roupa de baixo em seu camarim, a de Marlon Brando relaxado e vestido de Napoleão nos bastidores das filmagens. A de Audrey Hepburn ensimesmada em seus pensamentos enquanto olha para fora de um carro, a de James Dean caminhando pela Times Square em Nova York em 1955.

É dele a famosa foto de James Dean caminhando pela Times Square em Nova York em 1955

Após um trabalho inicial na Life Magazine, começou a trabalhar na Magnum em 1951, onde ficou por 50 anos. Publicou 27 livros e fez exposições nas mais prestigiadas galerias do mundo, como o Centro Internacional de Fotografia de NY, a National Gallery de Washington e o Museu de Arte Moderna de Paris.

Brasileiro que fotografou independência de Moçambique expõe em Tóquio

Posted in Africa, Fotografia with tags , , , , on 24 de Outubro de 2009 by gm54

SEBASTIAO SALGADO/ENTREVISTA

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado apresentou nesta sexta-feira (23) no Japão a sua mostra “África”, um trabalho de mais de 30 anos no continente.  Com as suas fotografias, ele diz querer “contar histórias” que necessitam do compromisso da imprensa e das ONG para poderem ser mudadas.

A exposição “África” começa este sábado e vai até o dia 13 de dezembro, no Museu Metropolitano de Fotografia de Tóquio. Salgado, de 65 anos, viajou por todo o mundo fotografando pessoas e lugares com as suas  imagens em preto e branco e que já lhe renderam diversos prêmios internacionais, consideradas por ele “mais intensas” que as composições em cor.

Na sua opinião, os protagonistas de suas fotos “podem ser pessoas empobrecidas, mas não deprimidas, nem miseráveis”. Nas suas viagens por África, Salgado teve a oportunidade de retratar o processo de independência de Angola e Moçambique e tragédias humanitárias como a crise de fome na África Central ou os deslocamentos de comunidades no Ruanda.

O fotógrafo brasileiro disse que o fotojornalista actual precisa “emoldurar o seu trabalho na realidade. Para isso, é necessário ter conhecimentos amplos em economia, sociologia e geopolítica”, e não somente um domínio técnico.

O fotógrafo disse ainda que o jornalismo tem que ser honesto, ter controle e não fomentar estereótipos, diferente do que acontece actualmente.

Na opinião de Salgado, os protagonistas das suas fotos "podem ser pessoas empobrecidas, mas não deprimidas, nem miseráveis".

Na opinião de Salgado, os protagonistas das suas fotos "podem ser pessoas empobrecidas, mas não deprimidas, nem miseráveis".

Para Salgado, continentes como a África ou a América Latina estão a viver uma época de desenvolvimento e crescimento, como é o caso de Botswana e África do Sul ou Argentina e Brasil.

“A África não é um continente subdesenvolvido, tem o desenvolvimento que tem. Está a procura da sua identidade. Os pobres não necessitam de piedade ou de caridade, mas compressão e assistência”, ressaltou Salgado.

O fotógrafo disse ainda que com a chegada dos Jogos Olímpicos ao Rio de Janeiro em 2016 “será feita justiça”, pois é necessário que o hemisfério sul e a América Latina organizem aquele acontecimento mundial.

Mostra em Londres retrata explosão musical dos anos 1960

Posted in Comportamento, Pop Rock, Word Music with tags , , , , on 24 de Outubro de 2009 by gm54
Os primeiros anos mostrados na exposição focam sobretudo os Beatles, Rolling Stones e grupos britânicos menos conhecidos fora do país, como Cilla Black (na foto) e Cliff Richards

Os primeiros anos mostrados na exposição focam sobretudo os Beatles, Rolling Stones e grupos britânicos menos conhecidos fora do país, como Cilla Black (na foto) e Cliff Richards

Uma exposição na National Portrait Gallery de Londres capta a década de 1960 na Grã-Bretanha através de fotos de grupos musicais, desde a apresentação dos Beatles na casa nocturna Cavern até a explosão psicodélica nos anos 1970.

A mostra de 150 fotos, capas de álbuns e de revistas, partituras e outros itens celebra a ascensão do pop britânico e de gigantes do rock como os Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e Pink Floyd, ao lado de nomes norte-americanos da mesma época como Jimi Hendrix e Bob Dylan.

Os retratos clicados por fotógrafos aclamados como David Bailey, Cecil Beaton, Don McCullin e uma multidão de outros estão organizados em décadas, passando da inocência da juventude no início da década de 1960 para a psicodelia decadente, movida a drogas e a libertação sexual que caracterizaram o “verão do amor” de 1968 e os anos seguintes.

Os primeiros anos mostrados na exposição focam sobretudo os Beatles, Rolling Stones e grupos britânicos menos conhecidos fora do país, como Cilla Black e Cliff Richards, mas Rod Stewart aparece ao lado de Long John Baldry num retrato de grupo chamado Steampacket feito em 1964.

“Quisemos reflectir os maiores astros de cada ano”, disse à Reuters na sexta-feira o curador da exposição, Terence Pepper.

Mas Pepper disse que a mostra também revela a rapidez com que os Beatles, Rolling Stones, David Bowie, Pink Floyd e Led Zeppelin transformaram a paisagem musical e conquistaram o mundo.

“Era tudo completamente novo, estava tudo a acontecer na época. A música pop nem sequer tinha chegado às rádios”.

Alto-falantes tocam sucessos da década para intensificar o ambiente da exposição, que também inclui itens de moda originais dos anos 1960, de Biba e Mary Quant.

A mostra ressalta a rivalidade entre os Beatles e os Rolling Stones em imagens feitas por vários fotógrafos de primeira linha, que os ajudaram a criar e confirmar as suas imagens em transformação.

Pepper disse que o título da exposição ilustra como a década dominada pelos Beatles no seu início acabou por dar lugar a astros como David Bowie, que ganhou força no final dos anos 1960 e ainda mais nos anos 1970.

Outras secções são dedicadas à mini-invasão de astros norte-americanos, entre eles os Walker Brothers e, mais tarde, Jimi Hendrix, que se mudaram para a Inglaterra para lançar as suas carreiras.

Pastor anglicano está farto de escutar Tina Turner nos funerais

Posted in Comportamento, Religião, Word Music with tags , , on 24 de Outubro de 2009 by gm54

M⁄SICA/TINA TURNER

Um pastor anglicano declarou no seu blog que está farto de realizar funerais ao som de canções de Tina Turner e outros ídolos da música pop.

Ed Tomlinson, de 35 anos, queixa-se que “as mensagens doces das estrelas do pop tenham substituído os hinos e as orações do passado”, informou o jornal The Daily Telegraph.

Segundo o sacerdote, embora os partidários de uma sociedade laica acreditem ter conseguido uma vitória sobre a Igreja, os infiéis “vão acabar na fogueira sem esperança alguma de ressurreição”.

“Pensei em assistir a uma cremação como um limão e perguntar-me que fazia eu num funeral durante o qual os alto-falantes vomitavam melodias de Tina Turner ou outras sentimentais de algum poeta humanista”, comentou no seu blog.

Segundo o sacerdote, o aumento do número de funerais laicos é um sinal da actual marginalização da Igreja.

“É preocupante o facto de que o cuidado pastoral fique nas mãos de pessoas cujo único objectivo é fazer dinheiro”, afirma.

