Arquivo de Escravatura

Enojada com quem criou o concurso

Posted in Direitos Humanos, História with tags , , on 15 de Junho de 2009 by gm54

Slide - Sonson Pierre, de sete anos, na lama que invadiu a sua casa após o furacão Ike no Haiti

Por: Jackie Félix (jaquelina_f@hotmail.com)

Sou Portuguesa com muito orgulho pelo meu país, mas fiquei realmente enojada com quem criou o concurso (pode até parecer uma palavra demasiado forte, mas não é).

Nunca escutei uma palavra sobre as pessoas que realmente construíram alguns daqueles edifícios, nem sobre as muitas vidas envolvidas nesta expansão que levou o Português como língua e cultura aos outros povos e que de alguma forma (diferentemente de outros países que também o tentaram) ainda nos mantêm nas suas próprias culturas.

A maioria das pessoas esquece que o passado colonialista das muitas nações do nosso planeta envolveu escravatura.
Ao longo dos séculos foi assim. Os muitos impérios foram construídos com o sangue dos humanos que perdiam batalhas, que eram raptados ou simplesmente vendidos pelas famílias. Este flagelo não deixou de existir só porque os governos a tornaram proibida e a repudiam. Os chefes de estado que referem, são hipócritas, pois a escravatura ainda faz parte da construção dos respectivos países.

Tenho pena de só hoje ter tido conhecimento da vossa petição, mas mesmo assim digo: Obrigada!

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Sete Maravilhas: Polémica chega a Maputo

Posted in Arquitectura, História, Moçambique, Portugal with tags , , , on 6 de Junho de 2009 by gm54
Igreja na Ilha de Moçambique, uma das "Sete Maravilhas"

Igreja na Ilha de Moçambique, uma das "Sete Maravilhas"

A polémica sobre “As Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo” chegou também a Moçambique, com acusações de “distorção da história colonial”, embora haja quem considere “empolada” a contestação.

“As Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo”, um concurso promovido por instituições portuguesas, nomeadamente pela televisão pública RTP, pretende a selecção, através de votação por internet, de sete dos lugares mais emblemáticos construídos durante o império colonial português.

Esta semana, um grupo de académicos de vários países do mundo criticou numa carta aberta os promotores do evento por considerarem que “distorcerem o passado sangrento da sua expansão colonial em África”.

Em Moçambique, “representado” no concurso pela Ilha de Moçambique, o diário de maior circulação do país, o Notícias, dedicou esta semana toda a página dois do seu suplemento cultural ao concurso, mas é na segunda coluna desse espaço que escreve: “Escravatura – Vergonha que Portugal prefere contornar”.

Citando a referida carta aberta, o jornalista Paul Fauvet, autor do texto inserido no Notícias, diz que “o Governo português e os organizadores do concurso ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos”.

“Será possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória de imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias europeias?”, questiona o Notícias, com base na carta.

Em declarações à Lusa, o director do Arquivo Histórico de Moçambique e docente de História na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Joel das Neves, considerou “empoladas as críticas a essa iniciativa”, salientando que o concurso “assenta num contexto de valorização do património arquitectónico ligado a Portugal”.

“Se o argumento de que exaltar o aspecto arquitectónico dos monumentos é faltar ao respeito da memória dos que foram escravizados na edificação desse património, ainda se irá criticar a UNESCO por considerar a Ilha de Moçambique um património da humanidade”, observou Joel das Neves.

O director do Arquivo Histórico de Moçambique referiu ainda que “alguns dos monumentos que são o orgulho do Moçambique – pós independência foram edificados no contexto da dominação colonial portuguesa”.

“Compreendo a animosidade, mas a minha opinião é a de que se está a distorcer o espírito da iniciativa”, enfatizou Joel das Neves.

GOVERNO PORTUGUÊS TENTA DISTORCER HISTORIA COLONIAL

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on 5 de Junho de 2009 by gm54
Uma das formas de castigo aos escravos

Uma das formas de castigo aos escravos

Por Paul Fauvet, da AIM

Um número considerável de académicos proeminentes especializados na pesquisa da história dos países africanos de expressão portuguesa e do colonialismo português escreveram uma carta aberta em três línguas, nomeadamente inglês, português e francês, para denunciar a última tentativa do governo deste país europeu de distorcer o passado sangrento da sua expansão colonial em África.

Actualmente, o governo e instituições portuguesas, tais como a Universidade de Coimbra, estão a organizar um concurso internacional designado por “As Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo”.

Estas maravilhas consistem em monumentos construídos em todo o mundo, a maioria dos quais durante o auge do poderio colonial português.

De facto, alguns destes monumentos são impressionantes – mas a nota explicativa trata os mesmos como se não fossem mais do que obras-primas de arquitectura. A partir da literatura que acompanha o concurso ninguém seria capaz de adivinhar que durante muitos séculos vários destes locais desempenharam um papel chave no comércio de escravos através do Oceano Atlântico.

Estimativas indicam que durante o comércio de escravos cerca de 12 milhões de africanos foram raptados e transportados através do Atlântico. Portugal, e a sua antiga colónia, o Brasil, foram responsáveis por pelo menos metade deste número.

O comércio de escravos e’ dos factos mais notáveis da história da expansão colonial portuguesa, mas que foi deliberadamente omitida do concurso “As Sete Maravilhas Portuguesas”.

A carta aberta nota que nas últimas duas décadas “vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o património que lhe é associado”.

Alguns dos países que também praticaram o comércio de escravos, entre as quais se destacam a França, reconhecem a escravatura como tendo sido um crime contra a humanidade, razão pela qual este país europeu adoptou a data 10 de Maio como o “Dia Nacional de Comemoração das Memórias do Tráfico Negreiro, da Escravatura e das suas Abolições”.

