Archive for the Cinema Category

Longa-metragem ‘A República das Crianças’ de Flora Gomes nasce nas ruas de Maputo

Posted in Cinema, Moçambique, Uncategorized with tags , on 23 de Maio de 2010 by gm54

Flora Gomes dando instruções a um dos jovens actores numa rua da cidade de Maputo

Numa cidade onde todos os adultos foram para a guerra, são as crianças que assumem as funções dos mais velhos, de polícia sinaleiro a deputado, e constroem um mundo novo, de esperança e de sonhos. A cidade existe só na cabeça de Flora Gomes, mas está gradualmente a tomar forma nas ruas da capital moçambicana, onde o realizador guineense está a filmar A República das Crianças, a sua quinta longa-metragem.

O argumento, escrito a meias com um amigo, está pronto há meia dúzia de anos mas só agora começaram as filmagens, depois de escolhidos os nove actores principais entre 600 crianças de Maputo. No meio delas, um adulto, o actor norte americano Danny Glover, de Escape from Alcatraz, Lethal Weapon, Silverado ou, mais recentemente, 2012, onde interpreta o papel de presidente dos Estados Unidos.

“Queria falar um pouco de uma África mais organizada, uma África de esperança. Nos últimos tempos tem havido muitas guerras civis no nosso continente e queria virar as páginas da história, fazer com que pensássemos como um povo livre, que sonha e que constrói um país, para uma nova geração”, conta Flora Gomes. O cineasta resume assim o conteúdo do conto dos meninos que ocuparam a cidade que os adultos abandonaram, que organizaram o sistema de saúde e de educação, e criaram um Parlamento onde o presidente é diferente todos os dias.

Como em filmes anteriores, Flora Gomes escolheu não-profissionais para fazer o filme, onde Danny Glover, o conselheiro da República, é um dos poucos adultos com um papel relevante.

“Gosto dessas aventuras, de trabalhar com crianças, e até adultos, que nunca fizeram cinema. E tem dado resultado”, diz o realizador.

“Não e fácil trabalhar com meninos, mas é apaixonante. Gosto muito. Em todos os meus filmes sempre tenho essa possibilidade de trabalhar com os miúdos que nos dão coisas extraordinárias”, garante Flora Gomes num intervalo das filmagens, quando grandes camiões, projectores, máquinas de filmar e muita confusão deixam de boca aberta dezenas e dezenas de outras crianças, ávidas de ver o “circo” que se monta uma manhã inteira para um minuto de filmagem.

O filme, diz o cineasta guineense, deverá estar pronto no final do ano e a montagem é feita em Portugal, tanto mais que é uma co-produção portuguesa (Tejo Filmes) e francesa (Les Films de l’Après-midi).

Cinema moçambicano: uma merecida homenagem a Camilo de Sousa

Posted in Cinema, Moçambique with tags , on 10 de Fevereiro de 2010 by gm54

Camilo de Sousa, a homenagem que tardava

O cineasta Camilo de Sousa é o próximo homenageado no programa “Noite de Abraços”, numa apresentação a ser feita pelo cineasta e secretário-geral da Associação Moçambicana de Cineastas (AMOCINE), Gabriel Mondlane. O acto terá lugar esta quinta-feira, às 18.00 horas, no espaço do Sheik, onde irá se discorrer sobre vida e obras daquele que é um dos maiores cineastas moçambicanos.

Membro fundador e vice-presidente da Associação Moçambicana de Cineastas, criada em 2003, Camilo de Sousa nasceu em Lourenço Marques a 29 de Maio de 1953, onde fez os estudos secundários.

Em 1968, começou a interessar-se pela fotografia, trabalhando nas Artes Gráficas e, posteriormente, como repórter fotográfico e redactor do diário “O Jornal” publicado na então cidade de Lourenço Marques. Em 1972 refugiou-se na Bélgica, onde obteve o estatuto de refugiado político junto às Nações Unidas (UNHCR).

Em 1973 partiu para a Tanzânia e juntou-se à Frente de Libertação de Moçambique, participando na luta pela Independência de Moçambique.