Mundinho: um falcão entre a luz e a penunbra

Posted in Uncategorized with tags , , , on 19 de Outubro de 2009 by gm54

mundinho

Mundinho será daqueles músicos que nunca tocará nada sem ter a certeza daquilo que vai fazer. É um homem com o qual se deve ter cuidado na conversa, porque, como nas claves, que sustentam toda a sua vida, exigirá que as palavras sejam talhadas com responsabilidade. Está agora a caminho dos 70 – completa- os no dia 1 de Fevereiro de 2010 – e vive entre a luz e a penumbra, ou seja, é conhecido por muitos, mas muitos mais ainda o desconhecem. Por causa de mal-entendidos de algumas pessoas intelectualmente despreparadas, em certas ocasiões fi ca com medo de exprimir a sua opinião honesta. “Por vezes aparece alguém a perguntar-me se o fulano ou sicrano toca bem ou não determinado instrumento e eu respondo: sim, toca bem, mesmo sabendo que isso não é verdade.

O problema é que as pessoas não querem ouvir as verdades e eu também já não tenho idade para aguentar as farpas que virão depois disso”. Toca jazz standard, sem que isso lhe impeça de passar por outros estilos, como por exemplo a bossa nova, que ele nunca desgostou. “A bossa nova tem uma harmonia fantástica, como tem harmonia toda a música que é feita pelos brasileiros”, e Mundinho deixase cair facilmente nessa tentação. Mas será no jazz onde vamos encontrar a forte marca deste homem que vive hoje tranquilamente no bairro do Aeroporto, na cidade de Maputo.

Fomos à sua casa num dia desses, tendo como mote uma série de manifestações que estão sendo organizadas por um dos seus fi lhos: Adeodato, com vista a assinalar os 70 anos de vida de um homem que passou a vida inteira a cantar o tempo com instrumentos musicais. Um verdadeiro falcão que se revolta quando, no palco, no seu desempenho, é interrompido por indivíduos que não têm nenhuma cultura de jazz. “Como é que você vai fazer barulho, falando mais alto que os instrumentos, numa sessão de jazz? O jazz não é para qualquer pessoa. Fiquei desapontado no “Gil Vicente” quando, ao tocarmos, vezes sem conta apareciam ali pessoas embriagadas a manifestarem-se de forma negativa. Acho que se devem equilibrar os comportamentos para cada lugar”.

No semblante deste homem nota-se facilmente o sentido de vida. Parece um tigre que perscruta. Ou seja, recebeu-me com desconfiança na sua casa e eu percebi isso. Porém, passado pouco tempo de conversa, sentiuse impelido a abrir-se. Levou-me ao seu arsenal, onde, para além do piano vertical que me mostrou, deixoume contemplar mais cinco pianos eléctricos, um violão, uma bateria, uma guitarra e dois instrumentos de sopro. “Quando acordo fico sem saber que instrumento tocar para preencher os meus sentimentos. Se eu não toco não vivo”. E Mundinho toca aqueles instrumentos todos. O cachimbo é um adereço que faz parte do status deste artista. Fica mais tempo nas mãos do que propriamente nos lábios.

“Mas eu venho fumando desde os meus 20/22 anos, intercalando com cigarrilhas e charutos”. E isso é espantoso porque quando olhamos para o rosto do jazz-man, ele não está degradado. “Nunca tive problemas de saúde por causa do tabaco”

70 ANOS

pianistaSobre os eventos que Adeodato está a organizar em homenagem ao seu pai, Mundinho diz sentir-se bastante honrado. “Estou naturalmente feliz por esta iniciativa do meu fi lho. É uma forma de mostrar às pessoas que eu existo e fazer com que os que não me conhecem saibam quem é Mundinho”. Este músico apresenta-se em público pela primeira vez em 1956, com apenas 16 anos, no “Aquário” (uma casa de pasto famosa na altura, na então cidade de Lourenço Marques).

E daí para a frente foi uma espécie de turbilhão, que nunca mais parou de perfurar. Misturou-se, no seu percurso, com grandes nomes desse tempo, os quais se confundem até hoje, com o seu sucesso. Estamos a falar, por exemplo, de João Franco Dantier, Luís Franco Dantier, Fernando Chichorro, Mário Confaque, Alex Govers, Joel Libombo e o grande Daíco, um guitarrista alucinante que recebeu, pela Associação Africana, a primeira guitarra eléctrica em Moçambique. Mas estes são apenas alguns nomes de uma enxurrada deles, daquele tempo de mitos, porque hoje podemos encontrar Mundinho entre a nata dos melhores jazistas deste tempo. Apesar de Mundinho ser um pianista por excelência, e bom executante de outros instrumentos, poucas vezes – para um músico do seu gabarito – aparece em casas de especialidade.

“Já não tenho idade para tocar por meia dúzias de amendoins. Não vou porque não querem pagar. Os músicos devem ser bem pagos e aqui no nosso país, infelizmente, não está a acontecer isso”. Ainda na senda dos pagamentos, Mundinho recorda- nos que é afi nador de pianos. “Uma vez chamaram- me para o Hotel Polana e perguntaram-me quanto é que queria que me pagassem para afi nar um piano que estava parado há bastante tempo. Pedi 500 dólares e eles dispensaram os meus serviços. Foram contratar um sul-africano que, de certeza absoluta, pediu muito mais do que eu.

O resto você pode perceber o que é que signifi ca”. O músico sente-se – apesar de estar realizado de uma forma geral – desapontado com algumas situações do seu país, onde se nota facilmente que o músico não é devidamente valorizado. Mundinho tem um disco gravado – ainda sem título – com os músicos Filipinho e Edgar Wilson. “Esta obra ainda tem de ser aperfeiçoada. Vai sair no seu devido tempo”. E enquanto o disco não sai, Mundinho está a caminho dos 70 e, quando olha para trás, deixou um caminho feito de trabalho e música bem feita.

Capitão Mário Wilson já tem 80 anos

Posted in Uncategorized with tags , , , , on 19 de Outubro de 2009 by gm54

Por Carlos Rias (jornal “A Bola”, 18/outubro/2009)

Mario Wilson

É um nome incontornável na história do futebol português. Confessa, ainda hoje, que tem dois amores- o Benfica e a Académica. Mas tudo começou em Moçambique, há 80 anos. Mário Wilson está de parabéns e celebra o aniversário com uma entrevista a A BOLA.

