Arquivo de Mafia

Cinema: O eterno fascínio dos filmes de ‘gangsters’

Posted in Uncategorized with tags , , , on 6 de Agosto de 2009 by gm54

O filme “Inimigos Públicos”, é o mais recente de Michael Mann, que apresenta Johny Depp a recriar a figura de John Dillinger, um dos mais célebres ‘gangsters’ da América dos anos 30. O filme reflecte uma vez mais uma antiga atracção do cinema norte-americano por este universo.

Padrinho_b1

Quando John Dillinger foi morto pelo FBI em Chicago, a 22 de Julho de 1934, à saída do Biograph Theater, tinha acabado de ver Manhattan Melodrama, um filme de gangsters com Clark Gable, William Powell e Myrna Loy. Ou seja, tinha estado a entreter-se com uma encenação cinematográfica da sua actividade, mas por razões óbvias, nunca ninguém chegou a saber o que Dillinger achou do filme.
Na sua crítica no The New York Times a Inimigos Públicos, de Michael Mann, Manohla Dargis refere o “perene romance” que o cinema americano tem com os “criminosos de época”. E apesar de ultimamente, Hollywood não ter sido muito fiel a essa relação (o último filme de gangsters de nota foi Os Intocáveis, de Brian De Palma), ainda a Lei Seca estava em vigor e muitos dos mais temidos nomes do crime estavam vivos e em actividade.
Alguns dos melhores desses filmes continuam a ser os primeiros, quer pelo talento dos seus realizadores e argumentistas e pelo carisma imperecível dos seus actores, quer por um realismo directamente bebido nos acontecimentos e nas figuras retratadas. É o caso de O Pequeno César, de Mervyn Le Roy (1931), com Edward G. Robinson; de O Inimigo Público, de William Wellman (1931), tão popular na altura que chegou a passar em sessões contínuas, com James Cagney no papel que o lançou e instalou a sua imagem de “duro”; ou de Scarface, de Howard Hawks, com Paul Muni (1932), este vagamente baseado na vida de Al Capone. Que, diz-se, gostava tanto da fita, que tinha uma cópia para ver em privado.
Se o western é a epopeia americana, o filme de gangsters pode ser encarado como o anti-épico, um género de ambiente urbano, com personagens anti-heróicas e não-exemplares, representativo de valores negativos, gerados pelo lado mais negro da sociedade dos EUA. Mas como notou a citada crítica do The New York Times, os espectadores, americanos ou não, sentados na segurança confortável dos cinemas, desde logo se mostraram fascinados pelas vidas, pelas histórias e pelas acções dos gangsters, reais ou ficcionais. E os estúdios têm continuado a alimentar essa fascinação ao longo das décadas.
John Dillinger, por exemplo, teve a primeira aparição no cinema em Dillinger, de Max Nosseck (1945), interpretado por Lawrence Tierney, foi biografado por John Milius, com os traços de Warren Oates, no empolgante Dillinger (1973), e Lewis Teague contou a história da mulher que o traiu ao FBI numa excelente série B de 1979, A Mulher de Vermelho. James Cagney tornou-se no gangster’s gangster graças a Anjos de Caras Sujas, de Michael Curtiz (1938), The Roaring Twenties, de Raoul Walsh (1939) – em ambos ao lado de um Humphrey Bogart em ascensão – ou Fúria Sanguinária, também de Walsh (1949). Roger Corman filmou o Massacre de S. Valentim em O Grande Massacre (1967), e deu a Charles Bronson o papel do título em Machine-Gun Kelly (1958), enquanto Don Siegel transformou Mickey Rooney em Baby Face Nelson no filme homónimo de 1957. Arthur Penn filmou Bonnie e Clyde (1967) retratando o casal de assaltantes de bancos como (duvidosos) heróis populares da Grande Depressão, e Barry Levinson deu a Warren Beatty o papel principal em Bugsy (1991), sendo muito criticado por branquear o lado violento e sociopata de Bugsy Siegel.
O gangster movie até já gerou musicais com crianças (Bugsy Malone, de Alan Parker, 1976) e paródias (Johnny Perigosamente, de Amy Heckerling, 1984). E o genial Quanto Mais Quente, Melhor, de Billy Wilder (1959) é também um pouco um filme do género, contando com a presença de George Raft. Que, por ter sido amigo de muitos bandidos famosos e do citado Bugsy Siegel em particular, fez a ponte entre o mundo dos gangsters reais e o do cinema que, embora esporadicamente, ainda continua a pô-los em cena.

Anúncios

Cinema: Fugindo dos mafiosos

Posted in Uncategorized with tags , on 13 de Dezembro de 2008 by gm54

Escondido da Máfia

Escondido da Máfia

O filme “Gomorra”, baseado no livro homônimo, virou best-seller em 43 países e um marco do actual cinema italiano, estando já na lista dos favoritos do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.

 

O seu autor, o jornalista Roberto Saviano, escondido e protegido por escolta policial desde 2006, quando lançou o livro na Itália, foi ameaçado de morte e corre o risco de não comemorar o Natal este ano. A Camorra italiana, organização criminosa sediada em Nápoles com ramificações em todo o mundo, prometeu matá-lo até o dia 25, colocando um ponto final na sua carreira.

A leitura de Gomorra – paronímia que aproxima a cidade bíblica dos pecadores da Camorra italiana – deve ser feita preferencialmente com um balão de oxigênio por perto. O ar é fétido, irrespirável, desde o primeiro parágrafo, em que Saviano descreve uma cena apocalíptica. Nela, um contêiner balança no porto de Nápoles enquanto a grua se desloca para o navio. Do seu interior desabam corpos congelados de chineses, cujos documentos devem ter passado às mãos de compatriotas, igualmente explorados pela Máfia chinesa, que, segundo Saviano, trabalha em sociedade com a Camorra. E apresenta dados de tirar o fôlego: 20% das importações têxteis da China passam pelo porto de Nápoles, onde 60% das mercadorias escapam do controle aduaneiro. É também em Nápoles, segundo ele, que opera o maior armador do Estado chinês, que administra o maior terminal de contentores napolitano em sociedade com empresários suíços, donos da segunda maior frota de navios do mundo.

Bastaria essa denúncia para Saviano ser ameaçado pela Camorra. Apesar do apoio público que recebeu de escritores como o anglo-indiano Salman Rushdie e do vencedor do Nobel Orhan Pamuk, o destino de Saviano parece mesmo selado desde o dia em que se infiltrou entre os camorristas para descobrir como funcionava a máfia napolitana. Ele descobriu uma organização envolvida tanto no tráfico de drogas como no despejo clandestino de resíduos químicos, além dos rotineiros crimes de vingança que envolvem famílias camorristas e seus dissidentes. No ramo “empresarial”, a Camorra comandaria ainda a construção civil na Itália, a fabricação de leite adulterado, a importação de fuzis Kalashnikov e até o tráfico de moldes das grifes européias para a China dos falsificadores. Nada mais globalizado que o crime organizado.