Arquivo de Portugal

Capitão Mário Wilson já tem 80 anos

Posted in Uncategorized with tags , , , , on 19 de Outubro de 2009 by gm54

Por Carlos Rias (jornal “A Bola”, 18/outubro/2009)

Mario Wilson

É um nome incontornável na história do futebol português. Confessa, ainda hoje, que tem dois amores- o Benfica e a Académica. Mas tudo começou em Moçambique, há 80 anos. Mário Wilson está de parabéns e celebra o aniversário com uma entrevista a A BOLA.

– Lembra-se de Moçambique, das primeiras brincadeiras?– Perfeitamente. Tanto na rua, como nos recreios, manifestava a minha enorme paixão pelo futebol, identificava-me com ele. Quer calçado ou descalço, queria era jogar.
– E o cheiro da terra de África?
– Tenho-o comigo, imortalizei-o na minha memória. E a memória tem-me sido benéfica para coisas que são prioritárias.
– Chegou a constituir uma equipa com os amigos, os «Fura-redes»…
– Isso foi no Alto Maé. Era uma zona de transição, aí já funcionava a sociedade moçambicana. Tive a sorte de ser neto de Henry Wilson…
– Que era americano. E teve uma avó que era rainha…
– Chamávamos-lhe a rainha de Tembe, mas não era bem rainha, era uma princesa, porque era filha de um dos primeiros régulos, que vivia na Catembe. Foi aí que o meu avô, no seu percurso comercial, chegou e a viu. Os régulos tinham filhas que nunca mais acabavam! O meu avô fez uma opção: casar.
– E Henry Wilson…
– Era espectacular. Pegou na minha avó em Tembe e transportou-a para Lourenço Marques. É como ir buscá-la a Almada e trazê-la para Lisboa. Dela teve seis filhos. E educou-os na África do Sul. Isso fez com que aparecesse uma mentalidade diferente em toda a família Wilson. O meu pai também era um dos que ia para lá estudar.
– O seu avô era branco?
– Branquinho! No meu ginásio, o «Mister Wilson», está a minha fotografia, mas para mim é o meu avô que lá está. Há qualquer coisa muito profunda, com raízes espectaculares. Disso não me livro.
– Que fazia o seu pai?
– Quando regressou da Africa do Sul beneficiou da situação privilegiada que o pai tinha. E instalou-se nas oficinas de electricidade e outras que este já possuía. A minha ida para Coimbra tem muito a ver com esta filosofia familiar, com o sentimento de que era preciso estudar, ter cultura, ser independente.
– Jogou numa filial do Benfica, o Desportivo de Lourenço Marques…
– É daí que aparece a minha tendência benfiquista, mais ainda quando começo a ler uma revista, a Stadium. Nessa revista aparecem fulanos africanos, o Paquete, campeão de 100 metros, o Matos Fernandes, campeão barreirista, o Espírito Santo, que era do salto em altura e da velocidade…Todos eles fizeram aparecer em mim esse primeiro amor.
– Mas vem para o Sporting!
– Eu e o Juca éramos da selecção e gozávamos de ser elementos de eleição. Já aí começa a aparecer o Costa Pereira, no Ferroviário. E há um fulano do Sporting, que tinha a papelaria Progresso, que disse: «Estes dois vão para o meu Sporting». E trouxe-nos. Em Lisboa treinava três vezes por semana e ia estudar ali para os lados dos Olivais. Morava na Praça do Chile. O meu pai, pela formação que tinha, sabia que o futebol era coisa passageira.
– Quantos irmãos tem?
– Comigo somos seis.
– Todos formados?
– Os mais novos é que vieram para Portugal formar-se. Eu, um que é psiquiatra e outro que é radiologista, viajámos para cá e é por causa dos estudos que deixo o Sporting, quando tinha acabado de ser campeão nacional. E vou para a Académica. Em Coimbra instalo-me na «república» onde estava o Almeida Santos, já com o meu irmão lá.
– Em Moçambique era conhecido por Corina!
– Corina! Isso aparece de uma forma curiosa. Quando nasço, entra em voga em Moçambique uma música portuguesa. Ainda hoje a canto: «Corina, Mário morreu»E como tive o nome de Mário, a minha madrinha chamava-me de Corina.
– Ainda o conhecem por Corina?
– Quando dizem Corina sei que estou a falar com um moçambicano. Da velha guarda, pois claro!