– Lembra-se de Moçambique, das primeiras brincadeiras?– Perfeitamente. Tanto na rua, como nos recreios, manifestava a minha enorme paixão pelo futebol, identificava-me com ele. Quer calçado ou descalço, queria era jogar.
– E o cheiro da terra de África?
– Tenho-o comigo, imortalizei-o na minha memória. E a memória tem-me sido benéfica para coisas que são prioritárias.
– Chegou a constituir uma equipa com os amigos, os «Fura-redes»…
– Isso foi no Alto Maé. Era uma zona de transição, aí já funcionava a sociedade moçambicana. Tive a sorte de ser neto de Henry Wilson…
– Que era americano. E teve uma avó que era rainha…
– Chamávamos-lhe a rainha de Tembe, mas não era bem rainha, era uma princesa, porque era filha de um dos primeiros régulos, que vivia na Catembe. Foi aí que o meu avô, no seu percurso comercial, chegou e a viu. Os régulos tinham filhas que nunca mais acabavam! O meu avô fez uma opção: casar.
– E Henry Wilson…
– Era espectacular. Pegou na minha avó em Tembe e transportou-a para Lourenço Marques. É como ir buscá-la a Almada e trazê-la para Lisboa. Dela teve seis filhos. E educou-os na África do Sul. Isso fez com que aparecesse uma mentalidade diferente em toda a família Wilson. O meu pai também era um dos que ia para lá estudar.
– O seu avô era branco?
– Branquinho! No meu ginásio, o «Mister Wilson», está a minha fotografia, mas para mim é o meu avô que lá está. Há qualquer coisa muito profunda, com raízes espectaculares. Disso não me livro.
– Que fazia o seu pai?
– Quando regressou da Africa do Sul beneficiou da situação privilegiada que o pai tinha. E instalou-se nas oficinas de electricidade e outras que este já possuía. A minha ida para Coimbra tem muito a ver com esta filosofia familiar, com o sentimento de que era preciso estudar, ter cultura, ser independente.
– Jogou numa filial do Benfica, o Desportivo de Lourenço Marques…
– É daí que aparece a minha tendência benfiquista, mais ainda quando começo a ler uma revista, a Stadium. Nessa revista aparecem fulanos africanos, o Paquete, campeão de 100 metros, o Matos Fernandes, campeão barreirista, o Espírito Santo, que era do salto em altura e da velocidade…Todos eles fizeram aparecer em mim esse primeiro amor.
– Mas vem para o Sporting!
– Eu e o Juca éramos da selecção e gozávamos de ser elementos de eleição. Já aí começa a aparecer o Costa Pereira, no Ferroviário. E há um fulano do Sporting, que tinha a papelaria Progresso, que disse: «Estes dois vão para o meu Sporting». E trouxe-nos. Em Lisboa treinava três vezes por semana e ia estudar ali para os lados dos Olivais. Morava na Praça do Chile. O meu pai, pela formação que tinha, sabia que o futebol era coisa passageira.
– Quantos irmãos tem?
– Comigo somos seis.
– Todos formados?
– Os mais novos é que vieram para Portugal formar-se. Eu, um que é psiquiatra e outro que é radiologista, viajámos para cá e é por causa dos estudos que deixo o Sporting, quando tinha acabado de ser campeão nacional. E vou para a Académica. Em Coimbra instalo-me na «república» onde estava o Almeida Santos, já com o meu irmão lá.
– Em Moçambique era conhecido por Corina!
– Corina! Isso aparece de uma forma curiosa. Quando nasço, entra em voga em Moçambique uma música portuguesa. Ainda hoje a canto: «Corina, Mário morreu»E como tive o nome de Mário, a minha madrinha chamava-me de Corina.
– Ainda o conhecem por Corina?
– Quando dizem Corina sei que estou a falar com um moçambicano. Da velha guarda, pois claro!

Campeão no Sporting

– Não veio contrafeito para o Sporting, rival do seu Benfica?
– Não, porque a minha base era os novos horizontes que Portugal me abria. Mais, vinha para substituir o Peyroteo, um dos cinco violinos. A clubite doentia nunca foi muito apanágio meu. Continuo a ter os meus dois amores (Benfica e Académica), mas libertei-me cedo da forma doentia de sentir e dizer «sou deste e não posso ver os outros».
– A viagem para Portugal levou um mês, não foi?
– Viemos no Mouzinho de Albuquerque, eu e o Juca. O Juca era um bonitão, de uma elegância fantástica, ainda por cima de raça branca. Era um dos engatatões nessa viagem. Nos bailaricos lá estava o Juca. Nós, os africanos de côr, ainda que eu tivesse uma estatura agradável, éramos segregados, punham-nos de parte de forma violenta.
– Chega a Alvalade com 19 anos, para substituir um ídolo, também moçambicano.
– E fui o melhor marcador do Sporting logo no primeiro ano e o segundo melhor do campeonato (o Julinho, do Benfica, ficou em primeiro) e campeão nacional na segunda época. Mas quando apareci, creio que nem fiz os jogos todos, não entrei logo de caras.
– Como é que passou a defesa-central?
O Sporting vai jogar uma Taça Latina e lesiona-se o Passos. Não tinham outro defesa-central, eu até era polivalente e disseram-me: «É menino para fazer o lugar do Passos?» Claro, disse que sim. E aceitei, porque antes, na despedida do Peyroteu, num jogo particular, puseram-me a defesa-central e eu abri o livro. Foi no Sporting que comecei nesse lugar. Quando vou para a Académica já vou com a sensibilidade do lugar. Não estranhei ocupar essa posição.

Na académica com ajuda do ministro

– É verdade que a sua transferência para Coimbra meteu a cunha do ministro da Educação?
– É verdade, em absoluto. Havia a famosa Lei de Opção, mas porque eu era estudante, o ministério abriu um precedente que me beneficiou. Depois apareceram outros jogadores, como o Peres, que se transferiram da mesma forma.
– Em Coimbra começa a viver num ambiente subversivo, contra o regime fascista…
– Antes vivi com o Agostinho Neto, em Lisboa. Tinhamos uma intimidade profunda. Nós, os africanos, não nos libertávamos do espírito de independência. Nessa altura reunia com Agostinho Neto, Mário Miranda, Marcelino dos Santos (que fez atletismo comigo) e outros ligados à Guiné e a Cabo-Verde. Juntávamo-nos na Praça do Chile à 2ª feira, era infalível, e íamos numa romaria até aos Restauradores. Em Coimbra junto-me a Chipenda e ao Araújo. Eles acabam por fazer a sua luta, mas entra em acção a PIDE e são presos. Depois são libertados, um pouco por minha influência. Os da PIDE chamaram-me, porque era o capitão da Académica e disseram-me: «Estes tipos queriam fugir e a gente apanhou-os a caminho da Figueira da Foz. É importante que o Capitão faça com que eles abandonem essa ideia. E diga ao Chipenda, que se quiser, deixamo-lo ir fazer os exames que tem marcados na universidade» E foi mesmo, no Mercedes da PIDE, com chaufer e tudo. Mais tarde dá-se um conflito académico de monta, que origina a paragem do campeonato por uma jornada, como forma de protesto contra a colonização. Surgem os militares e somos chamados à Praça da República para definir a nossa posição. Fui o primeiro a ser ouvido, mais uma vez por ser o capitão. «O senhor joga ou não joga?», perguntaram-me. «Desculpem, mas preciso de falar à parte com os jogadores», respondi. Juntámo-nos todos numa sala e falei: «Temos tempo para as nossas lutas, não vamos suicidar-nos colectivamente. Acho que devemos dizer que vamos jogar. E o Chipenda,o Araújo, o N’dalo França e os demais disseram que sim. Mais tarde fugiram e entraram na luta da independência.
– Em Coimbra passa a ser o Velho Capitão…
– Foi a alcunha que mais perdurou. Porquê? Porque em Coimbra fui o eterno capitão, pela minha postura e maneira de ser. Era capitão na Académica quem tinha as habilitações mais elevadas. Até que apareceu Cândido de Oliveira e o Oscar Tellechea e disseram. «Não, o fulano que tem o perfil de capitão que nós imaginamos é Mário Wilson.» E fui capitão para sempre.
– Conheceu Mestre Cândido. Como era o homem, o treinador?
– Tive um convívio extremamente forte com ele. Foi sempre impecável. Ia para o hotel Astoria, onde vivia e falávamos horas a fio de futebol. Era um homem de grande dignidade, que gostava do bom convívio. Era uma delícia ouvi-lo. E era profundo, humano e inteligente no que defendia. Foi um dos catedráticos do futebol. Havia um grupo de doutores no café Arcádia que requisitava o Cândido e ele presidia a essas reuniões como um autêntico catedrático, com um domínio cultural impressionante sobre tudo o que se passava.
– Iniciou a sua carreira de treinador como adjunto dele, não foi?
– Sim, ainda era jogador, quando fui seu adjunto.
– Em 1963 acaba como jogador. Passa a adjunto de Otto Bumbel, depois de Janos Biri e de Mário Imbelloni e a fechar este ciclo é adjunto de Pedroto.
– Quando o Pedroto sai é que eu assumo o lugar de treinador da Académica. O Pedroto era intratável. Tinha atitudes que roçavam o racismo. Ele queria sempre ser o big boss.
«Pedroto era ele, ele e só ele»
– As grandes lutas Norte-Sul começam entre Pedroto e Wilson. E são lutas duras…
– São, são… Mas em Coimbra eu era o Capitão e os jogadores andavam à minha volta, pouco ligavam ao Pedroto. Eu era o espírito académico, o Pedroto era ganhar, ganhar…tinha uma determinação própria, um pouco a destoar daquele ambiente de Coimbra.
– Pedroto deixa a Académica por dar uma punhada num jornalista de Coimbra, não é?
– Exactamente. Ele foi acumulando pequenos ódios. Tinha coisas tal como o Pinto da Costa, de uma determinação inabalável. Uma das máximas do Pedroto era: «Morrer por morrer, que morra o meu pai, que é mais velho». Isto era Pedroto.
– Ia falar da saída de Pedroto…
– O Porto foi jogar a Coimbra e esse tal jornalista, depois do jogo, escreveu: «Este jogo antes de começar já estava perdido.» O Pedroto não esperou, foi ao café onde se reuniam os teóricos, viu o jornalista e perguntou-lhe: «Foi você que escreveu isto?». – «Fui, porquê?» E Pedroto respondeu-lhe com um soco nos queixos. Isto era Pedroto.