Depois da proclamação da Independência Nacional em 1975, trabalhou em diversos projectos de carácter social e de comunicação na Província de Cabo Delgado, criando a primeira rede moçambicana de correspondentes populares de informação e levando o cinema móvel a todos os distritos e localidades desta província.

Em 1980, ingressou no Instituto Nacional de Cinema, onde trabalhou até 1991 como realizador, editor, director de produção, produtor e, finalmente, Director Geral de Produção.

Em 1992, com outros profissionais de cinema e comunicação, criou a primeira cooperativa independente de comunicação e produção de imagem, a Coopimagem.

Em 2001, associou-se à Ébano Multimédia, onde tem vindo a desenvolver a actividade de Produtor e Realizador.  É membro fundador e vice-presidente da Associação Moçambicana de Cineastas, criada em 2003.

Ele conta com uma participação em centenas de produções cinematográficas, como produtor, director, realizador, primeiro assistente.

Nas produções cinematográficas que marcaram Moçambique, Camilo de Sousa tem a sua participação, onde, a título de exemplo, se pode citar a sua presença no filme “O Tempo dos Leopardos”, uma longa-metragem de ficção co-produzida por Moçambique e a Jugoslávia.

A sua marca está igualmente presente no filme “O Vento Sopra do Norte”, uma longa-metragem de ficção do cineasta José Cardoso.

A “Noite de Abraços” é um evento cultural que visa criar um espaço para a interacção directa e informal entre personalidades da cultura moçambicana e os seus admiradores, constituindo uma oportunidade para os fazedores culturais trocarem impressões com os seus colegas e admiradores, partilhando caminhos que levem ao desenvolvimento cultural.

ALGUNS DOS VÁRIOS PRÉMIOS COMO PRODUTOR E REALIZADOR

REALIZADOR:

* “Um dia às 7.30 horas” 16mm p/b Moçambique – Melhor Documentário Moçambicano, 1983

* Não Mataram o Sonho de Patrício”, documentário, 16 mm p/b, Moçambique – Prémio do Centre International des Filmes pour les Enfants e la Jeunesse (Paris)

* “Ondas Comunitárias”, documentário, Betacam SP, Moçambique -Adquirido pelo CFI (França) foi difundido por toda África e em alguns países europeus em português, inglês e francês através da TV5

* “JUNOD”, documentário, Betacam SP, Moçambique – Prémio FUNDAC Kuxa-Kanema para o melhor filme moçambicano 2006

PRODUTOR:

* “Sonhos Guardados” (de Isabel Noronha) docu-drama, Moçambique * Melhor Documentário no Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa – Cataguazes, Brasil, 2005

* Prémio Instituto Camões – FIKE – Festival Internacional de Évora (Portugal) 2005

* Prémio FUNDAC Kuxa-Kanema para o melhor filme moçambicano 2005

* “Acampamento de Desminagem” (Licinio Azevedo) documentário Moçambique

* Prémio no Festival Internacional de Milano para o Melhor Documentário

* “O Grande Bazar” (Licinio Azevedo) ficção, Moçambique – FIPA de Prata (Biarritz França) 2006

* “Hósdedes da Noite” (Licinio Azevedo) docu-drama, Moçambique – FIPA de Ouro (Biarritz França) 2007

* “Ngwenya, o crocodilo” (Isabel Noronha) docu-drama, Moçambique

* Festival de Milano – Melhor documentário de África, Ásia e América Latina

* “Trilogia das Novas Famílias” (Isabel Noronha) docu-drama Moçambique – FDC

* Prémio FUNDAC Kuxa-Kanema para o melhor filme moçambicano 2007

* “Mãe dos Netos” Isabel Noronha e Vivian Altman – Animação Moçambique – FDC

* Seleccionado para vários festivais internacionais, especializados em animação, que tiveram lugar em 2009.