Campeão no Sporting

– Não veio contrafeito para o Sporting, rival do seu Benfica?
– Não, porque a minha base era os novos horizontes que Portugal me abria. Mais, vinha para substituir o Peyroteo, um dos cinco violinos. A clubite doentia nunca foi muito apanágio meu. Continuo a ter os meus dois amores (Benfica e Académica), mas libertei-me cedo da forma doentia de sentir e dizer «sou deste e não posso ver os outros».
– A viagem para Portugal levou um mês, não foi?
– Viemos no Mouzinho de Albuquerque, eu e o Juca. O Juca era um bonitão, de uma elegância fantástica, ainda por cima de raça branca. Era um dos engatatões nessa viagem. Nos bailaricos lá estava o Juca. Nós, os africanos de côr, ainda que eu tivesse uma estatura agradável, éramos segregados, punham-nos de parte de forma violenta.
– Chega a Alvalade com 19 anos, para substituir um ídolo, também moçambicano.
– E fui o melhor marcador do Sporting logo no primeiro ano e o segundo melhor do campeonato (o Julinho, do Benfica, ficou em primeiro) e campeão nacional na segunda época. Mas quando apareci, creio que nem fiz os jogos todos, não entrei logo de caras.
– Como é que passou a defesa-central?
O Sporting vai jogar uma Taça Latina e lesiona-se o Passos. Não tinham outro defesa-central, eu até era polivalente e disseram-me: «É menino para fazer o lugar do Passos?» Claro, disse que sim. E aceitei, porque antes, na despedida do Peyroteu, num jogo particular, puseram-me a defesa-central e eu abri o livro. Foi no Sporting que comecei nesse lugar. Quando vou para a Académica já vou com a sensibilidade do lugar. Não estranhei ocupar essa posição.