Uma tremenda farra

Posted in Uncategorized with tags , , , on 18 de Outubro de 2009 by gm54

Erasmo Carlos

Os parceiros musicais Roberto e Erasmo Carlos já declararam a sua afeição mútua na antológica canção “Amigo”. Na vida privada, as proclamações de amizade são menos convencionais. Nos anos 80,  num restaurante de Los Angeles, Roberto repreendeu Erasmo pela sua suposta falta de asseio: o Tremendão – como é conhecido desde os tempos da jovem guarda, movimento que lançou o rock brasileiro nos anos 60 – não havia lavado as mãos antes de ir aos lavabos. Hipocondríaco, conhecido pelas suas estranhas manias, Roberto Carlos tentou convencer o parceiro de que o órgão sexual masculino é uma peça frágil, susceptível a todo tipo de infecção – tocá-lo com as mãos sujas indicaria descuido com o próprio corpo.

Para provar a sua sintonia com o corpo, Erasmo embarcou numa candente defesa do próprio instrumento (não musical, bem entendido). “Ele obedece-me, entende-me, está sempre pronto para a guerra. É o meu melhor amigo”, disse. “Ele já te emprestou dinheiro?”, perguntou Roberto. E, diante da negativa de Erasmo, concluiu: “Então eu sou o seu melhor amigo”. Esse diálogo esquisito é uma das muitas anedotas incluídas por Erasmo em “Minha Fama de Mau”, que chega a partir de sexta-feira às livrarias.

Despretensioso e muito bem-humorado, o livro, com texto final do jornalista Leonardo Lichote, não é uma autobiografia minuciosa do cantor – trata-se antes de uma espécie de álbum de memórias, uma reunião de casos vividos por Erasmo em cinquenta anos de carreira, com flagrantes impagáveis da música brasileira do período.

Filme “A Ilha dos Espíritos” apresentado na sede da UNESCO em Paris

Posted in Africa, Cinema, História with tags , , , on 14 de Outubro de 2009 by gm54
A película aborda a história da Ilha de Moçambique, que muito antes de dar o nome ao país, durante séculos, teve um papel fundamental no Oceano Índico, como ponto de escala para navegadores do Oriente e do Ocidente que procuravam alargar as fronteiras do mundo

A película aborda a história da Ilha de Moçambique, que muito antes de dar o nome ao país, durante séculos, teve um papel fundamental no Oceano Índico, como ponto de escala para navegadores do Oriente e do Ocidente que procuravam alargar as fronteiras do mundo

O filme moçambicano, “A Ilha dos Espíritos”, sobre a Ilha de Moçambique, foi projectado para um auditório constituído pelos participantes da 35ª. Conferência Geral da Organização para a Educação, Ciência e Cultura das Nações Unidas (UNESCO), que decorreu na sua sede, Paris, semana passada. A projecção fez parte de uma sessão especial sobre Moçambique, que teve como tema a “Diversidade Cultural e Desenvolvimento Sustentável”.

“A Ilha dos Espíritos”, um documentário de 63 minutos, foi realizado por Licínio de Azevedo e co-produzido pela Ebano Multimédia e Technoserve. Foi estreiado durante o IV Dockanema, Festival do Filme Documentário, que decorreu em Maputo de 11 a 20 de setembro último.

A película aborda a história da Ilha de Moçambique, que muito antes de dar o nome ao país, durante séculos, teve um papel fundamental no Oceano Índico, como ponto de escala para navegadores do Oriente e do Ocidente que procuravam alargar as fronteiras do mundo conhecido até então. Nela (película) intervêem um historiador especializado na ilha e um arqueólogo marítimo que traz à superfície tesouros há muito perdidos em naufrágios.

O quotodiano dos habitantes da Ilha de Moçambique, actividades, hábitos, cultura, é nos dado a conhecer por inúmeros outros personagens: um pescador que relata as aventuras na sua frágil embarcação; o “porteiro” da ilha que controla quem entra e sai dela pela ponte que a liga ao continente; uma famosa dançarina e animadora cultural; uma coleccionadora de capulanas e jóias antigas; uma conhecedora dos seres mágicos que povoam o imaginário colectivo dos ilheus.

Empresa americana lança boneca de Michelle Obama

Posted in Artes Plásticas, Comportamento with tags , on 14 de Outubro de 2009 by gm54

Miniatura reproduz os braços descobertos como traço característico da primeira-dama dos EUA

EE.UU. GENTEA fabricante de brinquedos americana Jailbreak Toys lançou nesta semana uma boneca da primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama. A miniatura reproduz um traço característico de Michelle: os braços descobertos.

EE.UU. GENTE

A boneca tem 15 centímetros de altura e será vendida por 12,99 dólares. A empresa também já lançou modelos do presidente Barack Obama e das filhas do casal, Sasha e Malia.

Fotojornalismo mundial na Fortaleza de Maputo

Posted in Fotografia on 29 de Setembro de 2009 by gm54
Estivador

Estivador

A Embaixada do Reino dos Países Baixos em Maputo traz pelo terceiro ano consecutivo a exposição da “World Press Photo” a Moçambique. A exposição estará patente de 3 a 22 de Outubro próximo na Fortaleza em Maputo.

Esta exposição móvel é única, e resulta de um concurso anual de fotografia jornalística. A abertura oficial será presidida pelo Sr. Frans Bijvoet, Embaixador do Reino dos Países Baixos em Moçambique.