Filme “A Ilha dos Espíritos” apresentado na sede da UNESCO em Paris

Posted in Africa, Cinema, História with tags , , , on 14 de Outubro de 2009 by gm54
A película aborda a história da Ilha de Moçambique, que muito antes de dar o nome ao país, durante séculos, teve um papel fundamental no Oceano Índico, como ponto de escala para navegadores do Oriente e do Ocidente que procuravam alargar as fronteiras do mundo

A película aborda a história da Ilha de Moçambique, que muito antes de dar o nome ao país, durante séculos, teve um papel fundamental no Oceano Índico, como ponto de escala para navegadores do Oriente e do Ocidente que procuravam alargar as fronteiras do mundo

O filme moçambicano, “A Ilha dos Espíritos”, sobre a Ilha de Moçambique, foi projectado para um auditório constituído pelos participantes da 35ª. Conferência Geral da Organização para a Educação, Ciência e Cultura das Nações Unidas (UNESCO), que decorreu na sua sede, Paris, semana passada. A projecção fez parte de uma sessão especial sobre Moçambique, que teve como tema a “Diversidade Cultural e Desenvolvimento Sustentável”.

“A Ilha dos Espíritos”, um documentário de 63 minutos, foi realizado por Licínio de Azevedo e co-produzido pela Ebano Multimédia e Technoserve. Foi estreiado durante o IV Dockanema, Festival do Filme Documentário, que decorreu em Maputo de 11 a 20 de setembro último.

A película aborda a história da Ilha de Moçambique, que muito antes de dar o nome ao país, durante séculos, teve um papel fundamental no Oceano Índico, como ponto de escala para navegadores do Oriente e do Ocidente que procuravam alargar as fronteiras do mundo conhecido até então. Nela (película) intervêem um historiador especializado na ilha e um arqueólogo marítimo que traz à superfície tesouros há muito perdidos em naufrágios.

O quotodiano dos habitantes da Ilha de Moçambique, actividades, hábitos, cultura, é nos dado a conhecer por inúmeros outros personagens: um pescador que relata as aventuras na sua frágil embarcação; o “porteiro” da ilha que controla quem entra e sai dela pela ponte que a liga ao continente; uma famosa dançarina e animadora cultural; uma coleccionadora de capulanas e jóias antigas; uma conhecedora dos seres mágicos que povoam o imaginário colectivo dos ilheus.

Africanos contam as suas próprias histórias em festival de cinema

Posted in Cinema with tags , , , on 18 de Maio de 2009 by gm54
Mahen Bonetti - "Dispensamos ajuda de fora no cinema"

Mahen Bonetti - "Dispensamos ajuda de fora no cinema"

Incentivados por equipamentos de vídeo de baixo custo, jovens africanos vêm infundindo ao cinema do continente um ânimo que não era visto desde os movimentos independentes dos anos 1960, diz a directora do Festival de Cinema Africano de Nova Iorque.

Mahen Bonetti disse que o crescimento do cinema africano, inspirado pelo sucesso da florescente indústria do cinema da Nigéria, conhecida como “Nollywood”, está a permitir a países como Quênia, Etiópia e Ruanda a dar um impulso nos seus próprios sectores do cinema.

A indústria do cinema da Nigéria movimenta 450 milhões de dólares e é a terceira maior do mundo, depois de Hollywood e de Bollywood, esta última da Índia.

O festival, que terá lugar entre 22 e 25 de maio na Brooklyn Academy of Music, vai exibir filmes feitos em todo o continente africano.

A edição deste ano do festival inclui “In My Genes”, da cineasta queniana Lupita Nyongo, sobre o estigma que cerca o albinismo, e “Paris or Nothing”, da directora camaronesa Josephine Ndagnou, sobre uma jovem que se muda para Paris.

Quatro curtas-metragens de membros da colectiva “Cineastas Contra o Racismo” exploram a violência xenófoba que explodiu na África do Sul no verão passado.

“É um renascimento”, disse Bonetti, 52 anos. “Estes jovens cineastas podem comprar o seu próprio computador, até mesmo a sua própria câmera. E podem até editar os seus filmes em casa, em África. Isso tem lhes dado muita autonomia”.

Enquanto vários directores africanos são amplamente conhecidos – entre eles se destaca o falecido Ousmane Sembene, do Senegal, visto como o pai do cinema africano, Bonetti diz que a maioria dos filmes feitos sobre o continente até hoje repetiu estereótipos.