O Vaticano, que outrora também foi cúmplice da escravatura, já pediu desculpas pelo papel que desempenhou. Esse pedido de desculpas foi feito publicamente pelo Papa João Paulo II quando, em 1992, visitou a Casa dos Escravos na Ilha de Gorée, ao largo da costa do Senegal.

Igreja do Ibo, construída pelos portugueses em Moçambique. A espada e a religião foram cúmplices na escravatura

Igreja do Ibo, construída pelos portugueses em Moçambique. A espada e a religião foram cúmplices na escravatura

Vários presidentes, cujos países estiveram profundamente comprometidos com o comércio de escravos, incluindo o brasileiro Lula da Silva, e os norte americanos Bill Clinton e George W. Bush, seguiram o exemplo, condenando os malefícios do comércio de escravos e o passado trágico dos seus países.

Em 2007, a Grã-Bretanha comemorou o seu segundo centenário da abolição do comércio de escravos, tendo o então primeiro-ministro, Tony Blair, manifestado o seu pesar pelo papel do seu país na escravidão de muitos africanos.

Portugal, ao invés, refere a carta, está a tentar remar contra a maré do reconhecimento e arrependimento.

A lista das Sete Maravilhas inclui a cidade histórica de Luanda, actual capital de Angola, a Ilha de Moçambique, que foi a primeira capital de Moçambique, Ribeira Grande, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, e o Castelo São Jorge da Mina (também conhecido por Castelo Elmina), no Gana.

Todos estes locais estiveram profundamente envolvidos no comércio de escravos, facto que e’ sistematicamente omitido na literatura do concurso Sete Maravilhas.

A excepção de um único caso: o texto das “Sete Maravilhas” chegou ao cúmulo de afirmar que o Castelo Elmina foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa, em 1637.

Esta parece ser mais uma tentativa de insinuar que apenas os holandeses eram praticantes da escravatura, e não os portugueses.

Contudo, a carta aberta, nota que os portugueses construíram o Castelo Elmina, em 1482. Foi um entreposto de escravos, embora também serviu para o comércio de ouro e de outros produtos. Porém, não existe margem de dúvida de que um grande número de escravos passaram através de Elmina, quando ainda se encontrava sob o controlo dos portugueses, e que acabaram sendo levados para o Brasil.

Fortaleza do IBO: aqui, até 1974 os portugueses mataram e torturam os moçambicanos

Fortaleza do IBO: aqui, até 1974 os portugueses mataram e torturam os moçambicanos

A carta refere que “para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses ‘monumentos’ no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso actual”, (Por exemplo, O Castelo Elmina e’ actualmente um museu que mostra a história da escravatura).

Segundo os signatários da referida carta, o governo português e os organizadores do concurso “ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos”.

“Será possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm, no presente, enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias europeias?”, questionam os autores da carta aberta.

“Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados”, conclui a carta, descrevendo o concurso como sendo uma tentativa de banalizar e apagar a história “em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta ‘beleza’ arquitectónica de tais sítios de morte e tragédia”.

A carta e’ assinada por várias dezenas de académicos de varias universidades em África, Europa, América do Sul e do Norte.

Por isso, os autores da carta aberta decidiram lançar uma petição “on-line” contra a distorção da história, que toda a gente poderá assinar, e que se encontra disponível no endereço http://www.petitiononline.com/port2009/petition.html.

David Adjaye vai projectar museu afro-americano em Washington

Posted in Uncategorized with tags , , , on 16 de Abril de 2009 by gm54

Adjaye: o espírito do museu é de "louvor"

Adjaye: o espírito do museu é de "louvor"

A ideia tem um século, mas parece finalmente em vias de se concretizar: uma equipa liderada pelo arquitecto britânico de origem tanzaniana David Adjaye foi a escolhida para projectar o novo Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, que deverá abrir em Washington em 2015, anunciou hoje a Smithsonian Institution.

Adjaye descreveu o museu de Washington como o sonho da sua carreira. O edifício deverá custar 500 milhões de dólares, será construído no National Mall (o parque que vai do Capitólio ao Monumento de Washington, e onde já existem vários museus importantes), e o início das obras está previsto para 2012.

Desde 1900 que os americanos discutiam a construção de um museu para contar história dos negros, mas, lembra o “The New York Times”, a ideia sofreu uma forte oposição até à década de 90 do século passado. Um dos principais opositores foi o senador republicano Jesse Helms, da Carolina do Norte, que em 1994 travou a aprovação do museu numa votação no Senado.

Aprovado finalmente em 2003, o museu já começou a funcionar, mesmo sem edifício, reunindo peças para a sua colecção – entre os objectos que serão expostos inclui-se uma cabana de escravo, vestígios de um velho barco de transporte de escravos, um eléctrico do Tennessee dos tempos da segregação, e um aparelho dos Tuskegee Airman, os pilotos negros que escoltavam os bombardeiros americanos sobre a Europa na II Guerra Mundial, explicou à AFP o director, Lonnie Bunch.

O projecto da equipa de David Adjaye (Freelon Adjaye Bond/Smith Group) foi escolhido entre seis apresentados a concurso, alguns de arquitectos muito conhecidos como Norman Foster e Diller Scofidio+Renfro.

Trata-se, na descrição da AFP, de um grande edifício cúbico com os vidros tingidos por uma película de bronze. O “New York Times” acrescenta outros pormenores: é uma espécie de colina dominada por uma estrutura em dois andares à qual o arquitecto chama “coroa de celebração”. Segundo Adjaye, o espírito do edifício será “de louvor”.