Na amostra será exibido um total de 196 fotografias, incluindo a fotografia vencedora do ano, uma imagem a preto e branco do fotógrafo americano Anthony Suau, e as outras imagens vencedoras de cada uma das dez categorias.

Anualmente, um júri internacional e independente, consistindo de treze membros, avalia as entradas em 10 categorias diferentes, submetidas por fotojornalistas, agências, jornais e revistas de todos os cantos do mundo. A competição deste ano atraiu mais de 5508 fotógrafos de 124 países. No total 96 268 imagens deram entrada para o concurso.

Este ano o júri seleccionou uma imagem a preto e branco do fotógrafo americano Anthony Suau como a fotografia vencedora da “World Press Photo”, cujo tema é a crise financeira mundial. A imagem mostra um polícia armado do Departamento de Xerife do Condado de Cuyahoga a caminhar numa casa em Cleveland, Ohio, após os ocupantes terem sido despejados como resultado de falta de pagamento. Os polícias têm de assegurar que a casa está livre de armas, e que os residentes saíram da casa.

Velho Ngomane, prováveis 95 anos, da aldeia Germantine, Namaacha, Moçambique

Velho Ngomane, prováveis 95 anos, da aldeia Germantine, Namaacha, Moçambique

A fotografia vencedora, tirada em Março de 2008, integra-se numa história comissionada pela revista “Times”. A história fotográfica completa ganhou o segundo prémio na categoria de Vida Quotidiana deste concurso.

A “World Press Photo” é uma organização independente e sem fins lucrativos. Os seus escritórios são em Amesterdão, onde a “World Press Photo” foi fundada em 1955. O seu principal objectivo é apoiar e promover internacionalmente o trabalho de jornalistas fotográficos profissionais. Ao longo dos anos a “World Press Photo” tem evoluído para uma plataforma independente para fotojornalismo e troca de informação gratuita.

De forma a atingir os objectivos, a “World Press Photo” organiza anualmente o maior e mais prestigiado concurso de fotografia jornalística mundial. Projectos educacionais desempenham um papel importante nas actividades da “World Press Photo”. Seminários e “workshops” estão abertos a fotógrafos individuais, agências fotográficas e editores fotográficos estão organizados em países em desenvolvimento. A Masterclass do conceituado fotógrafo Joop Swart, é tida anualmente nos Países Baixos, direccionada a fotógrafos com talento no início das suas carreiras. Recebem instruções práticas e conselhos profissionais de chefes nesta profissão.

De referir que a exposição anual da “World Press Photo” é exibida em cerca de 100 lugares em todo o mundo.

Músicos moçambicanos escalam Dinamarca

Posted in Moçambique with tags , , , , on 29 de Setembro de 2009 by gm54
Deodato Siquir, na forja o CD "Mandamentos da vida"

Deodato Siquir, na forja o CD "Mandamentos da vida"

Um grupo de músicos moçambicanos encontra-se desde segunda-feira, 28, na Dinamarca, onde vai participar na “Semana de Moçambique”, um evento de intercâmbio cultural a decorrer naquele reino de 5 a 9 de Outubro próximo.

A comitiva integra os músicos Eduardo Maciel (Dua), Paulo Wilson, Raimundo Mauele, Fanuel Macuácua (Sacre), Orlando Venhereque, João Cabral, Hélder Gonzaga, Samuel Matsinhe (Samito), Celso Paco e Deodato Siquir, estes dois últimos radicados na Suécia.

Durante a sua estadia na Dinamarca, os músicos vão participar, dentre vários eventos, em “workshops”, nos quais artistas irão transmitir os seus conhecimentos de música moçambicana a estudantes locais, além de realizar concertos musicais.

O intercâmbio cultural “Semana de Moçambique” é da iniciativa do Conservatório Rítmico de Copenhaga, em colaboração com o músico Deodato Siquir, que, apesar de estar radicado na Suécia, tem estado a expandir as suas actividades em diversos pontos da Europa.

Depois deste evento, Siquir e outros músicos moçambicanos integrantes da Banda de Maputo irão fazer digressão pela Dinamarca e Suécia, realizando três espectáculos musicais, dois deles no primeiro país.

Vencedor do prémio “Revelação” do concurso “Ngoma Moçambique”, a maior parada musical no país promovida pela Rádio Moçambique, Siquir lançou, em 2007, em Copenhaga, o seu primeiro CD a solo intitulado “Balanço”.

Stewart Sukuma, na Dinamarca, aqui com Edmundo Galiza Matos

Stewart Sukuma, aqui com Edmundo Galiza Matos, participa no CD de Deodato Siquir, "Mandamentos da Vida"

Neste momento, ele está a preparar o seu segundo disco entitulado “Mandamentos da Vida”, encontrando-se agora na fase de misturas.

“Mandamentos da Vida” conta com a participação especial dos artistas Hélder Gonzaga, Dua, Sacre, Valter Mabas, Rahima, Stewart Sukuma, Etienne Mbappe, Soweto Kinch, Preben Carlsen, Soren Heller e Phong Le.(X)

A “heroína zangada” de Quino faz hoje 45 anos

Posted in Banda Desenhada with tags , , , on 29 de Setembro de 2009 by gm54

Mafalda_quino

Mafalda não é desenhada por Quino desde 1973, mas a sua popularidade continua intacta. E  já tem uma estátua em Buenos Aires

No passado dia 30 de Agosto, um discreto senhor de 77 anos sentou-se num banco da Rua do Chile, 73, em Buenos Aires, ao lado da estátua de uma menina em tamanho natural, sob a atenção de um pelotão de fotógrafos e de centenas de transeuntes.

O senhor de idade era o desenhador Quino, e a menina da estátua, Mafalda, a sua grande criação, que hoje faz 45 anos. E no edifício junto ao qual a estátua foi inaugurada, viveu Quino (aliás, Joaquín Salvador Lavado) durante a sua infância, foi transformado no cenário de muitas das tiras da menina mais politizada, opinativa, contestatária e menos amiga de sopa da história da banda desenhada.

Admirado por Charles M. Schulz, o criador dos Peanuts, que lhe chamou “um gigante do humor” , ou por Umberto Eco, que advogava que Mafalda fosse tratada como “uma pessoa real, porque os nossos filhos se preparam para ser uma multidão de Mafaldas”, Quino criou a sua personagem em 1963, para ilustrar uma campanha de uma marca de electrodoméstico, mas as seis tiras então desenhadas não chegaram a ser publicadas. Apenas três delas chegaram à estampa no suplemento humorístico de uma revista, em 1964.

Pouco depois, Mafalda, os pais e dois dos amigos “mudaram-se” para o jornal Primera Plana, onde surgiu pela primeira vez, a 29 de Setembro de 1974, e começou a ser publicada com regularidade. E longe de ser mais uma personagem para consumo infanto-juvenil, esta menina de seis anos revelou-se de imediato uma comentadora crónica, preocupada e mordaz da situação mundial, bem da realidade social, económica e política da Argentina.

Era Mafalda, a contestatária e insatisfeita, “uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é”, como escreveu Eco, em 1969, no prefácio a um dos álbuns da pequena heroína de Quino. Que apesar do seu precoce e articulado discurso adulto, apresentava também características de uma criança da sua idade, como uma paixão fanática pelos Beatles e uma hostilidade figadal à sopa.

A tira foi mudando de jornal e a família de personagens e amigos de Mafalda foi-se alargando, na proporção directa do seu enorme sucesso em casa e fora de portas.