Na académica com ajuda do ministro

– É verdade que a sua transferência para Coimbra meteu a cunha do ministro da Educação?
– É verdade, em absoluto. Havia a famosa Lei de Opção, mas porque eu era estudante, o ministério abriu um precedente que me beneficiou. Depois apareceram outros jogadores, como o Peres, que se transferiram da mesma forma.
– Em Coimbra começa a viver num ambiente subversivo, contra o regime fascista…
– Antes vivi com o Agostinho Neto, em Lisboa. Tinhamos uma intimidade profunda. Nós, os africanos, não nos libertávamos do espírito de independência. Nessa altura reunia com Agostinho Neto, Mário Miranda, Marcelino dos Santos (que fez atletismo comigo) e outros ligados à Guiné e a Cabo-Verde. Juntávamo-nos na Praça do Chile à 2ª feira, era infalível, e íamos numa romaria até aos Restauradores. Em Coimbra junto-me a Chipenda e ao Araújo. Eles acabam por fazer a sua luta, mas entra em acção a PIDE e são presos. Depois são libertados, um pouco por minha influência. Os da PIDE chamaram-me, porque era o capitão da Académica e disseram-me: «Estes tipos queriam fugir e a gente apanhou-os a caminho da Figueira da Foz. É importante que o Capitão faça com que eles abandonem essa ideia. E diga ao Chipenda, que se quiser, deixamo-lo ir fazer os exames que tem marcados na universidade» E foi mesmo, no Mercedes da PIDE, com chaufer e tudo. Mais tarde dá-se um conflito académico de monta, que origina a paragem do campeonato por uma jornada, como forma de protesto contra a colonização. Surgem os militares e somos chamados à Praça da República para definir a nossa posição. Fui o primeiro a ser ouvido, mais uma vez por ser o capitão. «O senhor joga ou não joga?», perguntaram-me. «Desculpem, mas preciso de falar à parte com os jogadores», respondi. Juntámo-nos todos numa sala e falei: «Temos tempo para as nossas lutas, não vamos suicidar-nos colectivamente. Acho que devemos dizer que vamos jogar. E o Chipenda,o Araújo, o N’dalo França e os demais disseram que sim. Mais tarde fugiram e entraram na luta da independência.
– Em Coimbra passa a ser o Velho Capitão…
– Foi a alcunha que mais perdurou. Porquê? Porque em Coimbra fui o eterno capitão, pela minha postura e maneira de ser. Era capitão na Académica quem tinha as habilitações mais elevadas. Até que apareceu Cândido de Oliveira e o Oscar Tellechea e disseram. «Não, o fulano que tem o perfil de capitão que nós imaginamos é Mário Wilson.» E fui capitão para sempre.
– Conheceu Mestre Cândido. Como era o homem, o treinador?
– Tive um convívio extremamente forte com ele. Foi sempre impecável. Ia para o hotel Astoria, onde vivia e falávamos horas a fio de futebol. Era um homem de grande dignidade, que gostava do bom convívio. Era uma delícia ouvi-lo. E era profundo, humano e inteligente no que defendia. Foi um dos catedráticos do futebol. Havia um grupo de doutores no café Arcádia que requisitava o Cândido e ele presidia a essas reuniões como um autêntico catedrático, com um domínio cultural impressionante sobre tudo o que se passava.
– Iniciou a sua carreira de treinador como adjunto dele, não foi?
– Sim, ainda era jogador, quando fui seu adjunto.
– Em 1963 acaba como jogador. Passa a adjunto de Otto Bumbel, depois de Janos Biri e de Mário Imbelloni e a fechar este ciclo é adjunto de Pedroto.
– Quando o Pedroto sai é que eu assumo o lugar de treinador da Académica. O Pedroto era intratável. Tinha atitudes que roçavam o racismo. Ele queria sempre ser o big boss.
«Pedroto era ele, ele e só ele»
– As grandes lutas Norte-Sul começam entre Pedroto e Wilson. E são lutas duras…
– São, são… Mas em Coimbra eu era o Capitão e os jogadores andavam à minha volta, pouco ligavam ao Pedroto. Eu era o espírito académico, o Pedroto era ganhar, ganhar…tinha uma determinação própria, um pouco a destoar daquele ambiente de Coimbra.
– Pedroto deixa a Académica por dar uma punhada num jornalista de Coimbra, não é?
– Exactamente. Ele foi acumulando pequenos ódios. Tinha coisas tal como o Pinto da Costa, de uma determinação inabalável. Uma das máximas do Pedroto era: «Morrer por morrer, que morra o meu pai, que é mais velho». Isto era Pedroto.
– Ia falar da saída de Pedroto…
– O Porto foi jogar a Coimbra e esse tal jornalista, depois do jogo, escreveu: «Este jogo antes de começar já estava perdido.» O Pedroto não esperou, foi ao café onde se reuniam os teóricos, viu o jornalista e perguntou-lhe: «Foi você que escreveu isto?». – «Fui, porquê?» E Pedroto respondeu-lhe com um soco nos queixos. Isto era Pedroto.

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Jardim Tunduru: a história do pulmão verde de Maputo

Posted in Uncategorized with tags , , , , , , , , , on 31 de Agosto de 2009 by gm54
O arco à entrada do Jardim Tunduru

O arco à entrada do Jardim Tunduru

No lugar agora ocupado por uma imponente estátua de Samora Machel, fundador da República de Moçambique, ergue-se um arco de alvenaria em estilo manuelino construído para comemorar o quarto centenário da morte do navegador português Vasco da Gama assinalado em 1924, data a partir da qual o jardim passou a ter esse nome. Do arco foram removidos as esferas e as cruzes de malta, símbolos do regime colonial português.