Os cineastas africanos vêm tendo dificuldade em ampliar o sucesso de Sembene, que começou em meados dos anos 1960, em parte porque as guerras civis e a turbulência ceifaram o florescimento cultural que acompanhou o fim dos governos coloniais, disse Bonetti.

Os directores africanos dependem em grande medida de financiadores europeus para fazer os seus filmes, disse ela, facto que limitava o que eles podiam produzir. Mas a chegada de equipamentos de baixo custo e de softwares de edição amplamente disponíveis mudou esta situação.

“Esse fenômeno do vídeo é, em certo sentido, a resposta para a própria indústria do cinema”, afirmou Bonetti. “Essa produção de vídeos caseiros virou um modelo para a criação de vários países, dando um incentivo grande a seus cinemas. Não precisamos mais buscar ajuda de fora”.

Bonetti, que cresceu em Serra Leoa nos anos 1960, descreve-se como tendo ficado “congelada” nessa época. Os seus pais eram activos na política, e, após a independência, em 1961, o seu tio Milton Margai foi o primeiro primeiro-ministro do país.

Bonetti deixou Serra Leoa e, em 1980, acabou seguindo dois de seus irmãos, fixando-se em Nova Iorque.

“Quem quer ser Bilionário?” é o Melhor Filme e o grande vencedor da noite dos Óscares

Posted in Óscares, Cinema with tags , , , , on 23 de Fevereiro de 2009 by gm54
8 estatuetas para "Quem Quer Ser Bilionário"

8 estatuetas para "Quem Quer Ser Bilionário"

Quem quer ser Bilionário?” conquistou o Óscar de Melhor Filme, terminando a noite da 81.ª edição dos prémios da Academia como a película mais premiada, com oito estatuetas douradas, entre as quais a de Melhor Realizador (Danny Boyle) e Melhor Argumento Adaptado. Sean Penn, Kate Winslet, Penélope Cruz e o falecido Heath Ledger levaram os prémios de interpretação.

A história de um rapaz dos bairros de lata de Mumbai que ganha um prémio milionário num concurso de televisão conquistou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, deixando de fora dos principais prémios o recordista das nomeações do ano “O Estranho Caso de Benjamin Button” (13), que conquistou apenas três estatuetas, todos em categorias técnicas (caracterização, efeitos visuais e direcção artística).

“Quem quer ser Bilionário” venceu ainda nas categorias de Melhor Fotografia, Som, Montagem, Banda Sonora Original e Canção Original.

O segundo filme a receber mais estatuetas foi “O Estranho Caso de Benjamin Button”, que levou para casa três prémios, os relativos a Melhor Cenografia, Maquilhagem e Efeitos Visuais. A película protagonizada por Brad Pitt, que saiu derrotado na categoria de Melhor Actor, tinha o maior número de nomeações, 13 no total.

Numa cerimónia apresentada por Hugh Jackman, que rompeu com uma longa tradição de serem comediantes a desempenharem esse papel, “Bilionário” confirmou no Kodak Theatre em absoluto o seu favoritismo, tal como Kate Winslet, que com o seu papel de freira em “O Leitor” conquistou o seu primeiro Óscar, apenas à sua sexta nomeação, derrotando, entre outras, Meryl Streep que, com “Dúvida”, somava este ano a sua 15ª nomeação.

Menos esperado foi o triunfo de Sean Penn, que foi considerado o melhor actor por “Milk”, em prejuízo de Mickey Rourke, que era o grande favorito entre os nomeados pelo seu “comeback” como lutador envelhecido em “O Wrestler”.

O momento mais emotivo da noite aconteceu com a entrega do Óscar de melhor actor secundário a Heath Ledger, falecido há pouco mais de um ano com overdose de medicamentos, pelo seu Joker de “O Cavaleiro das Trevas”. Ledger foi o segundo a receber um Óscar póstumo de interpretação, depois de Peter Finch, considerado o melhor actor de 1976 em “Escândalo na TV” dois meses depois da sua morte. A receber o prémio em nome de Heath Ledger esteve o seu pai, Kim.

Penélope Cruz, por “Vicky Christina Barcelona”, triunfou na categoria de melhor actriz secundária.