Em 1973, e em plena crista da onda de popularidade, Quino decidiu parar de desenhar Mafalda, para evitar cair na repetição e na rotina, e para se dedicar ao desenho de humor e à caricatura. Só voltaria a ela em ocasiões especiais, caso de uma campanha da UNICEF a favor dos direitos das crianças, em 1977, e de que Mafalda é porta-voz oficial.

Mafalda continua viva como nunca, e os seus álbuns a esgotar edições. E agora, aos 45 anos, até já tem uma estátua ao pé do prédio onde viveu o “pai” Quino quando era miúdo como ela. (x)

Bee Gees reúnem-se para concertos, seis anos após a morte do irmão

Posted in Word Music with tags , , , , on 9 de Setembro de 2009 by gm54

Bee Gees

Robin e Barry Gibb têm planos para novos concertos, seis anos após a morte de Maurice, o terceiro elemento dos Bee Gees. O anúncio foi feito pelo próprio Robin à BBC, dizendo que os dois irmãos estiveram juntos recentemente em Miami, onde terão acordado ensaios e uma série de concertos agendados para muito breve.

The Beatles: integral remasterizada e jogo hoje nas lojas

Posted in Word Music with tags , , , on 9 de Setembro de 2009 by gm54

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A edição integral das canções remasterizadas digitalmente dos Beatles chega hoje ao mercado, acompanhada por textos que contextualizam a evolução da banda e fotos inéditas, tal como o jogo de vídeo “The Beatles: Rock Band”.

“A ideia que presidiu à feitura dos textos foi contextualizar historicamente cada álbum, isto é, dar a conhecer além da informação relacionada com o álbum, as outras coisas que os Beatles estavam a fazer como digressões, espectáculos para a rádio e para a televisão, digressões, etc..”, disse Kevin Howlett, um dos autores dos textos.

Outro autor dos textos é Mike Heatley, que sublinhou que os “fabulous four” tinham “uma agenda cheia e eram muito solicitados, acrescentando a tudo isto o facto de terem gravado dois álbuns por ano”.

“Procurou-se dar uma cronologia tão exaustiva quanto possível, e, por outro lado, às fotografias já conhecidas da edição de 1987 juntar mais fotografias, algumas inéditas”, disse Heatley.

“O que fizemos foi tentar acompanhar o grupo, e há muito material de arquivo que permite perceber a sua evolução, até das canções, e logo ter um ideia mais próxima do seu modo de trabalhar”, disse Howlett.

O investigador referiu que “há por exemplo as ‘masters’ de cada fase de gravação de uma canção, permitindo perceber assim como a foram construindo”.

Para este trabalho “foi essencial o arquivo dos Beatles nos estúdios de Abbey Road, a cargo de Alan Ralph”, disse Howlett.

Os textos permitirão, segundo os investigadores, “conhecer algumas curiosidades da banda de Liverpool, e sistematizar a sua história”.

Mike Heatley referiu que os álbuns editados pelos Beatles no reino Unido e na Europa eram diferentes dos editados nos Estados Unidos, “havendo variações por exemplo no alinhamento. Só a partir do álbum ‘Sergent Peper’s'[Junho de 1967] é que passaram a ser iguais”.

Neste caso os Beatles não se distinguiram de outros artistas, pois segundo Heatley “isso acontecia frequentemente com outros artistas na década de 1960”.

“Para se ser grande nos Estados Unidos é preciso ter-se um comportamento e atitude diferente da que se tem no seu país de origem”, referiu o investigador.

Heatley deu ainda outros exemplos como singles editados nos Estados Unidos que não o foram no Reino Unido, caso de “Let it be”, ou vice-versa.

A canção “Eight days a week”, outro exemplo, foi single nos Estados Unidos, sem nunca ter entrado em qualquer álbum, contou.

A EMI e a Apple disponibilizam a discografia completa em duas caixas e também os CD avulso.

Uma caixa completa com a remasterização digital em estéreo, constituída por 16 CD, dois deles duplos, e um DVD, no valor de 230 euros, e outra, intitulada “The Beatles in Mono” que reúne todas as gravações do grupo que foram misturadas para edições em mono na década de 1960, e o DVD, com o custo de 270 euros.

Os fãs dos Beatles na Coreia do Sul já começaram a corrida às lojas de Música

Os fãs dos Beatles na Coreia do Sul já começaram a corrida às lojas de Música

Vendidos à unidade, os CD custarão cada um, 16.95 euros, enquanto os dois CD duplos, “White album” e “Past masters”, 24.95.

Os dois investigadores concordam que “todas as gerações acabam à sua maneira por descobrir a música dos Beatles, que é de excelente qualidade. Se era boa na década de 1960, é também agora e será sempre”

Sandokan, inédito de Hugo Pratt, e adaptado para o teatro na Rádio Moçambique, chegou às livrarias em França

Posted in Artes Plásticas with tags , , , , , , , , on 5 de Setembro de 2009 by gm54
Sandokan manteve-se inédito até aos nossos dias provavelmente devido ao êxito do Corto Maltese, o herói mais conhecido de Hugo Pratt

Sandokan manteve-se inédito até aos nossos dias provavelmente devido ao êxito do Corto Maltese, o herói mais conhecido de Hugo Pratt

Uma versão em banda desenhada de Sandokan, “O Tigre da Malásia”, da autoria de Hugo Pratt, acaba de ser editada em França pela editora Casterman, meses após a publicação em Itália.

A banda desenhada foi encomendada a Hugo Pratt, no final dos anos 1960, pelo “Corriere dei Piccoli”, um suplemento infantil do diário italiano “Corriere della Sera”, mas manteve-se inédito até aos nossos dias provavelmente devido ao êxito de “Corto Maltese”, que o autor começou a desenvolver na mesma época, lê-se no site da editora francesa.

Sandokan, “O Tigre da Malásia”, foi muito popular em Moçambique nos finais da década de 70, quando a Rádio Moçambique decidiu passar a obra para o teatro radiofónico no programa “Cena Aberta”.

A saga foi adaptada por Gulamo Khan e Leite de Vasconcelos e realizada por Álvaro Belo Marques, Carlos Silva e António Scwhalback.

Leite de Vasconcelos

Leite de Vasconcelos

Teodósido Mbanze, hoje assessor jurídico da Rádio Moçambique, desempenhou o principal papel, “Sandokan”, enquanto Machado da Graça representou o de James Bruck, Santa Rita (hoje nos EUA) esteve no papel do “português” Eanes e Teresa Sá Nogueira, já falecida, era a bela e misteriosa jovem inglesa – Lady Mariana.

O “Cena Aberta” de Sandokan, “O Tigre da Malásia” da Rádio Moçambique, era transmitido todos os dias depois do noticiário das 21 com uma audiência tal que as ruas da cidade de Maputo ficavam desertas àquela hora para escutar as peripécias do príncipe malaio, inimigo dos ingleses.

Recorde-se que à época não existia em Moçambique nenhum canal de televisão, pelo que a Rádio era o único meio de comunicação acessível à quase totalidade dos moçambicanos. A televisão só viria a ser instalada em Moçambique em 1980, a TVExperimental, nas mãos do governo, com José Luís Cabaço à frente do projecto.

Machado da Graça, "James Bruck" no Sandokan, "O Tigre da Malásia" na Rádio Moçambique

Machado da Graça, "James Bruck" no Sandokan, "O Tigre da Malásia" na Rádio Moçambique

Já sem uma audiência por aí além, o “Cena Aberta” continua a ser transmitido na empresa moçambicana de radiodifusão pública, aos sábados, as 21 horas.