Com a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975 o espaço passou a chamar-se JARDIM TUNDURU.

Estátua de Samora Machel, defronte do arco

Estátua de Samora Machel, defronte do arco

Considerado um dos mais belos jardins existentes nas ex-colónias portuguesas, o Tunduru data de 1885.

Tudo começou com um organismo que foi fundado na então Loureço Marques, hoje Maputo, nesse mesmo ano (1885) denominado Sociedade Arboricultura e Floricultura, tendo por objectivo a “Formação de um jardim e arborização do Pântano da vila de Lourenço Marques” que tinha ao tempo nove anos de fundação.

Ex-Lourenço Marques no século XIX

Ex-Lourenço Marques no século XIX

Essa Sociedade teve a sua primeira reunião na histórica Casa Amarela, na altura residência do governador do Distrito no dia 31 de Maio de 1885.

Do encontro foi lavrada uma acta na qual se exarou “tornou a presidência por acordo de todos o Dr. Sousa Teles, servindo de secretário Armando Longle. Exposto os fins da reunião, elegeu-se a mesa definitiva da sua assembleia geral que passou a ter a seguinte constituição: Presidente, Mesquita Pimentel; Vice-presidente, Dr. Sousa Teles. Secretários, Armando Longle e Gonçalves Pereira e Tesoureiro Correia de Oliveira”.

Dessa reunião saiu ainda uma comissão de trabalhos cuja finalidade seria propriamente a “factura do jardim e arborização do Pântano”. Dela passaram a fazer parte por eleição o major Joaquim Lapa, o comerciante Johanes Bang e o Dr. Sousa Teles.

Outros nomes que jogaram papel preponderante para a edificação do Jardim Tunduru: major Joaquim Lapa, Paulino Fornasini, Correia de Oliveira, O. da Silva, Xavier Lobo, Neto de Vasconcelos, Agostinho Pereira, Borges Pinto, Armando Longle, Moura, Pablo Perez, e Gomes Pereira.

A esta sociedade o governo da então Vila de Lourenço Marques fez a entrega, em Novembro desse ano, de “um terreno sito na Machamba dos Soldados e na Machamba do Governador” confrontando “ao norte com a estrada da Ponte Vermelha; Sueste com a vala de esgoto e a Noroeste com a Avenida projectada pela referida Sociedade” numa superfície total de pouco mais de treze hectares para que realizassem os seus fins”.

A 14 de abril de 1886, os idealizadores do espaço dirigiram uma carta ao engenheiro Joaquim José Machado, que se encontrava em Lisboa, pedindo-lhe o envio de plantas e sementes da Europa para o seu jardim.

Nessa carta, diziam que “O Jardim já estava feito no sítio onde existia a Machamba dos Mouros e tem um grande lago ao fundo que dessecou o terreno pantanoso; está todo cercado por fios de arame, com os terrenos do telégrafo, em cima está o “ lawn-tennis” onde jogam os sócios todos os dias”.

Jardim Tunduru nos primórdios

Jardim Tunduru nos primórdios

O entusiasmo dos construtores do jardim foi enaltecido num relatório do governador do Distrito, Azeredo e Vasconcelos, publicado no “boletim Oficial N. 4, de 22 de Janeiro de 1887, onde se pode ler: “A Sociedade de Arboricultura e Floricultura ajardinando uma parte do Pântano e a secção de Obras Públicas plantando de eucaliptos e de outras árvores uma outra, iniciaram um trabalho de que há a esperar os melhores resultados. Os homens a cujos louváveis esforços se deve ao impulso dado num sentido tão útil são: Joaquim José Lapa, Mesquita Pimentel, Dr. Sousa Teles e o chefe da secção de Obras Públicas, Armando Longle”.