A película “Departure” (Japão) foi distinguida com o Óscar para melhor filme em língua estrangeira.

Poucos americanos entre os vencedores

Foram 24 os prémios atribuídos, mas poucos foram para norte-americanos. Os quatro prémios de interpretação foram para actores de quatro nacionalidades diferentes e apenas um foi norte-americano, Sean Penn (melhor actor). Os outros foram para uma inglesa (Kate Winslet, “O Leitor”, uma espanhola (Penélope Cruz, “Vicky Christina Barcelona”) e um australiano (Heath Ledger, “O Cavaleiro das Trevas”).

Nas outras categorias principais, o melhor filme “Quem quer ser Bilionário” é uma produção inglesa, e o seu realizador (Boyle) e argumentista (Simon Beaufoy) também britânicos. Quanto ao melhor argumento original, o Óscar foi para um norte-americano, Dustin Lance Black, por “Milk”.

Lista completa dos vencedores nas 24 categorias


Actriz secundária: PENELOPE CRUZ, VICKY CRISTINA BARCELONA

Argumento original: DUSTIN LANCE BLACK, MILK

Argumento adaptado: SIMON BEAUFOY, QUEM QUER SER BILIONÁRIO?

Longa-metragem de animação: WALL-E

Curta-metragem de animação: LA MAISON EN PETITS CUBES

Cenografia: O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Figurinos: A DUQUESA

Maquilhagem: O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Fotografia: ANTHONY DOD MANTLE, QUEM QUER SER BILIONÁRIO?

Curta-metragem: THE PIG

Actor secundário: HEATH LEDGER, O CAVALEIRO DAS TREVAS

Documentário de longa-metragem: HOMEM NO ARAME

Documentário de curta-metragem: SMILE PINKY

Efeitos Visuais: O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Efeitos Sonoros: O CAVALEIRO DAS TREVAS

Som: QUEM QUER SER BILIONÁRIO?

Montagem: QUEM QUER SER BILIONÁRIO?

Banda Sonora Original: QUEM QUER SER BILIONÁRIO?

Sean Penn se supera em “Milk” , o melhor filme da temporada

Posted in Óscares, Cinema, Comportamento with tags , , , , on 19 de Fevereiro de 2009 by gm54
Penn conquistou a sua quinta indicação ao Oscar

Penn conquistou a sua quinta indicação ao Oscar

Por A. O. Scott – Uma das primeiras cenas do filme “Milk” mostra uma paquera numa estação do metro nova-iorquino. É o ano de 1970, e um executivo da área de seguros, vestido de fato e gravata, avista um homem mais jovem em roupas surradas – a expressão “hippie com cara de anjo”, alusiva a Jack Kerouak,  surge na sua mente – e o provoca com um gracejo ao subir as escadas. O clima é sexy e descontraído e a cena acaba com os dois homens comendo um bolo de aniversário na cama.

O tom de brincadeira provocativa do momento é, de certa forma, afável, dadas as expectativas de um filme sério e importante baseado em factos históricos. Com direcção de Gus Van Sant e roteiro de Dustin Lance Black, “Milk” certamente é este tipo de filme, porém consegue fugir de muitas das armadilhas presentes em outros filmes que retratam a época, graças ao encanto e à tenacidade do seu personagem título.

Harvey Milk (interpretado por Sean Penn), um activista de bairro que acaba por ingressar na carreira política em San Francisco em 1977, é assassinado juntamente com o então prefeito da cidade, George Moscone (Victor Garber), por um ex-inspector chamado Dan White (Josh Brolin) no ano seguinte. Apesar da modéstia do seu cargo e do trágico encurtamento do seu mandato, Milk, um dos primeiros políticos a assumir a homossexualidade nos Estados Unidos, teve um impacto profundo na política nacional e influenciou a cultura do país, confirmando assim o seu status de pioneiro e mártir.