Gulamo Khan e Leite de Vasconcelos, já falecidos, Santa Rita e Machado da da Graça, foram jornalistas da Rádio Moçambique.

História do “Tigre da Malásia”

A história do “Tigre da Malásia” não foi alimentada por Pratt além de desenhos e pranchas dispersos, tendo sido posta de lado por volta de 1973, quando o “Corriere della Sera” se limitava a uma trintena de páginas. Esquecidas numa caixa na editora, as pranchas da história inacabada de Sandokan de Pratt foram finalmente redescobertas pelo jornalista Alfredo Castelli, 40 anos mais tarde, encontrando finalmente o caminho das livrarias. A editora italiana de Pratt, Rozzoli-Lizard, foi a primeira a publicar este trabalho, já em 2009.

A saga de Sandokan foi criada pelo escritor italiano Emilio Salgari (1862-1911) que lhe dedicou onze livros, uma obra clássica da literatura de aventuras. Os desenhos de Pratt contam o início da saga, situada em 1849 no mar da Malásia, a algumas milhas da costa ocidental do Bornéu. Na ilha selvagem de Mompracem assolada pela tempestade, encontra-se uma inquietante personagem: o príncipe malaio Sandokan, um temido pirata que os ingleses pretendem capturar e que é conhecido por Tigre da Malásia.

Uma personagem central é o aventureiro português Eanes, leal amigo de Sandokan. É ele quem fala ao pirata sobre uma jovem esplêndida com cabelos de ouro que mora em Labuan e cuja reputação de beleza se expandiu por toda a região.

Galvanizado pela descrição do seu amigo, Sandokan decide fazer-se ao mar rumo a Labuan, para contemplar com os próprios olhos a bela e misteriosa jovem – Lady Mariana – e para se vingar dos ingleses que assassinaram a sua família.

A existência do “Sandokan” de Hugo Pratt era referida no livro de Dominque Petitfaux “De l’autre côté de Corto”, editado pela Casterman em 1996. Mas ninguém tinha visto esta história inacabada e inédita, adaptada em texto por Mino Milani a partir da obra de Salgari.

Hugo Pratt nasceu em Rimini (Itália) em Junho de 1927 e morreu em Grandvaux (Suíça) em Agosto de 1995. O mais conhecido herói de Pratt é Corto Maltese, cuja primeira aparição data de 1967, na revista Sgt.Kirk. O marinheiro romântico era então uma personagem secundária.(X)

Columbia Records editou (o seu) Miles Davis completo

Posted in Word Music on 5 de Setembro de 2009 by gm54

Miles Davis 1

Uma caixa monumental que inclui todo o Miles gravado na Columbia, entre os discos “Round Midnight” (1955) e “Filles de Kilimanjaro” (1968)

Agosto foi o mês em que se assinalou o cinquentenário da edição de “Kind of Blue”, o álbum gravado pela Columbia Records e lançado no dia 17 de Agosto de 1959 que com o tempo se tornou na mais vendida gravação em estúdio da história do jazz, para além de ser considerado um dos melhores discos da história da música. Mas este vai ser também o ano em que a etiqueta americana marca a celebração da arte de Miles Davis (1926-1991) com a edição de uma caixa monumental – pela extensão, mas principalmente pelo conteúdo -, que incluirá todo o Miles gravado na Columbia, entre os discos “Round Midnight” (1955) e “Filles de Kilimanjaro” (1968).

A caixa, intitulada “The Complete Album Collection”/Columbia Legacy, contem 70 CDs com todas as gravações conhecidas e inéditas do genial compositor e trompetista (entre as últimas, está o concerto de Miles no Festival da Ilha de Wight em 1970). Mas a “pièce de résistance” é um DVD também absolutamente inédito, “Live in Europe’67”. E como bónus, um livro de 250 páginas…

Toda esta informação foi avançada pelo “site” de música Pitchfork Media, que anuncia o lançamento para 10 de Novembro, especificando que a caixa só poderá ser adquirida via Amazon. Custa tudo 369,98 dólares (pouco mais de 258 euros), o que Tom Breihan, autor da notícia, considera “uma pechincha”. E é! E será também, certamente, uma edição para fazer história, como a de “Kind of Blue”.(X)

Mafalda já é estátua

Posted in Uncategorized with tags , , , , on 1 de Setembro de 2009 by gm54
Mafalda saiu do papel e da tina e virou estátua

Mafalda saiu do papel e da tina e virou estátua

Mafalda, a irônica menina-filósofa que analisa a conjuntura mundial, saiu oficialmente da segunda dimensão do papel e tinta nanquim e passou para a terceira dimensão, transformando-se numa escultura.
Isso ocorreu no domingo, dia 30, quando as autoridades portenhas e o escultor Pablo Irrgang inauguraram a estátua de Mafalfa nas esquinas das ruas Defensa e Chile, no bairro portenho de Monserrat.

Pai e filha juntos - Quino e Mafalda

Pai e filha juntos - Quino e Mafalda

A escultura mostra Mafalda sentada num banco de praça, com leve sorriso, com ar de estar a meditar sobre a vida.
O seu criador Joaquín Lavado, mais conhecido como “Quino”, participou na cerimônia de inauguração. Ficou surpreso ao ver a espontaneidade da escultura. Mas, admitiu que ainda custa “bastante” ver uma Mafalda tridimensional.

A esquina das calles Chile e Defensa, a esquina mais “mafaldiana” do planeta (e, obviamente, da Galáxia) ficou repleta de fãs, curiosos e amigos do desenhista.
Um dos discursos mais delirantes foi pronunciado pelo cartunista Carlos Garaycochea, que propôs que a efígie de Mafalda fosse estampada nas notas dos pesos argentinos.

Quino declinou a proposta, e disse que, se fosse o caso, a figura mais adequada para tal função era Manolito, o amiguinho capitalista-mirim de Mafalda – aspirante a Rockefeller portenho – cujo pai era o dono do armazém “Don Manolo”. O tal do “Don Manolo vende baratíssimo!”.

A Mafalda de Quino e - quem sabe? - uma potencial Mafalda de carne e osso

A Mafalda de Quino e - quem sabe? - uma potencial Mafalda de carne e osso

Segundo o escultor Pablo Irrgang a escultura de Mafalda é em tamanho ‘real’. A ideia é que posteriormente ela seja deslocada uns poucos metros, até ficar, definitivamente, na porta de seu prédio, na rua Chile, número 371. Isto é, o edíficio onde Mafalda mora. Ou melhor, o prédio onde Quino, seu pai, isto é, seu desenhista, morava quando começou a desenhá-la, nos anos 60.
A prefeitura de Buenos Aires, depois de vários anos de delongas e amnésia burocrática, finalmente colocou a placa que indica – tal como todo personagem histórico de destaque – que ali morou (ou mora?) Mafalda, a menina que odeia sopa, ama os Beatles, e que é ‘cult’ há décadas.
Mafalda foi publicada somente entre 1964 e 1973.

