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Sean Penn se supera em “Milk” , o melhor filme da temporada

Posted in Óscares, Cinema, Comportamento with tags , , , , on 19 de Fevereiro de 2009 by gm54
Penn conquistou a sua quinta indicação ao Oscar

Penn conquistou a sua quinta indicação ao Oscar

Por A. O. Scott – Uma das primeiras cenas do filme “Milk” mostra uma paquera numa estação do metro nova-iorquino. É o ano de 1970, e um executivo da área de seguros, vestido de fato e gravata, avista um homem mais jovem em roupas surradas – a expressão “hippie com cara de anjo”, alusiva a Jack Kerouak,  surge na sua mente – e o provoca com um gracejo ao subir as escadas. O clima é sexy e descontraído e a cena acaba com os dois homens comendo um bolo de aniversário na cama.

O tom de brincadeira provocativa do momento é, de certa forma, afável, dadas as expectativas de um filme sério e importante baseado em factos históricos. Com direcção de Gus Van Sant e roteiro de Dustin Lance Black, “Milk” certamente é este tipo de filme, porém consegue fugir de muitas das armadilhas presentes em outros filmes que retratam a época, graças ao encanto e à tenacidade do seu personagem título.

Harvey Milk (interpretado por Sean Penn), um activista de bairro que acaba por ingressar na carreira política em San Francisco em 1977, é assassinado juntamente com o então prefeito da cidade, George Moscone (Victor Garber), por um ex-inspector chamado Dan White (Josh Brolin) no ano seguinte. Apesar da modéstia do seu cargo e do trágico encurtamento do seu mandato, Milk, um dos primeiros políticos a assumir a homossexualidade nos Estados Unidos, teve um impacto profundo na política nacional e influenciou a cultura do país, confirmando assim o seu status de pioneiro e mártir.

A sua curta carreira inspirou uma ópera de Stewart Wallace, um excelente documentário (“The Times of Harvey Milk”, de Rob Epstein, 1984) e agora o longa-metragem “Milk”,o melhor filme americano do circuito comercial que vi este ano. A propósito, não estou a jogar confete nesta produção, embora 2008 tenha sido um ano bastante medíocre para Hollywood. “Milk” é um filme acessível e instrutivo, uma crônica ardilosa sobre a política de cidade grande e o retrato de um guerreiro cuja paixão se equiparava à sua generosidade e ao seu bom humor. Sean Penn, actor de intensidade emocional e disciplina física incomparáveis, consegue se superar neste filme, interpretando um papel diferente de todos que já fez anteriormente.

É muito mais uma questão de temperamento do que de sexualidade: um actor heterossexual no papel de um homossexual não é mais nenhuma novidade. Bem diferente do seu personagem em “Sobre Meninos e Lobos” (Clint Eastwood), o ex-condenado Jimmy Markum, Harvey Milk é extrovertido e irônico, um homem cuja auto-imagem expansiva e às vezes até piegas camufla uma mente incisiva e uma vontade ferozmente obstinada. Sem fazer esforço, Senn consegue capturar tudo isso através da sua voz e gestual. Porém, o mais impressionante é a maneira como o actor consegue transmitir o princípio essencial da afabilidade de Milk, uma virtude pessoal que também funciona como princípio político.

Isso não quer dizer que “Milk” seja um daqueles filmes fáceis, que nos fazem sair do cinema com uma sensação boa, tampouco que o seu herói seja um tímido santo liberal. O filme traz uma raiva justificada e também um lirismo melancólico surpreendente. Van Sant sempre praticou um tipo de romantismo desinteressado, deixando as suas histórias se desenrolarem de maneira prosaica, ao mesmo tempo em que vai introduzindo toques de beleza melancólica (neste filme ele é ajudado pela musicalidade elegante de Danny Elfman e pela fotografia expressiva de Harris Savides, cujas habilidades de enquadramento e foco poderiam ser chamadas de carinho).

Nos anos posteriores a “Encontrando Forrester” (2000), Van Sant se dedicou a projectos menores, alguns deles (como o filme “Elefante”, vencedor da Palma de Ouro) com actores amadores, e nenhum deles com a preocupação de atender a aprovação do público de massa. “Uma Voz nas Sombras”, “Elefante”, “Últimos Dias” e “Paranoid Park” são ligados pelo espírito de exploração formal – elementos do estilo experimental de Van Sant incluem tomadas longas, narrativas fragmentadas e evasivas e uma maneira de compor as cenas enfatizando a textura visual e auricular sobre a exposição dramática convencional – além de uma preocupação com a morte.