Mas não foi preciso muito tempo para se reconhecer que a manutenção de um jardim público era encargo pesadíssimo para uma sociedade particular, por maior que fosse a dedicação dos seus sócios.

É o que se deduz, por exemplo, da seguinte local publicada na edição de 10 de Agosto de 1889 do Jornal “O Distrito de Lourenço Marques”:

…”Daqui a pouco vamos ter aqui uma banda de música, como já anunciamos aos nossos leitores.

Agora perguntamos: Qual é o local que melhor se presta para reunir a nossa sociedade e ouvir as composições dos primeiros maestros que se esperam? O Jardim tem sido muito abandonado, ninguém fez caso dele; e realmente é pena que assim seja, porque é ainda hoje o passeio mais aprazível da cidade.

No coreto, actuam cantores e declama-se poesia

No coreto, actuam cantores e declama-se poesia

O lago transformou-se em tanque, onde os Srs. Indígenas costumam fazer suas Abluções; A fonte faz concorrência à da Avenida D. Carlos e todo o resto está completamente descurado.

E, Contudo, parece-nos que é ali o melhor local para irmos ouvir a banda que se espera.

O Coreto para a música, principiado em tempos não se acabou por falta de meios e está a perder-se.

Lembramos aqui aos Srs. Sócios do Jardim, que é urgente tomar uma resolução qualquer. Se não se acham com força para continuar a Obra. Reunam-se e entreguem tudo à Câmara Municipal como foi determinado pelos estatutos”…

Foi o que veio a acontecer. A Câmara tomou conta do Jardim e meteu ombros aos melhoramentos de que estava carecido para a sua dignidade.

Mas tudo levou o seu tempo a avaliar pela deliberação tomada em sessão de 4 de Agosto de 1897 em que se lê:

“ ..tendo-se notado a afluência que vai tendo o Jardim Municipal que em breve vai ser aberto ao público, que se macadamizem as ruas e se faça a aquisição na Europa de um portão de ferro para a porta do mesmo.”

Corredor no Tunduru

Em 24 de Dezembro de 1924, sendo o Alto Comissário o comandante Victor Hugo de Azeredo Coutinho comemorou-se o quarto centenário da morte de Vasco da Gama, e para assinalar esta data ergueu-se junto do portão principal, o Arco Manuelino.

A fonte que lá estava era idêntica a uma fonte Francesa, exactamente localizada no “Champs Elysèe”

As primeiras cinquenta fontes “Wallace” , iguais à que se ergue no Jardim Tunduru foram oferecidas à cidade de Paris em 1872 por “Sir” Robert Wallace, um grande filantropo Britânico. ”Sir” Robert encomendou o trabalho a um dos mais famosos escultores do seu tempo, Charles Lebourg e este, inspirando-se no Classicismo Grego, apresentou ao milionário o modelo com as cariátides suportando uma graciosa cúpula. Por esse motivo tais fontes são também conhecidas pelo “Templo das Quatro Deusas”.

“Sir” Robert assim que viu, tão entusiasmado ficou com o modelo que mandou que ele fosse imediatamente executado nas famosas fundições “Fonderies d’Art Du Val d’Osne”, de Paris.

O Templo das "Quatro Deusas"

O Templo das "Quatro Deusas"

A fonte existente no nosso Jardim Tunduru tem as seguintes inscrições:

”FONDERIES D”ART DU VAL D’OSNE – 58 Bd.VOLTAIRE – PARIS e “ CH. LEBOURG SC 1872

Constitui ainda um enigma por resolver como e quando a curiosa fonte teria vindo parar a então Lourenço Marques. Uma das mais prováveis hipóteses é que tenha sido oferecida à cidade pelo cidadão francês Eugéne François Tissot que foi concessionário do abastecimento de água à cidade.

Nos anos 50 e 60 do século passado, o Jardim Tunduru foi por várias vezes palco de muitas exposições e constituía um espaço de descanso e meditação para todos os citadinos.