A sua curta carreira inspirou uma ópera de Stewart Wallace, um excelente documentário (“The Times of Harvey Milk”, de Rob Epstein, 1984) e agora o longa-metragem “Milk”,o melhor filme americano do circuito comercial que vi este ano. A propósito, não estou a jogar confete nesta produção, embora 2008 tenha sido um ano bastante medíocre para Hollywood. “Milk” é um filme acessível e instrutivo, uma crônica ardilosa sobre a política de cidade grande e o retrato de um guerreiro cuja paixão se equiparava à sua generosidade e ao seu bom humor. Sean Penn, actor de intensidade emocional e disciplina física incomparáveis, consegue se superar neste filme, interpretando um papel diferente de todos que já fez anteriormente.

É muito mais uma questão de temperamento do que de sexualidade: um actor heterossexual no papel de um homossexual não é mais nenhuma novidade. Bem diferente do seu personagem em “Sobre Meninos e Lobos” (Clint Eastwood), o ex-condenado Jimmy Markum, Harvey Milk é extrovertido e irônico, um homem cuja auto-imagem expansiva e às vezes até piegas camufla uma mente incisiva e uma vontade ferozmente obstinada. Sem fazer esforço, Senn consegue capturar tudo isso através da sua voz e gestual. Porém, o mais impressionante é a maneira como o actor consegue transmitir o princípio essencial da afabilidade de Milk, uma virtude pessoal que também funciona como princípio político.

Isso não quer dizer que “Milk” seja um daqueles filmes fáceis, que nos fazem sair do cinema com uma sensação boa, tampouco que o seu herói seja um tímido santo liberal. O filme traz uma raiva justificada e também um lirismo melancólico surpreendente. Van Sant sempre praticou um tipo de romantismo desinteressado, deixando as suas histórias se desenrolarem de maneira prosaica, ao mesmo tempo em que vai introduzindo toques de beleza melancólica (neste filme ele é ajudado pela musicalidade elegante de Danny Elfman e pela fotografia expressiva de Harris Savides, cujas habilidades de enquadramento e foco poderiam ser chamadas de carinho).

Nos anos posteriores a “Encontrando Forrester” (2000), Van Sant se dedicou a projectos menores, alguns deles (como o filme “Elefante”, vencedor da Palma de Ouro) com actores amadores, e nenhum deles com a preocupação de atender a aprovação do público de massa. “Uma Voz nas Sombras”, “Elefante”, “Últimos Dias” e “Paranoid Park” são ligados pelo espírito de exploração formal – elementos do estilo experimental de Van Sant incluem tomadas longas, narrativas fragmentadas e evasivas e uma maneira de compor as cenas enfatizando a textura visual e auricular sobre a exposição dramática convencional – além de uma preocupação com a morte.

James Franco forma par com Sean Penn em "Milk"

James Franco forma par com Sean Penn em "Milk"

Como nos filmes “Elefante” (inspirado no massacre ocorrido na escola Columbine High) e “Últimos Dias” (inspirado no suicídio de Kurt Cobain), “Milk” é a crônica da morte anunciada. Antes daquele encontro na estação de metro, já vimos vídeos reais a mostrar as consequências do assassinato de Milk, bem como fotos de homossexuais sendo detidos pela polícia. Estas imagens não estragam a intimidade entre Harvey, o executivo engomadinho, e Scott Smith (James Franco), o hippie com quem passa a ter um relacionamento marital e se torna o seu principal assessor de campanha. Ao invés disso, o constante risco de assédio, humilhação e violência é o contexto que define tal intimidade.

E a sua recusa em aceitar isso como um facto da vida, a sua insistência em ser quem ele é sem segredos ou vergonha, é o que faz o Milk boêmio, dono de uma loja de artigos fotográficos, transformar-se (depois de deixar Nova York e o segmento de seguros) num líder político.

Cinema biográfico, de política a sexo

“Meu nome é Harvey Milk e eu quero recrutá-lo”. Era com esta frase que Milk geralmente começava as suas palestras para quebrar a tensão entre o público hetero, mas o filme mostra-o apresentando a mesma introdução também para multidões dominantemente homossexuais, com uma inflexão ligeiramente diferente. Ele quer recrutá-los para a política democrática, para persuadi-los de que o estigma e a discriminação com os quais estão acostumados a aguentar em silêncio, e até mesmo com culpa, podem sem abordados através do voto, através da demonstração, através da reivindicação da parcela de poder que é de direito e responsabilidade de todo cidadão.