Segundo Mafalda "mais do que um planeta, este aqui é uma imensa casa da mãe Joana espacial"

Segundo Mafalda "mais do que um planeta, este aqui é uma imensa casa da mãe Joana espacial"

CASA
A casa de Mafalda foi, durante décadas, um mistério. Sabia-se que ela era portenha. Mas, o bairro era uma incógnita. Nos últimos anos, um grupo de jornalistas fanáticos por Quino – entre eles o jornalista político Darío Gallo – vasculharam pistas nos quadrinhos de Mafalda (e em comentários de Quino), como as linhas de autocarros (o ‘colectivo’ número 86, principalmente) que passavam por ali perto, estátuas, praças, e demais indicações.

Finalmente chegaram à conclusão que Mafalda morava na rua Chile, 371. Mais precisamente, décimo andar, apartamento “E”.

Quino confirmou a investigação dos jornalistas. O apartamento de Mafalda era o próprio apartamento onde Quino havia morado durante anos, na década de 60.

Placa que a prefeitura levou anos em colocar, indica que ali morou Mafalda

Placa que a prefeitura levou anos em colocar, indica que ali morou Mafalda

ANIVERSÁRIOS
Mafalda possui dois aniversários, segundo o próprio Quino.
Ela nasceu “oficialmente” no dia 15 de março de 1962, na Buenos Aires. Na época, foi criada para uma propaganda de um eletrodoméstico.
Mas, para os portenhos deste nosso mundo, a sua estréia para o público foi o 29 de setembro de 1964, quando virou tirinha.
Nessa ocasião, no entanto, Mafalda não “nasceu” com 0 anos…ela tinha “6 anos”.
Portanto, neste ano Mafalda, uma interessante quarentona, faz 45 anos. Ou, se levarmos em conta os seis anos que ela tinha quando apareceu na primeira tirinha…já seria uma cinquentona. 51 anos (na última tirinha, em 1973, tinha a idade ‘quadrinhística’ de 8 anos).
De todas formas, “Que lo cumplas feliz (Parabens pra você)!”

Mafalda_22-mini FRASES DE MAFALDA
“Todos acreditamos no país…o que a gente não sabe é se neste ponto das coisas o país acredita na gente!”

“Se viver é durar, prefiro uma canção dos Beatles em vez de um long play dos Boston Pops”

“O pior é que a piora começa a piorar”

“Parem o mundo, que eu quero descer!”

“O negocio é encarar a artificialidade com naturalidade”

“Não é que não haja bondad..o que acontece é que ela está incógnita”

“Errare politicum est”

Jimi Hendrix vai ter um “biopic”

Posted in Word Music with tags , , , on 1 de Setembro de 2009 by gm54

Jimi Hendrix 2

Desta vez parece que nem a meia-irmã, Janie, vai impedir que a coisa avance (pelo menos até certo ponto): depois de vários projectos recusados pela entidade gestora do legado de Jimi Hendrix, presidida por Janie, a Legendary Pictures vai avançar com um “biopic” sobre aquele que foi o maior guitarrista “rock” de sempre (“Rolling Stone” dixit). Dados os exemplos do realizador John Hillman e da Dragonslayer Films, em 2006 (não conseguiram direitos da música), a ideia é inverter o processo: arrancar com o filme primeiro e conseguir autorização depois.

A chegar aos cinemas, segundo a “Variety”, o filme deve retratar a vida do músico desde a sua passagem pelo exército norte-americano e o super-estrelato atingido em Woodstock até à morte, a sua pouco explicada morte num hotel de Londres em 1970, com compridos e álcool à mistura.

Depois dos planos abortados em anos recentes envolvendo músicos como Lenny Kravitz e Andre Benjamin dos Outkast, não houve ainda comentários sobre o elenco. Sabe-se apenas que Thomas Tull e Bill Gerber seriam os produtores e que o argumento é de Max Borenstein.

Mafalda tem estátua em Buenos Aires desde domingo

Posted in Uncategorized on 1 de Setembro de 2009 by gm54
Pablo Irrgang esculpiu a famosa personagem de BD no seu estúdio em Buenos Aires

Pablo Irrgang esculpiu a famosa personagem de BD no seu estúdio em Buenos Aires

Uma escultura da popular Mafalda está instalada desde domingo no bairro de San Telmo, em Buenos Aires, em homenagem ao criador da personagem, o desenhadar argentino Quino.

Mafalda está sentada num banco com uma altura de 80 centímetros, na rua Chile de San Telmo, onde decorria a história da personagem, a uns escassos metros do local onde vivia o seu criador, Joaquín Salvador Lavado (Quino).

A estátua, da autoria do escultor argentino Pablo Irrgang, celebra a curta vida de uma personagem que se tornou símbolo da contestação e do inconformismo nos anos 60 e 70.

Quino deu vida a esta criança céptica em 1964, numa série de tiras publicadas em três jornais até 1973, ano em que decidiu pôr fim à aventura.

O autor foi homenageado pelo governo argentino no domingo. De regresso a Buenos Aires, onde viveu vários anos e onde criou Mafalda, lamentou que a cidade se encontre arruinada e irreconhecível.

Quino nasceu em Mendoza em 1932 e reside actualmente em Itália.

O desenhador confessou que todas as personagens da Mafalda têm um pouco dele próprio, e que se identifica mais com Felipe, Miguelito e Libertad. Sublinhou que Mafalda é uma personagem feminina porque “as mulheres são muito mais astutas do que os homens”.

Ainda que se sinta orgulhoso com o êxito internacional de Mafalda, Quino reconheceu que isso às vezes o assusta.

“Ter uma história fixa limita muito, porque fazer um desenho sempre com as mesmas personagens retira a liberdade de movimentos”, concluiu.

Morte de ex-guitarrista dos Rolling Stones investigada novamente

Posted in Word Music with tags , , , , , , , on 1 de Setembro de 2009 by gm54

"Stoned", de Stephen Wolley, contém uma das teorias segundo a qual Jones terá sido assassinado

"Stoned", de Stephen Wolley, contém uma das teorias segundo a qual Jones terá sido assassinado

A morte do antigo guitarrista dos Stones está a ser novamente analisada, noticia a BBC. Brian Jones, que morreu com 27 anos, foi encontrado no fundo duma piscina em Hartfield, em Sussex (Reino Unido), em 1969. Na altura, a investigação concluiu que a morte tinha sido acidental, excluindo os rumores de assassinato. No entanto, surgem agora novas provas que levam os investigadores a reapreciar o caso. A polícia afirma que é demasiado cedo para comentar o assunto.

Segundo o jornal “El Mundo”, há várias teses sobre a morte do músico, todas elas apontando para o cenário de homicídio. A primeira remete para o filme “Stoned” (2006), de Stephen Woolley, segundo o qual o músico tinha uma dívida de mais de 9000 euros (8000 libras na altura) para com um construtor chamado Frank Thorogood. Como forma de intimidação para que Jones pagasse a dívida, o construtor terá metido a cabeça do músico debaixo de água, acabando por afogá-lo.

A segunda teoria é de Trevor Hobley, fundador de um clube de fãs de Brian Jones, que compilou uma série de documentos, alegando serem provas de um homicídio. Segundo o jornal espanhol, Hobley assegura que os assassinos colocaram a cabeça de Jones dentro de um balde com água para o afogar, vestindo-o de seguida de fato de banho. No final, colocaram o corpo dentro da piscina. Todas estas teses foram ignoradas ao longo dos anos pelos responsáveis pela investigação, convictos de que a morte fora acidental.

Brian Jones foi um dos fundadores dos Rolling Stones e tocou com a banda durante a década de 60. Morreu pouco depois de ter abandonado o grupo de Mick Jagger, Keith Richards e Ian Stewart.

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