Com a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975 o espaço passou a chamar-se JARDIM TUNDURU. Actualmente, as gigantescas copas das árvores do jardim criam um oásis de sombra e tranquilidade para os trabalhadores e turistas que por ali passam. Foi desenhado em 1885 pelo famoso Arquitecto Paisagista britânico Thomas Honney, o qual chegou também a desenhar alguns jardins para o Sultão da Turquia e para o Rei da Grécia. Para os amantes da Botânica, muitas das árvores encontram-se classificadas com informação sobre as espécies e sua origem. É possível visitar no seu interior uma estufa, infelizmente em mau estado de conservação. Pode-se encontrar também os campos de ténis pertencentes à Federação de Ténis de Moçambique.

Par de namorados trocando promessas

Par de namorados trocando promessas

Fontes : As pedras que já não falam – Alfredo Pereira de Lima, Jojó e JOSE MARIA MESQUITELA

Adaptação de Edmundo Galiza Matos

Enojada com quem criou o concurso

Posted in Direitos Humanos, História with tags , , on 15 de Junho de 2009 by gm54

Slide - Sonson Pierre, de sete anos, na lama que invadiu a sua casa após o furacão Ike no Haiti

Por: Jackie Félix (jaquelina_f@hotmail.com)

Sou Portuguesa com muito orgulho pelo meu país, mas fiquei realmente enojada com quem criou o concurso (pode até parecer uma palavra demasiado forte, mas não é).

Nunca escutei uma palavra sobre as pessoas que realmente construíram alguns daqueles edifícios, nem sobre as muitas vidas envolvidas nesta expansão que levou o Português como língua e cultura aos outros povos e que de alguma forma (diferentemente de outros países que também o tentaram) ainda nos mantêm nas suas próprias culturas.

A maioria das pessoas esquece que o passado colonialista das muitas nações do nosso planeta envolveu escravatura.
Ao longo dos séculos foi assim. Os muitos impérios foram construídos com o sangue dos humanos que perdiam batalhas, que eram raptados ou simplesmente vendidos pelas famílias. Este flagelo não deixou de existir só porque os governos a tornaram proibida e a repudiam. Os chefes de estado que referem, são hipócritas, pois a escravatura ainda faz parte da construção dos respectivos países.

Tenho pena de só hoje ter tido conhecimento da vossa petição, mas mesmo assim digo: Obrigada!

GOVERNO PORTUGUÊS TENTA DISTORCER HISTORIA COLONIAL

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on 5 de Junho de 2009 by gm54
Uma das formas de castigo aos escravos

Uma das formas de castigo aos escravos

Por Paul Fauvet, da AIM

Um número considerável de académicos proeminentes especializados na pesquisa da história dos países africanos de expressão portuguesa e do colonialismo português escreveram uma carta aberta em três línguas, nomeadamente inglês, português e francês, para denunciar a última tentativa do governo deste país europeu de distorcer o passado sangrento da sua expansão colonial em África.

Actualmente, o governo e instituições portuguesas, tais como a Universidade de Coimbra, estão a organizar um concurso internacional designado por “As Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo”.

Estas maravilhas consistem em monumentos construídos em todo o mundo, a maioria dos quais durante o auge do poderio colonial português.

De facto, alguns destes monumentos são impressionantes – mas a nota explicativa trata os mesmos como se não fossem mais do que obras-primas de arquitectura. A partir da literatura que acompanha o concurso ninguém seria capaz de adivinhar que durante muitos séculos vários destes locais desempenharam um papel chave no comércio de escravos através do Oceano Atlântico.

Estimativas indicam que durante o comércio de escravos cerca de 12 milhões de africanos foram raptados e transportados através do Atlântico. Portugal, e a sua antiga colónia, o Brasil, foram responsáveis por pelo menos metade deste número.