James Franco forma par com Sean Penn em "Milk"

James Franco forma par com Sean Penn em "Milk"

Como nos filmes “Elefante” (inspirado no massacre ocorrido na escola Columbine High) e “Últimos Dias” (inspirado no suicídio de Kurt Cobain), “Milk” é a crônica da morte anunciada. Antes daquele encontro na estação de metro, já vimos vídeos reais a mostrar as consequências do assassinato de Milk, bem como fotos de homossexuais sendo detidos pela polícia. Estas imagens não estragam a intimidade entre Harvey, o executivo engomadinho, e Scott Smith (James Franco), o hippie com quem passa a ter um relacionamento marital e se torna o seu principal assessor de campanha. Ao invés disso, o constante risco de assédio, humilhação e violência é o contexto que define tal intimidade.

E a sua recusa em aceitar isso como um facto da vida, a sua insistência em ser quem ele é sem segredos ou vergonha, é o que faz o Milk boêmio, dono de uma loja de artigos fotográficos, transformar-se (depois de deixar Nova York e o segmento de seguros) num líder político.

Cinema biográfico, de política a sexo

“Meu nome é Harvey Milk e eu quero recrutá-lo”. Era com esta frase que Milk geralmente começava as suas palestras para quebrar a tensão entre o público hetero, mas o filme mostra-o apresentando a mesma introdução também para multidões dominantemente homossexuais, com uma inflexão ligeiramente diferente. Ele quer recrutá-los para a política democrática, para persuadi-los de que o estigma e a discriminação com os quais estão acostumados a aguentar em silêncio, e até mesmo com culpa, podem sem abordados através do voto, através da demonstração, através da reivindicação da parcela de poder que é de direito e responsabilidade de todo cidadão.

O roteiro de Black é forte por conseguir captar tanto o radicalismo da ambição política de Milk quanto o pragmatismo dos seus métodos. Para Milk, a política moderna prospera na intersecção confusa e muitas vezes gloriosa dos interesses sujos e dos ideais nobres. Pouco depois de mudar-se com Scott de Nova York para o bairro de Castro, em São Francisco, Milk começa a organizar os residentes gays da vizinhança, procurando aliados entre empresários, sindicatos e outros grupos.

A elite gay da cidade, incomodada por suas tácticas de confronto, o mantém à distância, deixando para ele a função de construir um movimento desde a base, com a ajuda de um jovem demagogo e um ex-michê chamado Cleve Jones (Emile Hirsch).

Por mais de duas horas intensas e animadas, Milk age de acordo com muitas das convenções do cinema biográfico, mesmo que nem sempre com os detalhes precisos da biografia do herói. O incansável comprometimento político de Milk acaba afectando os seus relacionamentos, primeiramente com Scott e depois com Jack Lira – um jovem instável e impulsivo vivido por Diego Luna com um entusiasmo lírico.

Filme retrata engajamento em São Francisco na década de 1970

Filme retrata engajamento em São Francisco na década de 1970

Entretanto, questões relativas à cidade de São Francisco são ofuscadas por um referendo estatal em prol dos direitos anti-gay e da cruzada nacional para derrubar leis municipais anti-discriminatórias, liderada pela garota propaganda dos comerciais de sumo de laranja Anita Bryant. É o desabrochar da guerra cultural, e Milk encontra-se no meio do campo de batalha (assim como 30 anos depois, no encalço da “Proposition 8”, referendo que eliminou o direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia).

O filme “Milk” é uma fascinante lição de história cheia de nuances. Guardadas as proporções e variedades visuais, ao assisti-lo temos a impressão de ver um filme de Oliver Stone um pouco mais calmo, sem as hipérboles e melodramas edipianos. Porém, também é um filme que se assemelha a outros trabalhos recentes de Van Sant – e, curiosamente, também ao filme “Zodíaco”, de David Fincher, que gira em torno de outro facto ocorrido em São Francisco nos anos 70 – ao respeitar os limites da explanação psicológica e sociológica.

Dan White, antigo colega de Milk e o seu eventual assassino, assombra o filme representando tanto a banalidade quanto o enigma da maldade. Brolin o faz parecer ao mesmo tempo desprezível e assustador, sem fazê-lo parecido com um monstro ou com um palhaço. Motivos para o crime de White são sugeridos no filme, mas um relato claro demais dos mesmos poderia distorcer a terrível veracidade da estória, minando assim a força do filme.

Esta força encontra-se no seu estranho equilíbrio entre proporção e matiz, na sua habilidade de abordar praticamente tudo – amor, morte, política, sexo, modernidade – sem perder de vista as particularidades íntimas da sua história. Harvey Milk foi uma figura intrigante e inspiradora. “Milk” é um filme genial.