O roteiro de Black é forte por conseguir captar tanto o radicalismo da ambição política de Milk quanto o pragmatismo dos seus métodos. Para Milk, a política moderna prospera na intersecção confusa e muitas vezes gloriosa dos interesses sujos e dos ideais nobres. Pouco depois de mudar-se com Scott de Nova York para o bairro de Castro, em São Francisco, Milk começa a organizar os residentes gays da vizinhança, procurando aliados entre empresários, sindicatos e outros grupos.

A elite gay da cidade, incomodada por suas tácticas de confronto, o mantém à distância, deixando para ele a função de construir um movimento desde a base, com a ajuda de um jovem demagogo e um ex-michê chamado Cleve Jones (Emile Hirsch).

Por mais de duas horas intensas e animadas, Milk age de acordo com muitas das convenções do cinema biográfico, mesmo que nem sempre com os detalhes precisos da biografia do herói. O incansável comprometimento político de Milk acaba afectando os seus relacionamentos, primeiramente com Scott e depois com Jack Lira – um jovem instável e impulsivo vivido por Diego Luna com um entusiasmo lírico.

Filme retrata engajamento em São Francisco na década de 1970

Filme retrata engajamento em São Francisco na década de 1970

Entretanto, questões relativas à cidade de São Francisco são ofuscadas por um referendo estatal em prol dos direitos anti-gay e da cruzada nacional para derrubar leis municipais anti-discriminatórias, liderada pela garota propaganda dos comerciais de sumo de laranja Anita Bryant. É o desabrochar da guerra cultural, e Milk encontra-se no meio do campo de batalha (assim como 30 anos depois, no encalço da “Proposition 8”, referendo que eliminou o direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia).

O filme “Milk” é uma fascinante lição de história cheia de nuances. Guardadas as proporções e variedades visuais, ao assisti-lo temos a impressão de ver um filme de Oliver Stone um pouco mais calmo, sem as hipérboles e melodramas edipianos. Porém, também é um filme que se assemelha a outros trabalhos recentes de Van Sant – e, curiosamente, também ao filme “Zodíaco”, de David Fincher, que gira em torno de outro facto ocorrido em São Francisco nos anos 70 – ao respeitar os limites da explanação psicológica e sociológica.

Dan White, antigo colega de Milk e o seu eventual assassino, assombra o filme representando tanto a banalidade quanto o enigma da maldade. Brolin o faz parecer ao mesmo tempo desprezível e assustador, sem fazê-lo parecido com um monstro ou com um palhaço. Motivos para o crime de White são sugeridos no filme, mas um relato claro demais dos mesmos poderia distorcer a terrível veracidade da estória, minando assim a força do filme.

Esta força encontra-se no seu estranho equilíbrio entre proporção e matiz, na sua habilidade de abordar praticamente tudo – amor, morte, política, sexo, modernidade – sem perder de vista as particularidades íntimas da sua história. Harvey Milk foi uma figura intrigante e inspiradora. “Milk” é um filme genial.

Estátuas gigantes do Oscar chegam a NY para cerimônia paralela

Posted in Óscares, Cinema with tags on 19 de Fevereiro de 2009 by gm54
éplicas com 2,5 metros de altura

éplicas com 2,5 metros de altura

Duas estátuas gigantes que representam as estatuetas do Oscar chegaram nesta quarta-feira, 18, a Nova York, onde ocorrerá uma cerimônia paralela à festa oficial no Teatro Kodak de Los Angeles para os membros da Academia que estiverem na costa leste americana.

A três vezes vencedora do Emmy Elaine Stritch recebeu as estátuas de 2,5 metros de altura cada, que percorreram as ruas nova-iorquinas num caminão antes de chegar ao hotel onde a cerimônia será realizada.

A Academia das Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos realiza desde 1990 uma cerimônia em Nova York, que reúne vários membros da instituição, muitos deles vencedores e indicados à estatueta.

A 81ª edição da premiação ocorrerá no dia 22 de fevereiro no Teatro Kodak de Los Angeles.