O comércio de escravos e’ dos factos mais notáveis da história da expansão colonial portuguesa, mas que foi deliberadamente omitida do concurso “As Sete Maravilhas Portuguesas”.

A carta aberta nota que nas últimas duas décadas “vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o património que lhe é associado”.

Alguns dos países que também praticaram o comércio de escravos, entre as quais se destacam a França, reconhecem a escravatura como tendo sido um crime contra a humanidade, razão pela qual este país europeu adoptou a data 10 de Maio como o “Dia Nacional de Comemoração das Memórias do Tráfico Negreiro, da Escravatura e das suas Abolições”.

O Vaticano, que outrora também foi cúmplice da escravatura, já pediu desculpas pelo papel que desempenhou. Esse pedido de desculpas foi feito publicamente pelo Papa João Paulo II quando, em 1992, visitou a Casa dos Escravos na Ilha de Gorée, ao largo da costa do Senegal.

Igreja do Ibo, construída pelos portugueses em Moçambique. A espada e a religião foram cúmplices na escravatura

Igreja do Ibo, construída pelos portugueses em Moçambique. A espada e a religião foram cúmplices na escravatura

Vários presidentes, cujos países estiveram profundamente comprometidos com o comércio de escravos, incluindo o brasileiro Lula da Silva, e os norte americanos Bill Clinton e George W. Bush, seguiram o exemplo, condenando os malefícios do comércio de escravos e o passado trágico dos seus países.

Em 2007, a Grã-Bretanha comemorou o seu segundo centenário da abolição do comércio de escravos, tendo o então primeiro-ministro, Tony Blair, manifestado o seu pesar pelo papel do seu país na escravidão de muitos africanos.

Portugal, ao invés, refere a carta, está a tentar remar contra a maré do reconhecimento e arrependimento.

A lista das Sete Maravilhas inclui a cidade histórica de Luanda, actual capital de Angola, a Ilha de Moçambique, que foi a primeira capital de Moçambique, Ribeira Grande, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, e o Castelo São Jorge da Mina (também conhecido por Castelo Elmina), no Gana.

Todos estes locais estiveram profundamente envolvidos no comércio de escravos, facto que e’ sistematicamente omitido na literatura do concurso Sete Maravilhas.

A excepção de um único caso: o texto das “Sete Maravilhas” chegou ao cúmulo de afirmar que o Castelo Elmina foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa, em 1637.

Esta parece ser mais uma tentativa de insinuar que apenas os holandeses eram praticantes da escravatura, e não os portugueses.

Contudo, a carta aberta, nota que os portugueses construíram o Castelo Elmina, em 1482. Foi um entreposto de escravos, embora também serviu para o comércio de ouro e de outros produtos. Porém, não existe margem de dúvida de que um grande número de escravos passaram através de Elmina, quando ainda se encontrava sob o controlo dos portugueses, e que acabaram sendo levados para o Brasil.

Fortaleza do IBO: aqui, até 1974 os portugueses mataram e torturam os moçambicanos

Fortaleza do IBO: aqui, até 1974 os portugueses mataram e torturam os moçambicanos

A carta refere que “para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses ‘monumentos’ no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso actual”, (Por exemplo, O Castelo Elmina e’ actualmente um museu que mostra a história da escravatura).

Segundo os signatários da referida carta, o governo português e os organizadores do concurso “ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos”.

“Será possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias europeias?”, questionam os autores da carta aberta.

“Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados”, conclui a carta, descrevendo o concurso como sendo uma tentativa de banalizar e apagar a história “em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta ‘beleza’ arquitectónica de tais sítios de morte e tragédia”.

A carta e’ assinada por várias dezenas de académicos de varias universidades em África, Europa, América do Sul e do Norte.

Por isso, os autores da carta aberta decidiram lançar uma petição “on-line” contra a distorção da história, que toda a gente poderá assinar, e que se encontra disponível no endereço http://www.petitiononline.com/port2009/petition.html.