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Ledger pode levar Oscar póstumo; veja todos os indicados

Posted in Óscares with tags , , on 23 de Janeiro de 2009 by gm54

Oscar - 22 de fevereiro, o dia D

Oscar - 22 de fevereiro, o dia D

O Oscar será entregue em 22 de fevereiro, em cerimônia que será apresentada pelo actor Hugh Jackman, uma alteração importante, pois a festa sempre teve no comando um comediante.

O Curioso Caso de Benjamin Button é o grande favorito, liderando a lista dos indicados da Academia com 13 indicações, incluindo a de melhor filme. Rendeu ainda uma indicação a Brad Pitt como melhor actor, a Taraji P. Henson como coadjuvante e a David Fincher de melhor director.  O filme chega perto de outros recordistas de indicações: All About Eve, de Joseph L. Mankiewicz, com Bette Davis, que em 1951 ganhou cinco estatuetas, mas teve 14 indicações, mesmo número obtido por Titanic, de James Cameron, em 1997, quando levou 11 prêmios.

Outro favorito desta 81.ª edição do Oscar é Quem Quer Ser um Milionário?, o filme vencedor de quatro Globos de Ouro, incluindo o de melhor filme. Foi indicado em nove categorias e ainda disputa com duas composições na categoria de melhor canção: ‘Jai Ho’ e ‘O Saya’.  Com oito indicações aparecem Milk – A Voz da Liberdade e Batman – O Cavalheiro das Trevas, enquanto O Leitor e A Dúvida, ficaram com cinco cada um. Todos estão indicados na categoria melhor filme, incluindo ainda Froost/Nixon.

A primeira categoria anunciada foi a de melhor actriz coadjuvante. Sem surpresas, entra na disputa a actriz espanhola Penélope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen. É a segunda indicação da actriz ao Oscar, que disputou como melhor actriz com Volver, de Almodóvar, em 2006. As outras concorrentes da categoria são Viola Davis(A Dúvida), Taraji P. Henson (O Curioso Caso de Benjamin Button), Amy Adams (A Dúvida) e Marisa Tomei (O Lutador).

Meryl Streep, a recordista de indicações, vai subir ao palco da cerimônia do Oscar pela 15.ª vez, pelo seu desempenho em A Dúvida, que promete ser um show de interpretação, pois também rendeu uma indicação de melhor actor coadjuvante a Philip Seymour Hoffman e de melhor actriz coadjuvante a duas actrizes do filme: Amy Adams e Viola Davis. Meryl concorre na categoria de melhor actriz com Angelina Jolie (A Troca),  Anne Hathaway (O Casamento de Rachel), Melissa Leo (Frozen River) e Kate Winslet, a vencedora do Globo de Ouro por seu papel no filme O Leitor .

O actor Heath Ledger poderá ganhar o primeiro Oscar póstumo da história do prêmio, pela sua interpretação do vilão Coringa, de Batman – O Cavalheiro das Trevas. Hoje, 22, faz um ano que o australiano Ledger, de 28 anos, foi encontrado morto no seu quarto por uma overdose de remédios. Ledger foi indicado ao Oscar em 2006 pelo seu papel de destaque como o caubói gay em O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Perdeu para Philip Seymour Hoffman, vencedor por Capote. Hoffman concorre este ano com Ledger na categoria de melhor actor coadjuvante pelo filme A Dúvida. Também concorrem nesta categoria os actores Robert Downey Jr. (Trovão Tropical), Josh Brolin (Milk) e Michael Shannon (Foi Apenas um Sonho).

O troféu de melhor actor será disputado por Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button), Richard Jenkis (The Vistor), Frank Langella (Frost/Nixon), Sean Penn (Milk – A Voz da Liberdade) e Mickey Rourke (O Lutador).

Filme indiano pode levar Oscar

Posted in Cinema with tags on 14 de Janeiro de 2009 by gm54

Danny Boyle

Danny Boyle

As quatro premiações do filme Slumdog Millionaire na 66ª edição do Globo de Ouro, no domingo, o tornaram um forte candidato a levar o Oscar, em fevereiro. A produção venceu na categoria Melhor Drama com a história de um jovem da periferia em busca do amor e prestes a se tornar milionário em um programa de televisão.

Ambientado em Mumbai, na Índia, o filme tem como director o britânico Danny Boyle, além de um orçamento de 14 milhões de dólares, valor considerado alto. A produção é considerada realista por retratar a esperança num cenário de pobreza – na Índia, aproximadamente 400 milhões de pessoas vivem com menos de 1 dólar por dia (26,00 meticais).